sexta-feira, julho 20, 2018

De um tempo em eu era leve

Hoje ela me perguntou se eu me lembrava de algum momento da minha vida quando eu nao havia sido tirana comigo mesma. Algum momento em que me senti livre de minhas amarras, de minhas exigencias, de minha tirania. Esse tempo foi unico em minha vida e foi facil responde.la. Fui livre de uma forma que poucas vezes conseguir desta forma ser, Fui livre quando vivi ao lado do David. Fui livre porque nao tive medo. Eu me sentia tao cuidada, tao segura, tao servida que mesmo com a evidencia a minha frente, eu acreditei ate o ultimo momento que eu nao o perderia. Eu nao tinha medo de nada, nem mesmo de perde-lo. E essa liberdade nao era fruto de ignorancia e nem falta de amor. Pelo contrario, o amor dele por mim me deu super poderes que eu nunca mais teria. Ao lado dele eu virei a versao mais poderosa de mim mesma. E foi essa capacidade que me possibilitou tambem ser a melhor versao de mim mesma no momento em que a vida mais me solicitou que assim eu fosse. E foi tudo muito natural. Cuidar dele na minha melhor capacidade nao foi apenas um ato de amor, foi um ato de ser aquilo que ele mesmo me havia preparado para ser.\
Mesmo depois que David morreu eu permaneci forte na minha tristeza e vivi com toda a digniddae que me era possivel viver aquela que seria ate entao a maior tragedia da minha vida.\
Mas os super poderes que David me deu nao durariam para sempre e eles se foram com os dias, quando a vida foi ficando pesada, quando me encubi de responsabilidades maiores que eu mesma, responsabilidades de cuidar de outros que de mim precisavam, assim como ele precisou, mas que nnao me davam o chao e a seguranca que ele me deu.
E assim fui vivendo por estes anos todos, me encubindo de cada vez mais responsabilidades, de cuidar, de prover, de resolver, de decidir, de conseguir e me privando de todos os prazeres que tinha na vida.
E aqui cheguei. Ao ponto em que os sacos de pedra que eu mesma coloquei nas minhas costas chegaram ao limite da minha forca e eu, literalmente, me quebrei. Me doeram as pernas, os pes, os cotovelos, as costas, o coccix, e meu espirito se calou.
Ha pouco tempo eu me perguntava aqui mesmo, neste espaco que construi para mim mesma e que de mim eu tirei, o que era que eu havia perdido. Agora comeco a encontrar as respostas.
Quando eu me mudei para este apartamento, que e meu, meu mesmo, meu pra fazer o que eu quizesse, numa cidade que me permite que eu va com meu carro, ou com minhas pernas , aonde eu quiser. E eu fiz tao pouco, fui tao pouco.
Todas as noites eu olhava para o meu terracinho, o meu quadrado no mundo e pensava. Como seria maravilhoso aqui me sentar, beber uma taca de vinho, acender um cigarro e escverr. Como seria maravilhoso se eu me permitisse. E foi assim que descobri o quao pouco que tenho me permitido.
E hoje finalmente inicio uma nova fase na minha vida, ao 51 anos. E a fase da permissao. Eu vou me permitir.
E sentada hoje estou, numa linda noite de verao, em meu terracinho em Lisboa. Bebo um vinho, fumo um cigarro e escrevo. Essa sou eu.

quinta-feira, julho 19, 2018

Inner bully

Vou iniciar meu diário de TMS- Tension Myoneural Syndrome. I need to beat this bitch!
Me disseram que eu tinha Lyme Disease. Não tenho. Depois eu disse a mim mesma que tinha alguma doença auto-imune. Encontrei várias alternativas para os meus sintomas, era só escolher. Depois descobri Dr Sarno. E desde então venho tentando mudar o que em mim tem sido o mais difícil. O seticismo.
Eu sempre disse: Se eu tivesse escolha jamais seria atéia.
Mas o que acontece é que essa rigidez toda está me tirando a vida. 
Rigidez pela manhã, literalmente. Quando chega a hora de acordar e ocupar esse espaço no qual tenho que viver. Meu corpo, minhas lembranças, minhas faltas, minhas amarguras, meus resentimentos.
Meu apartamento é o local perfeito para se sentar e escrever enquanto se fuma um cigarro.
Não pode. Dá câncer.
Lugar perfeito para se comer de tudo.
Não pode. Engorda.
Para se fumar maconha.
Não pode. Eu piro.
Para se ter amantes.
Não pode. Nem sei mais se gosto da coisa.
Não pode. Não pode.
Mas olha o que pode:
Pode fazer a dieta whole 30, que é uma dieta super restritiva.
Pode fazer exercício com canelera.
Pode ficar no Tinder mas nunca sair com ninguém.
Pode sentar no escritório e ficar trabalhando, e trabalhando, e trabalhando por muitas e muitas horas, e até não me aguentar mais sentada e até ficar com muita dor no coccix, e quando eu for levantar da cadeira, tudo dói. Que é para saber que dessa cadeira vc não deve jamais levantar.
Não aguento mais a minha tirania.
Esse inner bully!





quarta-feira, junho 13, 2018

Uma invenção de cozinha

A cozinha era tão grande mas tão grande que resolvi que melhor seria se não fosse uma cozinha mas sim um quarto. E assim, de uma hora para outra, sem aviso prévio e com pouca oportunidades para se voltar atrás, fui ao banco, conversei com o Beto, o meu mestre de obras, fui na Ikea, aluguei um apartamento em Oreiras, peguei a Bidu e saímos de casa. São 12 dias fora de casa enquanto a cozinha como se conhecia é totalmente desfeita, o espaço vira um novo quarto que agora ficará voltado para um novo jardim e uma nova cozinha será montada na sala. Esse é a minha caverninha em Lisboa. Amo!

domingo, março 04, 2018

Mas o que?

Como se recupera algo perdido quando não se sabe o que foi perdido mas se tem a certeza da sensação de perda? Como traçar um plano, um caminho, se não se sabe onde se quer chegar?
Sinto uma falta enorme de algo que perdi e não si o que é. Só sei que é algo em mim, não é alguém ou alguma coisa.
Eu acordava de manhã com vontade de trabalhar, tinha um enorme prazer naquilo que fazia e por isso conseguia trabalhar tanto. Agora trabalho porque tenho que ganhar o meu sustento.
Mas talvez algo mude em breve.
Talvez.

quinta-feira, fevereiro 08, 2018

Luzes da Ribalta

Vejo as luzes amarelas do Mirador do Morro Agudo. O Miradouro é meu quintal.
Resolvi retomar velhos hábitos na esperança de me sentir eu novamente, A verdade é que eu me dei tanto a tarefa de criar a Marabel, que virou minha filha, que me abandonei. Não  abandonei no sentido estético ou físico, tenho 50 anos e estou muito bem para a minha idade. Estou saudável, bem fisicamente e o trabalho vai bem, Mas meu espaço interno ficou sufocado pela responsabilidade e cuidado que tenho tido com a Maribel estes anos todos. Me dediquei a ela de uma forma tão grande como só uma mãe o faria. Agora Maribel não mora mais comigo. Está na universidade e vive no Algarve, onde ela estuda. Ainda sou responsável por ela mas muito do espaço que ela ocupava se abriu e me esta enorme vontade de me re-encontrar dentro de mim.
Lisboa tem tudo o que eu poderia querer para mim. É mesmo um privilégio poder ter escolhido vir morar aqui. E é aqui, eu sei, que vou encontrar-me de novo com esse eu que ficou adormecido nestes últimos anos.

terça-feira, fevereiro 06, 2018

Lisboa é meu lar

Fiquei com muita vontade de retomar desejos, sensações e emoções vividos há anos atrás, quando me sentava no quintal de minha casa em Washington para escrever neste mesmo blog. No início o que me moveu foi a paixão por aquele homem. Depois foi a emoção criada por cada dia vivido, depois as dúvidas, as descobertas e as expectativas. Escrever sempre foi muito bom.
E eu adorava os meus seguidores, amigos e desconhecidos que acompanhavam cada letra escrita, cada novo trocadilho que eu criava.
Mas agora estou sozinha. Preciso de óculos para escrever. Sentadinha aqui, pela primeira vez, no quintal ainda por arrumar até ficar do jeitinho que fique assim um ninho, no aparamento que comprei em Lisboa. Lisboa, essa cidade que me abraça todos os dias, que me acolhe como se eu fosse uma prima distante, com seus velhinhos adoráveis que esbanjam carinho e saúde pelas ladeiras da cidade de tantas colinas. Eu e Bidu, minha vira-latinha que trouxe do Rio comigo, que me olha nos olhos como quem diz "você não está só não, eu estou aqui".
Em Takoma Park ouvia o barulho do metro que passava atrás da minha casa, aqui escuto os carros e vejo as costas de um dos tantos miradores.
Há algo que se perdeu pelas muitas horas destes 10 últimos anos vividos. Não sei ao certo o que foi. Havia uma efervescência em mim que já não encontro mais. Havia uma luz, uma esperança em algo de extraordinário que eu acreditava que aconteceria a qualquer momento. Aos 50 anos me tornei invisível. A emoção acabou. Como retomá-la?

segunda-feira, novembro 13, 2017

Mais solitário do que um paulistano

Assim diria Zeca Baleiro. Assim me sinto em São Paulo, cidade estranha demais.
Vinte e seis dias fora de Lisboa. Vinte e seis dias longe da Bidu. Vinte e seis dias para me apossar de uma nova casa. Me apaixonei por ela já nas fotos, tinha aquele mesmo amarelo que um dia pintei a casa de Washington. E tinha verde. De costas para o miradouro, lá é minha casa em Lisboa. Cidade que escolhi para mim. Cidade que escolhi para ir daqui até o fim.

quinta-feira, setembro 28, 2017

A vida replicada

Ainda me surpreende a velocidade com a qual construi esta vida aqui com o melhor das minhas vidas passadas. Minha vida em Lisboa tem fragmentos que muito me lembram minha vida em DC e outros que muito se assemelham a minha vida nos últimos tempos, no Leblon. Mas o melhor de tudo é que é fácil ser feliz em Lisboa!

segunda-feira, setembro 25, 2017

A boa agora é LISBOA!

Quanta coisa aconteceu desde o meu último post! Aquela cólica que meu médico disse que poderia ser uma verticulite causada por caroço de tomate se revelou um apendicite supurada que quase me levou de vez. Foi o maior sufoco mas com final feliz. Eu sobrevivi. E não apenas sobrevivi como um mês depois dei o maior festão dançante para comemorar meus 50 aninhos, dos quais me orgulho MUITO, seguido da tão esperada viagem para Lisboa. No dia 4 de julho, dia da independência americana, eu me resumia a cinco malas, duas cadelas e uma filha. Essa era eu. E foi essa qua saiu do Rio de Janeiro nesse dia rumo a uma nova vida, de novo.

No dia 5 de julho chegamos a Lisboa e desde então venho jurando a mim, e a todos, que vou escrever sobre essa nova experiência, que vou escrever sobre mim, que vou escrever sobre qualquer coisa mas que sim, vou escrever.

E em menos de três meses que por cá estou a viver (ah sim, tem isso...o Português continental começa a se emaranhar com a minha carioquice...) eu comprei um carro, transplantei a vida que viva no Leblon para essa que agora vivo em Lisboa, e estou fechando a compra de um apartamento lindinho em Penha de França, um bairro central, histórico e tradicional de Lisboa onde os prédios quase todos ficariam felizes cem receber uma demão de tinta.

E o o meu deslumbramento, e os de outrem, com a vida que aqui levamos, é imenso. Deslumbramento pelas coisas simples da vida que foram tomadas de nós. Coisas do tipo dirigir com a janela aberta ou caminhar pela rua de noite, no escuro, na viela deserta, são coisas que me emocionam e me entristecem ao mesmo tempo. Meu Deus, que vida roubada vivíamos nós, que aprisionamento...o medo constante e o pavor do sobressalto.

Nos fins de semana ficava a seguir a minha filha pela cidade. Maribel, chegou na casa da Fernanda? Maribel, me avise quando sair daí. Maribel, me passa as informações do Uber, me copia o mapa, me liga, me chama, me manda mensagem, me diz que você está viva, a cada novos 10 minutos.

Na primeira noite que Maribel saiu com os novos amigos em Lisboa ela me mandou uma mensagem as 4 da manhã perguntando a que horas deveria voltar para casa. Eu só vi a mensagem no dia seguinte porque as 4 da manhã eu dormia uma sono que há muito já não me era mais possível.

To be continued...


quarta-feira, março 01, 2017

Quarta-feira de cinzas

Passei os dois últimos dias do carnaval na cama, com uma dor no abdomen que meu médico diz ter sido alguma semente de tomate ou castanha demais. Não sei o que foi, só sei que fiquei, de fato, debilitada. E debilitada assim, no meio da tarde de hoje, me veio de repente um medinho... e se eu não tiver dinheiro suficiente para viver em Lisboa? E como vai ficar a minha empresa? E minhas consultorias? Esses são os medos que me permitem que eu me permita as maiores ousadias, como a de resolver, assim de supetão (como se alguma coisa na minha vida não fosse de supetão), que vou me mudar para Lisboa e ainda assim pensar sobre todas as questões envolvidas no projeto.
Estou aguardando pelo meu visto, que espero sair na semana que vem.
Estou aguardando...e no aguardo e na ansiedade, já senti várias dores estranhas e já desconheci meu corpo por muitas vezes.
Conto os dias para recomeçar a minha vida aos 50 anos!

domingo, fevereiro 19, 2017

Um consulado, uma universidade e duas sorologias caninas caras demais

Na segunda-feira dei entrada no meu pedido de visto de residência no consulado português. A pessoa que me atendeu disse que estava tudo Ok com meus papéis e que dará tudo certo. Disse que terei uma resposta em breve.
Apenas algumas horas da minha volta do consulado Maribel me diz que ela recebeu um email da Universidade do Algarve e que havia sido aceita no curso de artes visuais. Fiquei muito feliz por ela e por nós duas. Foi um ano bastante difícil para nós duas. Peguei o telefone e enviei um whatsapp para o pai, informando da vitória da Maribel. O homem levou quatro dias para falar sobre o assunto com ela, e mesmo assim porque enviei nova mensagem para ele. E ela, não cobra do pai. Não briga com o pai. Aceita o mínimo que ele dá pra ela e o protege. Na verdade, é a si mesma que ela está protegendo. Quando perdoa o pai pela ausência, e porque não dizer, total negligência, Maribel consegue mascarar ainda mais um pouco o seu sofrimento.
Mas sentei com ela e disse: Maribel, meu amor. Ao longo de sua vida, espere mais e exija mais daqueles que dizem que te amam.
Ontem levamos Bidu e Delilah, a nova duplinha da casa, que veio após o falecimento do Moby em 2013 e depois da Bebel em 2015, para fazer o teste de sorologia de raiva, exigido pela Comunidade européia. Caro demais o teste
Bebel morreu aos 14 anos e tive que sacrificá-la. Foi muito triste e passei um período de luto. Mas em casa eu já havia adotado a Bidu de uma feira de adoção no Humaitá. Bidu é uma viralatinha, pequena, de 15 kgs, com cara de curujinha, que adora armar um barraco. Delilah é a dálmata da Maribel, resgatada de maus tratos, saiu de um quintal sujo de uma casa onde lhe davam menos que o mínimo para então viver ao lado de Maribel como se fosse sua sombra.
Estamos todas nos preparando para a grande viagem de encontro ao colonizador.


sábado, fevereiro 11, 2017

Quantos dias?

O mais triste de envelhecer é perceber que o tempo necessário para se recuperar das porradas da vida está diminuindo a cada dia.
Tenho sentido o peso dos dias com muita força, mas não são dos dias vividos e sim dos dias não vividos. Eu estou, oficialmente, em processo de envelhecimento. Porque assim me declaro. 
Tenho ficado triste com a fraqueza do corpo, com as dores ao levantar, ao me mover, com a delicadeza de músculos que um dia não sentiram nada. Tenho reparado em todos os detalhes, cada nova dorzinha, cada nova manchinha. Repito para mim mesma que se envelhecer tem esse lado tão ruim, há de se lembrar da liberdade que aos poucos vou conquistando, da liberdade de aos 50 anos poder decidir-me por ir morar em Lisboa. Fiz escolhas ao longo de toda uma vida que me prepararam para este momento, que me deram as devidas condições para tal. Vou envelhecer (ainda mais) em Lisboa e possivelmente lá morrerei.
Perto do Tejo, como deve ser.

domingo, fevereiro 05, 2017

Receitas de Nora Ephron

Nora Ephron gostava de cozinhar. Por isso o roteiro de Julie e Julia é de dar água na boca, literalmente. Mas Nora Ephron teve algumas boas decepções amorosas na vida, daí os diálogos ácidos de When Harry met Sally. Mas Sleepless in Seattle não deixa dúvidas de que no fundo ela era uma romântica.
Estou no terceiro livro que leio dela. Ela me lembra eu mesma, de alguma forma. Não é apenas o judaísmo. a paixão pelo texto ou as sátiras sarcásticas da vida doméstica, e urbana, de uma grande cidade. Tem também a cozinha, paixão que desenvolvi quando descobri que Maribel era facilmente "comprável"com comida. No início percebi que nossas brigas podiam ser resolvidas com churros, depois percebi que nem precisava sair por Itaipava em busca de uma carrocinha de churros, já que a comida caseira da Lu também era o remédio. E quando fomos morar em Israel fiquei surpresa ao ver que Maribel sentia uma satisfação enorme quando eu cozinhava para ela. E foi assim, fazendo pizza, petit gateau e morango com chocolate que fomos chegando mais próximas uma da outra, a ponto dela ter escolhido ficar comigo no Brasil quando o pai anunciou que iria voltar para Israel, logo após a nossa separação. Queria dizer "divórcio" mas a verdade é que até hoje ele não conseguiu ainda me dar o divórcio, e como somos casados em Israel apenas, eu desisti de pedir. Ele, que mora em Israel, continua casado comigo, enquanto eu, que moro no Brasil, não mais.
Neste livro, Heartburn, Nora Ephron descreve algumas receitas simples. Tem pudim de pão e torta de pêssego. As receitas são poucas, mas resolvi fazer com Nora o que Julie fez com Julia, e vou fazer as receitas que Nora descreve em Heartburn. Assim que terminar o livro, que vai ser essa semana, vou fazer a primeira receita.

quarta-feira, fevereiro 01, 2017

Adeus ao que um dia foi meu

Neste último Dezembro a casa amarela foi vendida. Decidir por vender a casa e realizar o fato foi o feito mais difícil da minha vida. Porque a morte de David não foi um feito. Foi puro desfeito.
Em Janeiro completou 10 anos desde que saí dos Estados Unidos e voltei a morar no Brasil. É tempo demais a olhar a vida passar de uma única janela. Por isso, este ano, me mudarei para Lisboa, onde cada janela é um espio de vida.
Quero me casar pela terceira vez. Quero outra chance. A minha nega. Melhor de 3!
Meu primeiro casamento me deixou com um gosto de quero mais tão forte que nem a amargura do segundo casamento foi capaz de desfazer. Ainda sinto este gostinho, todos os dias.
Da minha cama vejo  o Cristo e sei quando vai chover. Essa visão é o mais próximo que já cheguei de prever o futuro. Previsão não há, mas há desejo.
Acho que é porque ando lendo Nora Ephron que me lembrei desse blog. Me reconheci na sua narrativa apressada, sarcástica e inteligente. E também no seu profundo namoro com Nova Iorque. Um dia já me senti assim com o Rio de Janeiro. Era puro amor. Olhava para a pedra da Gávea e ficava deslumbrada como a amante quando olha no profundo dos olhos do amado. Sentia a entorpecência que como tudo no Rio, vinha misturada com areia e cheiro de asfalto quente. Gostava de pensar na cortina da sala voando ao vento, com os raios de sol entrando pela casa como verdadeiros feixes de luz. Pura imagem da infância, armazenada na memória dos dias de faxina, quando a poeira subia e era captada pelo sol que entrava em casa.
Exibida que era, mostrava o Rio com orgulho aos amigos que vinham de fora. Dizia que no Rio se podia olhar para qualquer lado, e que a beleza morava nos quatro cantos da cidade.
O deslumbramento foi substituído por frustração, medo e rancor. Nossa lua de mel acabou.


quinta-feira, abril 21, 2016

Canelera da meia idade

Ha! Estou cheia de energia, malho todo dia,...quer dizer a palavra malhar não se usa mais. Agora se diz treino. Treinou hoje? Que horas você vai treinar?  Não sei como a troca aconteceu, só sei que um dia estava na academia e percebi que ninguém falava malhar, só treinar. Então eu treino todos os dias. Isso é novo na minha vida. Sim, verdade que comecei a correr em 2006, na mesma época em que parei de fumar e consegui me livrar daquele homem. E corri ao longo de muitos anos, alguns nos Estados Unidos, outros em Israel e outros ainda no Brasil. Mas não corro mais. Troquei as corridas pelas aulas de localizada e pela hidroginástica. Que eu iria adorar hidroginástica era fácil de saber, sempre amei água e se eu tivesse qualquer simpatia por horóscopo descobriria que meu elemento é água. Mas aula localizada??? Com canelera, professor contando 1, 2, 3 e 4 repetidamente? Nunca pensei.

Fazer exercício tem hoje para mim um sentido muito diferente daquele que já teve um dia. Estar em forma, me sentindo bem e com energia me dá vigor quando faço aquela conta de trás pra frente. Quem está beirando os 50 sabe bem de que conta estou falando. Quantos anos bem? Quantos anos para curtir? Quantos anos para viajar? Faço essa conta sempre. E sempre chego no número 22. É bastante tempo ainda.

Não é o número de anos a se viver. A conta não é essa. É o número de anos ainda por se viver naquele corpo que se reconhece como propriedade. Essa é a conta.

No final do ano vou para Portugal. Vou. De verdade.

Bota os cachorros na caixa, de novo. Bidu e Dalaila. Não mais Moby e Bebel. Esses fizeram parte de outra vida. Quando Bebel morreu aos 14 anos, em setembro do ano passado, ali foi o fim de uma era.

Por isso outra era precisa se iniciar.

Estou quase pronta.

quinta-feira, setembro 11, 2014

Encontro com a amiga

Voltei agora do jantar com uma das duas únicas amigas americanas que fiz nos 12 anos que aqui vivi. Karen é alguém que carrego no meu coração. Ela estava próxima, do jeito que conseguiu estar na época, quando David morreu. Agora foi a vez dela. Karen é mais uma das milhares de mulheres americanas diagnosticadas com câncer de mama. Retirou o tumor, fez radioterapia e agora vai passar os próximos cinco anos tomando tamoxifen. Estar nos Estados Unidos tem esse preço, o preço da convivência íntima com a batalha de algum ente querido contra o câncer.
Essa foi uma das razões que me fez ir embora daqui. Eu tinha medo de ser mais uma. E esse medo, mesmo depois de ter indo embora, me acompanhou por muitos anos. E foi também esse medo que me fez deixar me envolver por um homem que cuidaria de mim caso a tragédia se abatesse sobre mim.
Mas em algum momento recente, as minhas perguntas mudaram e com elas as minhas atitudes e decisões também mudaram. Ao invés de me perguntar.."mas se um dia eu precisar, e se acontecer comigo?"eu comecei a me perguntar "e se não acontecer, e seu eu chegar aos 80 anos e descobrir que meu medo foi apenas isso, um medo?" Senti um medo ainda maior em pensar na possibilidade de ter vivido anos da minha vida me sentindo infeliz por conta da promessa de um ombro carinhoso caso eu precisasse. E pensei também que estar infeliz poderia por si só se transformar no que acarretaria a necessidade de ter alguém ao meu lado.
E este foi o caminho que resolvi seguir. Vou ser fiel aos meus desejos, aos meus sonhos, e deixarei que eles direcionem a minha vida. Vou dizer não ao medo.
Vou me proteger com aqueles que estão a minha volta, vou exercitar todo o meu prazer em me dar aqueles que de mim precisam e aqueles a quem posso estender a mão. Vou direcionar a minha energia, o meu tempo, e o meu amor aqueles que amo.
E foi então que finalmente encontrei um hobby pra mim. Agora virei artista e faço o que resolvi chamar de colar temático. São colares únicos, feitos para cada um do meu universo, que contém uma idéia dos sonhos e desejos que a minha leitura particular do outro me permite.
Vou fazer um colar temático pra você!

domingo, setembro 07, 2014

Dez anos sem ele

Na mesma semana em que ela descobriu que nenhum plano de saúde cobriria sua gravidez e você assinou os papéis do seu apartamento em Lisboa, eu fiz uma tatuagem no pulso, já que não poderia cortá-lo. Alguns dias depois eu pegaria um voo para Washington e me viria, uma vez mais, rodeada por paredes amarelas que eu mesma pintei num dia tal qual como hoje. Aquele dia era um dos últimos dias de verão aqui em Washington e eu estava em boa companhia, Moby e Bebel. No final do dia eu tinha uma sala feita de luz e dois cachorros amarelos.
Hoje eu peguei a bicicleta e desci a rua 14 até chegar no Trader Joe's, onde comprei duas garrafas de vinho e dois potes de Maple Syrup. Um pra mim e outro pra você.
Em novembro deste ano, dez anos terão se passado desde a morte do David. E nestes dez anos eu vivi a ausência dele de formas diferentes. Eu me apaixonei, me descabelei, me libertei, me re-encontrei e me abandonei. Passei a maior parte deste tempo vivendo a vida de outra pessoa. Eu tinha sonhos e desejos de outra e fiz uma força descomunal para me encaixar em planos que não reconhecia. Acho até que fui feliz, às vezes. Outras, fui miserável.
Moby também se foi, dormindo pacificamente, como somente os anjos podem ir.
Maribel ficou e sempre ficará. Maribel é o prêmio que me restou por tamanho sacrifício. O prêmio maior e única justificativa por ter vivido tamanho desencontro. Os meus dias seguirão cuidando dos meus amores, Maribel e Bebel. E cuidarei mais de mim. Pensarei mais em mim e pensarei sobre todas as coisas que ainda estão por vir.

sexta-feira, agosto 29, 2014

Comunicado aos amigos

Na mesma semana em que ela descobriu que estava grávida, você comprou um apartamento em Lisboa, e eu me desfiz de um casamento inventado. Tomei coragem pra desocupar aquela vida que não era a minha, aquele papel que nunca foi meu, aquela mulher que nunca fui eu. E corri pra cá sem demora e cá estou, essa mesma que sei quem sou. Mais velha, agora preciso dos óculos para escrever e uma vida para refazer.
 Desta vez não vou me re-inventar. Vou buscar aquilo que gosto, aqueles quem não mais via, os filmes perdidos, os encontros nunca acontecidos, a solidão da taça de vinho. Eu nunca tinha tempo porque estes últimos anos eu apenas passei, quando deveria ter passarinho.
Me sentia estrangeira em minha própria cidade, uma alienígena da alma e um corpo pobre de espírito. O sangue ainda escorre mas esse também tem hora para estancar. Os fios de meu cabelo já desbotaram, as mãos já não são mais as minhas e os dias agora são subtraídos de uma conta ainda desconhecida.

segunda-feira, setembro 23, 2013

Uma noite na casa Amarela

Sinto o frio de um inverno próximo e escuto os grilos. Uma noite sozinha na casa amarela, como foram tantas outras noites da minha vida. Aqui eu já fui de tudo. Fui feliz, fui alegre, fui triste, fui sonhadora, fui mulher e fui amante. Aqui meu mundo um dia caiu e passados muitos outros, um novo mundo se ergueu diante de mim. Eu morri e renasci, bem aqui. Mais um trem passou, indo sempre na mesma direção. Diferente de mim, que fui em muitas outras direções. Cruzei mares e continentes, vivi novas línguas e alfabetos. Eu amo esta casa profundamente. Olho para cada cantinho onde Moby e Bebel gostavam de ficar. Achei no basement um bola, uma bacia de alimentar cães e uma coleira velha. Sonhei muitos sonhos nesta casa, vivi para mim e Moby e Bebel nos últimos anos que estive nesta casa. E hoje penso: Eu estou viva e o que eu tenho hoje em minha vida foi mais do que pude esperar. Esta casa, com suas paredes, ficará. E eu, continuo ficando, horas por aqui e horas acolá.

segunda-feira, outubro 24, 2011

Uma bola de tênis de nome Wilson e um cão chamado Moby

Minhas palavras são movidas pela dor. Isso eu já sabia. Se não tem dor, não tem palavras. Ou elas não me veem e eu escrevo nada. Quando alguém me diz.."poxa, você não tem mais escrito.." tenho vontade de dizer ..."e isso é ótimo não?"
Escrever pra mim é analgésico e analgésico eu só tomo quando dói.
E agora tá doendo muito! Muito! E já fazia muito tempo que não sentia dor assim. Essa dor me transporta para outros tempos que já nem queria lembrar ou ter conhecido um dia.
Estou no Rio desde setembro, numa viagem que seria mais uma das minhas idas e vindas entre Israel e Brasil, dividindo minha vida entre o trabalho que está aqui e família que está lá. Sinais e possibilidades da era do skype, do torpedo, e da mais última descoberta em alta resolução; face time!
Mas nada disso pode substituir o desejo mais urgente e dilacerante de estar lá ao lado do Moby, olhando pra ele, fazendo carinho e cuidando dele.
Na quarta-feira passada ele acordou chorando e não conseguiu se levantar. Com muito esforço meu marido conseguiu levá-lo pra passear. Com muito esforço ele comeu na mão, com muito esforço bebeu água e voltou a dormir. No veterinário, dois dias depois, a notícia chegou rápido e implacável. O raio-X não escondeu o tumor que se instalou entre sua pélvis e o fêmur. O tipo espcífico não sabemos, mas possivelmente um daqueles nomes horríveis impronunciáveis por mim de tão feio que é. Deveriam ser todos banidos de todas as línguas do planeta.
E eu aqui, longe, me dilacerando por dentro e procurando passagens desesperadamente. Olhando a agenda e fazendo contas.
O estômago está virado ao avesso. O cigarro re-apareceu e nem sei da onde veio. A vontade é de sumir amanhã no primeiro voo para Tel-Aviv para ficar ao lado, só mais um pouquinho, desse bichinho que só me deu felicidade e amor incondicional. Que me acompanhou por nove anos nas minhas maluquices e nos momentos mais difíceis da minha vida, esse bichinho que sempre foi só felicidade, mesmo com todos os problemas de saúde que sempre teve. Que jogou bolinha mais que qualquer outro cachorro, que ainda se surpreende com as moscas, com as formigas, e que adora soprar na cara da gente porque nunca entendeu que o que a gente esperava era um beijo e não um sopro de cachorro. Que peidava sem cerimônia, que acordava no meio da noite pra uivar como um lobinho e depois cair no sono novamente. Que ronca a ponto do volume da TV ter que ser aumentado. Que não se deitava mas se jogava no chão como se fosse um saco de batata. Que sempre topou tudo e qualquer coisa e sempre foi muito paciente e educado. Foi sempre a companhia das cozinheiras e ficava deitadinho no chão da cozinha esperando pela casquinha do pepino. Foi sempre louco por pão, a única coisa que era capaz de roubar quando nos distraímos. E além de mim, sua paixão da vida inteira foi uma bola de tênis de nome Wilson.