quinta-feira, setembro 11, 2014

Encontro com a amiga

Voltei agora do jantar com uma das duas únicas amigas americanas que fiz nos 12 anos que aqui vivi. Karen é alguém que carrego no meu coração. Ela estava próxima, do jeito que conseguiu estar na época, quando David morreu. Agora foi a vez dela. Karen é mais uma das milhares de mulheres americanas diagnosticadas com câncer de mama. Retirou o tumor, fez radioterapia e agora vai passar os próximos cinco anos tomando tamoxifen. Estar nos Estados Unidos tem esse preço, o preço da convivência íntima com a batalha de algum ente querido contra o câncer.
Essa foi uma das razões que me fez ir embora daqui. Eu tinha medo de ser mais uma. E esse medo, mesmo depois de ter indo embora, me acompanhou por muitos anos. E foi também esse medo que me fez deixar me envolver por um homem que cuidaria de mim caso a tragédia se abatesse sobre mim.
Mas em algum momento recente, as minhas perguntas mudaram e com elas as minhas atitudes e decisões também mudaram. Ao invés de me perguntar.."mas se um dia eu precisar, e se acontecer comigo?"eu comecei a me perguntar "e se não acontecer, e seu eu chegar aos 80 anos e descobrir que meu medo foi apenas isso, um medo?" Senti um medo ainda maior em pensar na possibilidade de ter vivido anos da minha vida me sentindo infeliz por conta da promessa de um ombro carinhoso caso eu precisasse. E pensei também que estar infeliz poderia por si só se transformar no que acarretaria a necessidade de ter alguém ao meu lado.
E este foi o caminho que resolvi seguir. Vou ser fiel aos meus desejos, aos meus sonhos, e deixarei que eles direcionem a minha vida. Vou dizer não ao medo.
Vou me proteger com aqueles que estão a minha volta, vou exercitar todo o meu prazer em me dar aqueles que de mim precisam e aqueles a quem posso estender a mão. Vou direcionar a minha energia, o meu tempo, e o meu amor aqueles que amo.
E foi então que finalmente encontrei um hobby pra mim. Agora virei artista e faço o que resolvi chamar de colar temático. São colares únicos, feitos para cada um do meu universo, que contém uma idéia dos sonhos e desejos que a minha leitura particular do outro me permite.
Vou fazer um colar temático pra você!

domingo, setembro 07, 2014

Dez anos sem ele

Na mesma semana em que ela descobriu que nenhum plano de saúde cobriria sua gravidez e você assinou os papéis do seu apartamento em Lisboa, eu fiz uma tatuagem no pulso, já que não poderia cortá-lo. Alguns dias depois eu pegaria um voo para Washington e me viria, uma vez mais, rodeada por paredes amarelas que eu mesma pintei num dia tal qual como hoje. Aquele dia era um dos últimos dias de verão aqui em Washington e eu estava em boa companhia, Moby e Bebel. No final do dia eu tinha uma sala feita de luz e dois cachorros amarelos.
Hoje eu peguei a bicicleta e desci a rua 14 até chegar no Trader Joe's, onde comprei duas garrafas de vinho e dois potes de Maple Syrup. Um pra mim e outro pra você.
Em novembro deste ano, dez anos terão se passado desde a morte do David. E nestes dez anos eu vivi a ausência dele de formas diferentes. Eu me apaixonei, me descabelei, me libertei, me re-encontrei e me abandonei. Passei a maior parte deste tempo vivendo a vida de outra pessoa. Eu tinha sonhos e desejos de outra e fiz uma força descomunal para me encaixar em planos que não reconhecia. Acho até que fui feliz, às vezes. Outras, fui miserável.
Moby também se foi, dormindo pacificamente, como somente os anjos podem ir.
Maribel ficou e sempre ficará. Maribel é o prêmio que me restou por tamanho sacrifício. O prêmio maior e única justificativa por ter vivido tamanho desencontro. Os meus dias seguirão cuidando dos meus amores, Maribel e Bebel. E cuidarei mais de mim. Pensarei mais em mim e pensarei sobre todas as coisas que ainda estão por vir.

sexta-feira, agosto 29, 2014

Comunicado aos amigos

Na mesma semana em que ela descobriu que estava grávida, você comprou um apartamento em Lisboa, e eu me desfiz de um casamento inventado. Tomei coragem pra desocupar aquela vida que não era a minha, aquele papel que nunca foi meu, aquela mulher que nunca fui eu. E corri pra cá sem demora e cá estou, essa mesma que sei quem sou. Mais velha, agora preciso dos óculos para escrever e uma vida para refazer.
 Desta vez não vou me re-inventar. Vou buscar aquilo que gosto, aqueles quem não mais via, os filmes perdidos, os encontros nunca acontecidos, a solidão da taça de vinho. Eu nunca tinha tempo porque estes últimos anos eu apenas passei, quando deveria ter passarinho.
Me sentia estrangeira em minha própria cidade, uma alienígena da alma e um corpo pobre de espírito. O sangue ainda escorre mas esse também tem hora para estancar. Os fios de meu cabelo já desbotaram, as mãos já não são mais as minhas e os dias agora são subtraídos de uma conta ainda desconhecida.