sexta-feira, setembro 07, 2018

Aquele livro

Gosto de ouvir o caminhão de lixo trabalhando a noite. Percebi que a percepção de que havia homens trabalhando na noite, limpando a nossa sugeira, enquanto eu já me deitava era algo que me dava prazer, quando a cidade se acalmava, nosso lixo era recolhido.
Terapia, massagem e sauna. Esta tem sido a medicação da minha dor. Estou melhor, bem melhor. E aliviada, achei que tinha me quebrado de vez. Mas não, ainda não.
Escuto música dos anos 80, e me transporto para um tempo quando eu jamais poderia imaginar a mulher na qual me tornaria. Alguém marcada por uma tragédia que nunca poderia se desfazer. Não sei se penso no David todos os dias, talvez não. Mas mais que isso, ele existe em mim como se tivesse alugado pra sempre um espaço dentro de mim, como se por vezes usasse meu corpo para se-lo em mim. Minha relação coms os Estados Unidos é algo que nem sei explicar. De tudo, e apesar de tudo, ainda me sinto mais americana do que qualquer outra coisa. Meu irmão quando aqui esteve escutava Globo News todos os dias, eu mantenho meu canal ligado na CNN.
Penso no livro que um dia escreverei. Mas não sei.

sexta-feira, julho 20, 2018

De um tempo em eu era leve

Hoje ela me perguntou se eu me lembrava de algum momento da minha vida quando eu nao havia sido tirana comigo mesma. Algum momento em que me senti livre de minhas amarras, de minhas exigencias, de minha tirania. Esse tempo foi unico em minha vida e foi facil responde.la. Fui livre de uma forma que poucas vezes conseguir desta forma ser, Fui livre quando vivi ao lado do David. Fui livre porque nao tive medo. Eu me sentia tao cuidada, tao segura, tao servida que mesmo com a evidencia a minha frente, eu acreditei ate o ultimo momento que eu nao o perderia. Eu nao tinha medo de nada, nem mesmo de perde-lo. E essa liberdade nao era fruto de ignorancia e nem falta de amor. Pelo contrario, o amor dele por mim me deu super poderes que eu nunca mais teria. Ao lado dele eu virei a versao mais poderosa de mim mesma. E foi essa capacidade que me possibilitou tambem ser a melhor versao de mim mesma no momento em que a vida mais me solicitou que assim eu fosse. E foi tudo muito natural. Cuidar dele na minha melhor capacidade nao foi apenas um ato de amor, foi um ato de ser aquilo que ele mesmo me havia preparado para ser.\
Mesmo depois que David morreu eu permaneci forte na minha tristeza e vivi com toda a digniddae que me era possivel viver aquela que seria ate entao a maior tragedia da minha vida.\
Mas os super poderes que David me deu nao durariam para sempre e eles se foram com os dias, quando a vida foi ficando pesada, quando me encubi de responsabilidades maiores que eu mesma, responsabilidades de cuidar de outros que de mim precisavam, assim como ele precisou, mas que nnao me davam o chao e a seguranca que ele me deu.
E assim fui vivendo por estes anos todos, me encubindo de cada vez mais responsabilidades, de cuidar, de prover, de resolver, de decidir, de conseguir e me privando de todos os prazeres que tinha na vida.
E aqui cheguei. Ao ponto em que os sacos de pedra que eu mesma coloquei nas minhas costas chegaram ao limite da minha forca e eu, literalmente, me quebrei. Me doeram as pernas, os pes, os cotovelos, as costas, o coccix, e meu espirito se calou.
Ha pouco tempo eu me perguntava aqui mesmo, neste espaco que construi para mim mesma e que de mim eu tirei, o que era que eu havia perdido. Agora comeco a encontrar as respostas.
Quando eu me mudei para este apartamento, que e meu, meu mesmo, meu pra fazer o que eu quizesse, numa cidade que me permite que eu va com meu carro, ou com minhas pernas , aonde eu quiser. E eu fiz tao pouco, fui tao pouco.
Todas as noites eu olhava para o meu terracinho, o meu quadrado no mundo e pensava. Como seria maravilhoso aqui me sentar, beber uma taca de vinho, acender um cigarro e escverr. Como seria maravilhoso se eu me permitisse. E foi assim que descobri o quao pouco que tenho me permitido.
E hoje finalmente inicio uma nova fase na minha vida, ao 51 anos. E a fase da permissao. Eu vou me permitir.
E sentada hoje estou, numa linda noite de verao, em meu terracinho em Lisboa. Bebo um vinho, fumo um cigarro e escrevo. Essa sou eu.

quinta-feira, julho 19, 2018

Inner bully

Vou iniciar meu diário de TMS- Tension Myoneural Syndrome. I need to beat this bitch!
Me disseram que eu tinha Lyme Disease. Não tenho. Depois eu disse a mim mesma que tinha alguma doença auto-imune. Encontrei várias alternativas para os meus sintomas, era só escolher. Depois descobri Dr Sarno. E desde então venho tentando mudar o que em mim tem sido o mais difícil. O seticismo.
Eu sempre disse: Se eu tivesse escolha jamais seria atéia.
Mas o que acontece é que essa rigidez toda está me tirando a vida. 
Rigidez pela manhã, literalmente. Quando chega a hora de acordar e ocupar esse espaço no qual tenho que viver. Meu corpo, minhas lembranças, minhas faltas, minhas amarguras, meus resentimentos.
Meu apartamento é o local perfeito para se sentar e escrever enquanto se fuma um cigarro.
Não pode. Dá câncer.
Lugar perfeito para se comer de tudo.
Não pode. Engorda.
Para se fumar maconha.
Não pode. Eu piro.
Para se ter amantes.
Não pode. Nem sei mais se gosto da coisa.
Não pode. Não pode.
Mas olha o que pode:
Pode fazer a dieta whole 30, que é uma dieta super restritiva.
Pode fazer exercício com canelera.
Pode ficar no Tinder mas nunca sair com ninguém.
Pode sentar no escritório e ficar trabalhando, e trabalhando, e trabalhando por muitas e muitas horas, e até não me aguentar mais sentada e até ficar com muita dor no coccix, e quando eu for levantar da cadeira, tudo dói. Que é para saber que dessa cadeira vc não deve jamais levantar.
Não aguento mais a minha tirania.
Esse inner bully!





quarta-feira, junho 13, 2018

Uma invenção de cozinha

A cozinha era tão grande mas tão grande que resolvi que melhor seria se não fosse uma cozinha mas sim um quarto. E assim, de uma hora para outra, sem aviso prévio e com pouca oportunidades para se voltar atrás, fui ao banco, conversei com o Beto, o meu mestre de obras, fui na Ikea, aluguei um apartamento em Oreiras, peguei a Bidu e saímos de casa. São 12 dias fora de casa enquanto a cozinha como se conhecia é totalmente desfeita, o espaço vira um novo quarto que agora ficará voltado para um novo jardim e uma nova cozinha será montada na sala. Esse é a minha caverninha em Lisboa. Amo!

domingo, março 04, 2018

Mas o que?

Como se recupera algo perdido quando não se sabe o que foi perdido mas se tem a certeza da sensação de perda? Como traçar um plano, um caminho, se não se sabe onde se quer chegar?
Sinto uma falta enorme de algo que perdi e não si o que é. Só sei que é algo em mim, não é alguém ou alguma coisa.
Eu acordava de manhã com vontade de trabalhar, tinha um enorme prazer naquilo que fazia e por isso conseguia trabalhar tanto. Agora trabalho porque tenho que ganhar o meu sustento.
Mas talvez algo mude em breve.
Talvez.

quinta-feira, fevereiro 08, 2018

Luzes da Ribalta

Vejo as luzes amarelas do Mirador do Morro Agudo. O Miradouro é meu quintal.
Resolvi retomar velhos hábitos na esperança de me sentir eu novamente, A verdade é que eu me dei tanto a tarefa de criar a Marabel, que virou minha filha, que me abandonei. Não  abandonei no sentido estético ou físico, tenho 50 anos e estou muito bem para a minha idade. Estou saudável, bem fisicamente e o trabalho vai bem, Mas meu espaço interno ficou sufocado pela responsabilidade e cuidado que tenho tido com a Maribel estes anos todos. Me dediquei a ela de uma forma tão grande como só uma mãe o faria. Agora Maribel não mora mais comigo. Está na universidade e vive no Algarve, onde ela estuda. Ainda sou responsável por ela mas muito do espaço que ela ocupava se abriu e me esta enorme vontade de me re-encontrar dentro de mim.
Lisboa tem tudo o que eu poderia querer para mim. É mesmo um privilégio poder ter escolhido vir morar aqui. E é aqui, eu sei, que vou encontrar-me de novo com esse eu que ficou adormecido nestes últimos anos.

terça-feira, fevereiro 06, 2018

Lisboa é meu lar

Fiquei com muita vontade de retomar desejos, sensações e emoções vividos há anos atrás, quando me sentava no quintal de minha casa em Washington para escrever neste mesmo blog. No início o que me moveu foi a paixão por aquele homem. Depois foi a emoção criada por cada dia vivido, depois as dúvidas, as descobertas e as expectativas. Escrever sempre foi muito bom.
E eu adorava os meus seguidores, amigos e desconhecidos que acompanhavam cada letra escrita, cada novo trocadilho que eu criava.
Mas agora estou sozinha. Preciso de óculos para escrever. Sentadinha aqui, pela primeira vez, no quintal ainda por arrumar até ficar do jeitinho que fique assim um ninho, no aparamento que comprei em Lisboa. Lisboa, essa cidade que me abraça todos os dias, que me acolhe como se eu fosse uma prima distante, com seus velhinhos adoráveis que esbanjam carinho e saúde pelas ladeiras da cidade de tantas colinas. Eu e Bidu, minha vira-latinha que trouxe do Rio comigo, que me olha nos olhos como quem diz "você não está só não, eu estou aqui".
Em Takoma Park ouvia o barulho do metro que passava atrás da minha casa, aqui escuto os carros e vejo as costas de um dos tantos miradores.
Há algo que se perdeu pelas muitas horas destes 10 últimos anos vividos. Não sei ao certo o que foi. Havia uma efervescência em mim que já não encontro mais. Havia uma luz, uma esperança em algo de extraordinário que eu acreditava que aconteceria a qualquer momento. Aos 50 anos me tornei invisível. A emoção acabou. Como retomá-la?