segunda-feira, novembro 13, 2017

Mais solitário do que um paulistano

Assim diria Zeca Baleiro. Assim me sinto em São Paulo, cidade estranha demais.
Vinte e seis dias fora de Lisboa. Vinte e seis dias longe da Bidu. Vinte e seis dias para me apossar de uma nova casa. Me apaixonei por ela já nas fotos, tinha aquele mesmo amarelo que um dia pintei a casa de Washington. E tinha verde. De costas para o miradouro, lá é minha casa em Lisboa. Cidade que escolhi para mim. Cidade que escolhi para ir daqui até o fim.

quinta-feira, setembro 28, 2017

A vida replicada

Ainda me surpreende a velocidade com a qual construi esta vida aqui com o melhor das minhas vidas passadas. Minha vida em Lisboa tem fragmentos que muito me lembram minha vida em DC e outros que muito se assemelham a minha vida nos últimos tempos, no Leblon. Mas o melhor de tudo é que é fácil ser feliz em Lisboa!

segunda-feira, setembro 25, 2017

A boa agora é LISBOA!

Quanta coisa aconteceu desde o meu último post! Aquela cólica que meu médico disse que poderia ser uma verticulite causada por caroço de tomate se revelou um apendicite supurada que quase me levou de vez. Foi o maior sufoco mas com final feliz. Eu sobrevivi. E não apenas sobrevivi como um mês depois dei o maior festão dançante para comemorar meus 50 aninhos, dos quais me orgulho MUITO, seguido da tão esperada viagem para Lisboa. No dia 4 de julho, dia da independência americana, eu me resumia a cinco malas, duas cadelas e uma filha. Essa era eu. E foi essa qua saiu do Rio de Janeiro nesse dia rumo a uma nova vida, de novo.

No dia 5 de julho chegamos a Lisboa e desde então venho jurando a mim, e a todos, que vou escrever sobre essa nova experiência, que vou escrever sobre mim, que vou escrever sobre qualquer coisa mas que sim, vou escrever.

E em menos de três meses que por cá estou a viver (ah sim, tem isso...o Português continental começa a se emaranhar com a minha carioquice...) eu comprei um carro, transplantei a vida que viva no Leblon para essa que agora vivo em Lisboa, e estou fechando a compra de um apartamento lindinho em Penha de França, um bairro central, histórico e tradicional de Lisboa onde os prédios quase todos ficariam felizes cem receber uma demão de tinta.

E o o meu deslumbramento, e os de outrem, com a vida que aqui levamos, é imenso. Deslumbramento pelas coisas simples da vida que foram tomadas de nós. Coisas do tipo dirigir com a janela aberta ou caminhar pela rua de noite, no escuro, na viela deserta, são coisas que me emocionam e me entristecem ao mesmo tempo. Meu Deus, que vida roubada vivíamos nós, que aprisionamento...o medo constante e o pavor do sobressalto.

Nos fins de semana ficava a seguir a minha filha pela cidade. Maribel, chegou na casa da Fernanda? Maribel, me avise quando sair daí. Maribel, me passa as informações do Uber, me copia o mapa, me liga, me chama, me manda mensagem, me diz que você está viva, a cada novos 10 minutos.

Na primeira noite que Maribel saiu com os novos amigos em Lisboa ela me mandou uma mensagem as 4 da manhã perguntando a que horas deveria voltar para casa. Eu só vi a mensagem no dia seguinte porque as 4 da manhã eu dormia uma sono que há muito já não me era mais possível.

To be continued...


quarta-feira, março 01, 2017

Quarta-feira de cinzas

Passei os dois últimos dias do carnaval na cama, com uma dor no abdomen que meu médico diz ter sido alguma semente de tomate ou castanha demais. Não sei o que foi, só sei que fiquei, de fato, debilitada. E debilitada assim, no meio da tarde de hoje, me veio de repente um medinho... e se eu não tiver dinheiro suficiente para viver em Lisboa? E como vai ficar a minha empresa? E minhas consultorias? Esses são os medos que me permitem que eu me permita as maiores ousadias, como a de resolver, assim de supetão (como se alguma coisa na minha vida não fosse de supetão), que vou me mudar para Lisboa e ainda assim pensar sobre todas as questões envolvidas no projeto.
Estou aguardando pelo meu visto, que espero sair na semana que vem.
Estou aguardando...e no aguardo e na ansiedade, já senti várias dores estranhas e já desconheci meu corpo por muitas vezes.
Conto os dias para recomeçar a minha vida aos 50 anos!

domingo, fevereiro 19, 2017

Um consulado, uma universidade e duas sorologias caninas caras demais

Na segunda-feira dei entrada no meu pedido de visto de residência no consulado português. A pessoa que me atendeu disse que estava tudo Ok com meus papéis e que dará tudo certo. Disse que terei uma resposta em breve.
Apenas algumas horas da minha volta do consulado Maribel me diz que ela recebeu um email da Universidade do Algarve e que havia sido aceita no curso de artes visuais. Fiquei muito feliz por ela e por nós duas. Foi um ano bastante difícil para nós duas. Peguei o telefone e enviei um whatsapp para o pai, informando da vitória da Maribel. O homem levou quatro dias para falar sobre o assunto com ela, e mesmo assim porque enviei nova mensagem para ele. E ela, não cobra do pai. Não briga com o pai. Aceita o mínimo que ele dá pra ela e o protege. Na verdade, é a si mesma que ela está protegendo. Quando perdoa o pai pela ausência, e porque não dizer, total negligência, Maribel consegue mascarar ainda mais um pouco o seu sofrimento.
Mas sentei com ela e disse: Maribel, meu amor. Ao longo de sua vida, espere mais e exija mais daqueles que dizem que te amam.
Ontem levamos Bidu e Delilah, a nova duplinha da casa, que veio após o falecimento do Moby em 2013 e depois da Bebel em 2015, para fazer o teste de sorologia de raiva, exigido pela Comunidade européia. Caro demais o teste
Bebel morreu aos 14 anos e tive que sacrificá-la. Foi muito triste e passei um período de luto. Mas em casa eu já havia adotado a Bidu de uma feira de adoção no Humaitá. Bidu é uma viralatinha, pequena, de 15 kgs, com cara de curujinha, que adora armar um barraco. Delilah é a dálmata da Maribel, resgatada de maus tratos, saiu de um quintal sujo de uma casa onde lhe davam menos que o mínimo para então viver ao lado de Maribel como se fosse sua sombra.
Estamos todas nos preparando para a grande viagem de encontro ao colonizador.


sábado, fevereiro 11, 2017

Quantos dias?

O mais triste de envelhecer é perceber que o tempo necessário para se recuperar das porradas da vida está diminuindo a cada dia.
Tenho sentido o peso dos dias com muita força, mas não são dos dias vividos e sim dos dias não vividos. Eu estou, oficialmente, em processo de envelhecimento. Porque assim me declaro. 
Tenho ficado triste com a fraqueza do corpo, com as dores ao levantar, ao me mover, com a delicadeza de músculos que um dia não sentiram nada. Tenho reparado em todos os detalhes, cada nova dorzinha, cada nova manchinha. Repito para mim mesma que se envelhecer tem esse lado tão ruim, há de se lembrar da liberdade que aos poucos vou conquistando, da liberdade de aos 50 anos poder decidir-me por ir morar em Lisboa. Fiz escolhas ao longo de toda uma vida que me prepararam para este momento, que me deram as devidas condições para tal. Vou envelhecer (ainda mais) em Lisboa e possivelmente lá morrerei.
Perto do Tejo, como deve ser.

domingo, fevereiro 05, 2017

Receitas de Nora Ephron

Nora Ephron gostava de cozinhar. Por isso o roteiro de Julie e Julia é de dar água na boca, literalmente. Mas Nora Ephron teve algumas boas decepções amorosas na vida, daí os diálogos ácidos de When Harry met Sally. Mas Sleepless in Seattle não deixa dúvidas de que no fundo ela era uma romântica.
Estou no terceiro livro que leio dela. Ela me lembra eu mesma, de alguma forma. Não é apenas o judaísmo. a paixão pelo texto ou as sátiras sarcásticas da vida doméstica, e urbana, de uma grande cidade. Tem também a cozinha, paixão que desenvolvi quando descobri que Maribel era facilmente "comprável"com comida. No início percebi que nossas brigas podiam ser resolvidas com churros, depois percebi que nem precisava sair por Itaipava em busca de uma carrocinha de churros, já que a comida caseira da Lu também era o remédio. E quando fomos morar em Israel fiquei surpresa ao ver que Maribel sentia uma satisfação enorme quando eu cozinhava para ela. E foi assim, fazendo pizza, petit gateau e morango com chocolate que fomos chegando mais próximas uma da outra, a ponto dela ter escolhido ficar comigo no Brasil quando o pai anunciou que iria voltar para Israel, logo após a nossa separação. Queria dizer "divórcio" mas a verdade é que até hoje ele não conseguiu ainda me dar o divórcio, e como somos casados em Israel apenas, eu desisti de pedir. Ele, que mora em Israel, continua casado comigo, enquanto eu, que moro no Brasil, não mais.
Neste livro, Heartburn, Nora Ephron descreve algumas receitas simples. Tem pudim de pão e torta de pêssego. As receitas são poucas, mas resolvi fazer com Nora o que Julie fez com Julia, e vou fazer as receitas que Nora descreve em Heartburn. Assim que terminar o livro, que vai ser essa semana, vou fazer a primeira receita.

quarta-feira, fevereiro 01, 2017

Adeus ao que um dia foi meu

Neste último Dezembro a casa amarela foi vendida. Decidir por vender a casa e realizar o fato foi o feito mais difícil da minha vida. Porque a morte de David não foi um feito. Foi puro desfeito.
Em Janeiro completou 10 anos desde que saí dos Estados Unidos e voltei a morar no Brasil. É tempo demais a olhar a vida passar de uma única janela. Por isso, este ano, me mudarei para Lisboa, onde cada janela é um espio de vida.
Quero me casar pela terceira vez. Quero outra chance. A minha nega. Melhor de 3!
Meu primeiro casamento me deixou com um gosto de quero mais tão forte que nem a amargura do segundo casamento foi capaz de desfazer. Ainda sinto este gostinho, todos os dias.
Da minha cama vejo  o Cristo e sei quando vai chover. Essa visão é o mais próximo que já cheguei de prever o futuro. Previsão não há, mas há desejo.
Acho que é porque ando lendo Nora Ephron que me lembrei desse blog. Me reconheci na sua narrativa apressada, sarcástica e inteligente. E também no seu profundo namoro com Nova Iorque. Um dia já me senti assim com o Rio de Janeiro. Era puro amor. Olhava para a pedra da Gávea e ficava deslumbrada como a amante quando olha no profundo dos olhos do amado. Sentia a entorpecência que como tudo no Rio, vinha misturada com areia e cheiro de asfalto quente. Gostava de pensar na cortina da sala voando ao vento, com os raios de sol entrando pela casa como verdadeiros feixes de luz. Pura imagem da infância, armazenada na memória dos dias de faxina, quando a poeira subia e era captada pelo sol que entrava em casa.
Exibida que era, mostrava o Rio com orgulho aos amigos que vinham de fora. Dizia que no Rio se podia olhar para qualquer lado, e que a beleza morava nos quatro cantos da cidade.
O deslumbramento foi substituído por frustração, medo e rancor. Nossa lua de mel acabou.