segunda-feira, setembro 25, 2017

A boa agora é LISBOA!

Quanta coisa aconteceu desde o meu último post! Aquela cólica que meu médico disse que poderia ser uma verticulite causada por caroço de tomate se revelou um apendicite supurada que quase me levou de vez. Foi o maior sufoco mas com final feliz. Eu sobrevivi. E não apenas sobrevivi como um mês depois dei o maior festão dançante para comemorar meus 50 aninhos, dos quais me orgulho MUITO, seguido da tão esperada viagem para Lisboa. No dia 4 de julho, dia da independência americana, eu me resumia a cinco malas, duas cadelas e uma filha. Essa era eu. E foi essa qua saiu do Rio de Janeiro nesse dia rumo a uma nova vida, de novo.

No dia 5 de julho chegamos a Lisboa e desde então venho jurando a mim, e a todos, que vou escrever sobre essa nova experiência, que vou escrever sobre mim, que vou escrever sobre qualquer coisa mas que sim, vou escrever.

E em menos de três meses que por cá estou a viver (ah sim, tem isso...o Português continental começa a se emaranhar com a minha carioquice...) eu comprei um carro, transplantei a vida que viva no Leblon para essa que agora vivo em Lisboa, e estou fechando a compra de um apartamento lindinho em Penha de França, um bairro central, histórico e tradicional de Lisboa onde os prédios quase todos ficariam felizes cem receber uma demão de tinta.

E o o meu deslumbramento, e os de outrem, com a vida que aqui levamos, é imenso. Deslumbramento pelas coisas simples da vida que foram tomadas de nós. Coisas do tipo dirigir com a janela aberta ou caminhar pela rua de noite, no escuro, na viela deserta, são coisas que me emocionam e me entristecem ao mesmo tempo. Meu Deus, que vida roubada vivíamos nós, que aprisionamento...o medo constante e o pavor do sobressalto.

Nos fins de semana ficava a seguir a minha filha pela cidade. Maribel, chegou na casa da Fernanda? Maribel, me avise quando sair daí. Maribel, me passa as informações do Uber, me copia o mapa, me liga, me chama, me manda mensagem, me diz que você está viva, a cada novos 10 minutos.

Na primeira noite que Maribel saiu com os novos amigos em Lisboa ela me mandou uma mensagem as 4 da manhã perguntando a que horas deveria voltar para casa. Eu só vi a mensagem no dia seguinte porque as 4 da manhã eu dormia uma sono que há muito já não me era mais possível.

To be continued...


quarta-feira, março 01, 2017

Quarta-feira de cinzas

Passei os dois últimos dias do carnaval na cama, com uma dor no abdomen que meu médico diz ter sido alguma semente de tomate ou castanha demais. Não sei o que foi, só sei que fiquei, de fato, debilitada. E debilitada assim, no meio da tarde de hoje, me veio de repente um medinho... e se eu não tiver dinheiro suficiente para viver em Lisboa? E como vai ficar a minha empresa? E minhas consultorias? Esses são os medos que me permitem que eu me permita as maiores ousadias, como a de resolver, assim de supetão (como se alguma coisa na minha vida não fosse de supetão), que vou me mudar para Lisboa e ainda assim pensar sobre todas as questões envolvidas no projeto.
Estou aguardando pelo meu visto, que espero sair na semana que vem.
Estou aguardando...e no aguardo e na ansiedade, já senti várias dores estranhas e já desconheci meu corpo por muitas vezes.
Conto os dias para recomeçar a minha vida aos 50 anos!

domingo, fevereiro 19, 2017

Um consulado, uma universidade e duas sorologias caninas caras demais

Na segunda-feira dei entrada no meu pedido de visto de residência no consulado português. A pessoa que me atendeu disse que estava tudo Ok com meus papéis e que dará tudo certo. Disse que terei uma resposta em breve.
Apenas algumas horas da minha volta do consulado Maribel me diz que ela recebeu um email da Universidade do Algarve e que havia sido aceita no curso de artes visuais. Fiquei muito feliz por ela e por nós duas. Foi um ano bastante difícil para nós duas. Peguei o telefone e enviei um whatsapp para o pai, informando da vitória da Maribel. O homem levou quatro dias para falar sobre o assunto com ela, e mesmo assim porque enviei nova mensagem para ele. E ela, não cobra do pai. Não briga com o pai. Aceita o mínimo que ele dá pra ela e o protege. Na verdade, é a si mesma que ela está protegendo. Quando perdoa o pai pela ausência, e porque não dizer, total negligência, Maribel consegue mascarar ainda mais um pouco o seu sofrimento.
Mas sentei com ela e disse: Maribel, meu amor. Ao longo de sua vida, espere mais e exija mais daqueles que dizem que te amam.
Ontem levamos Bidu e Delilah, a nova duplinha da casa, que veio após o falecimento do Moby em 2013 e depois da Bebel em 2015, para fazer o teste de sorologia de raiva, exigido pela Comunidade européia. Caro demais o teste
Bebel morreu aos 14 anos e tive que sacrificá-la. Foi muito triste e passei um período de luto. Mas em casa eu já havia adotado a Bidu de uma feira de adoção no Humaitá. Bidu é uma viralatinha, pequena, de 15 kgs, com cara de curujinha, que adora armar um barraco. Delilah é a dálmata da Maribel, resgatada de maus tratos, saiu de um quintal sujo de uma casa onde lhe davam menos que o mínimo para então viver ao lado de Maribel como se fosse sua sombra.
Estamos todas nos preparando para a grande viagem de encontro ao colonizador.


sábado, fevereiro 11, 2017

Quantos dias?

O mais triste de envelhecer é perceber que o tempo necessário para se recuperar das porradas da vida está diminuindo a cada dia.
Tenho sentido o peso dos dias com muita força, mas não são dos dias vividos e sim dos dias não vividos. Eu estou, oficialmente, em processo de envelhecimento. Porque assim me declaro. 
Tenho ficado triste com a fraqueza do corpo, com as dores ao levantar, ao me mover, com a delicadeza de músculos que um dia não sentiram nada. Tenho reparado em todos os detalhes, cada nova dorzinha, cada nova manchinha. Repito para mim mesma que se envelhecer tem esse lado tão ruim, há de se lembrar da liberdade que aos poucos vou conquistando, da liberdade de aos 50 anos poder decidir-me por ir morar em Lisboa. Fiz escolhas ao longo de toda uma vida que me prepararam para este momento, que me deram as devidas condições para tal. Vou envelhecer (ainda mais) em Lisboa e possivelmente lá morrerei.
Perto do Tejo, como deve ser.

domingo, fevereiro 05, 2017

Receitas de Nora Ephron

Nora Ephron gostava de cozinhar. Por isso o roteiro de Julie e Julia é de dar água na boca, literalmente. Mas Nora Ephron teve algumas boas decepções amorosas na vida, daí os diálogos ácidos de When Harry met Sally. Mas Sleepless in Seattle não deixa dúvidas de que no fundo ela era uma romântica.
Estou no terceiro livro que leio dela. Ela me lembra eu mesma, de alguma forma. Não é apenas o judaísmo. a paixão pelo texto ou as sátiras sarcásticas da vida doméstica, e urbana, de uma grande cidade. Tem também a cozinha, paixão que desenvolvi quando descobri que Maribel era facilmente "comprável"com comida. No início percebi que nossas brigas podiam ser resolvidas com churros, depois percebi que nem precisava sair por Itaipava em busca de uma carrocinha de churros, já que a comida caseira da Lu também era o remédio. E quando fomos morar em Israel fiquei surpresa ao ver que Maribel sentia uma satisfação enorme quando eu cozinhava para ela. E foi assim, fazendo pizza, petit gateau e morango com chocolate que fomos chegando mais próximas uma da outra, a ponto dela ter escolhido ficar comigo no Brasil quando o pai anunciou que iria voltar para Israel, logo após a nossa separação. Queria dizer "divórcio" mas a verdade é que até hoje ele não conseguiu ainda me dar o divórcio, e como somos casados em Israel apenas, eu desisti de pedir. Ele, que mora em Israel, continua casado comigo, enquanto eu, que moro no Brasil, não mais.
Neste livro, Heartburn, Nora Ephron descreve algumas receitas simples. Tem pudim de pão e torta de pêssego. As receitas são poucas, mas resolvi fazer com Nora o que Julie fez com Julia, e vou fazer as receitas que Nora descreve em Heartburn. Assim que terminar o livro, que vai ser essa semana, vou fazer a primeira receita.

quarta-feira, fevereiro 01, 2017

Adeus ao que um dia foi meu

Neste último Dezembro a casa amarela foi vendida. Decidir por vender a casa e realizar o fato foi o feito mais difícil da minha vida. Porque a morte de David não foi um feito. Foi puro desfeito.
Em Janeiro completou 10 anos desde que saí dos Estados Unidos e voltei a morar no Brasil. É tempo demais a olhar a vida passar de uma única janela. Por isso, este ano, me mudarei para Lisboa, onde cada janela é um espio de vida.
Quero me casar pela terceira vez. Quero outra chance. A minha nega. Melhor de 3!
Meu primeiro casamento me deixou com um gosto de quero mais tão forte que nem a amargura do segundo casamento foi capaz de desfazer. Ainda sinto este gostinho, todos os dias.
Da minha cama vejo  o Cristo e sei quando vai chover. Essa visão é o mais próximo que já cheguei de prever o futuro. Previsão não há, mas há desejo.
Acho que é porque ando lendo Nora Ephron que me lembrei desse blog. Me reconheci na sua narrativa apressada, sarcástica e inteligente. E também no seu profundo namoro com Nova Iorque. Um dia já me senti assim com o Rio de Janeiro. Era puro amor. Olhava para a pedra da Gávea e ficava deslumbrada como a amante quando olha no profundo dos olhos do amado. Sentia a entorpecência que como tudo no Rio, vinha misturada com areia e cheiro de asfalto quente. Gostava de pensar na cortina da sala voando ao vento, com os raios de sol entrando pela casa como verdadeiros feixes de luz. Pura imagem da infância, armazenada na memória dos dias de faxina, quando a poeira subia e era captada pelo sol que entrava em casa.
Exibida que era, mostrava o Rio com orgulho aos amigos que vinham de fora. Dizia que no Rio se podia olhar para qualquer lado, e que a beleza morava nos quatro cantos da cidade.
O deslumbramento foi substituído por frustração, medo e rancor. Nossa lua de mel acabou.


quinta-feira, abril 21, 2016

Canelera da meia idade

Ha! Estou cheia de energia, malho todo dia,...quer dizer a palavra malhar não se usa mais. Agora se diz treino. Treinou hoje? Que horas você vai treinar?  Não sei como a troca aconteceu, só sei que um dia estava na academia e percebi que ninguém falava malhar, só treinar. Então eu treino todos os dias. Isso é novo na minha vida. Sim, verdade que comecei a correr em 2006, na mesma época em que parei de fumar e consegui me livrar daquele homem. E corri ao longo de muitos anos, alguns nos Estados Unidos, outros em Israel e outros ainda no Brasil. Mas não corro mais. Troquei as corridas pelas aulas de localizada e pela hidroginástica. Que eu iria adorar hidroginástica era fácil de saber, sempre amei água e se eu tivesse qualquer simpatia por horóscopo descobriria que meu elemento é água. Mas aula localizada??? Com canelera, professor contando 1, 2, 3 e 4 repetidamente? Nunca pensei.

Fazer exercício tem hoje para mim um sentido muito diferente daquele que já teve um dia. Estar em forma, me sentindo bem e com energia me dá vigor quando faço aquela conta de trás pra frente. Quem está beirando os 50 sabe bem de que conta estou falando. Quantos anos bem? Quantos anos para curtir? Quantos anos para viajar? Faço essa conta sempre. E sempre chego no número 22. É bastante tempo ainda.

Não é o número de anos a se viver. A conta não é essa. É o número de anos ainda por se viver naquele corpo que se reconhece como propriedade. Essa é a conta.

No final do ano vou para Portugal. Vou. De verdade.

Bota os cachorros na caixa, de novo. Bidu e Dalaila. Não mais Moby e Bebel. Esses fizeram parte de outra vida. Quando Bebel morreu aos 14 anos, em setembro do ano passado, ali foi o fim de uma era.

Por isso outra era precisa se iniciar.

Estou quase pronta.

quinta-feira, setembro 11, 2014

Encontro com a amiga

Voltei agora do jantar com uma das duas únicas amigas americanas que fiz nos 12 anos que aqui vivi. Karen é alguém que carrego no meu coração. Ela estava próxima, do jeito que conseguiu estar na época, quando David morreu. Agora foi a vez dela. Karen é mais uma das milhares de mulheres americanas diagnosticadas com câncer de mama. Retirou o tumor, fez radioterapia e agora vai passar os próximos cinco anos tomando tamoxifen. Estar nos Estados Unidos tem esse preço, o preço da convivência íntima com a batalha de algum ente querido contra o câncer.
Essa foi uma das razões que me fez ir embora daqui. Eu tinha medo de ser mais uma. E esse medo, mesmo depois de ter indo embora, me acompanhou por muitos anos. E foi também esse medo que me fez deixar me envolver por um homem que cuidaria de mim caso a tragédia se abatesse sobre mim.
Mas em algum momento recente, as minhas perguntas mudaram e com elas as minhas atitudes e decisões também mudaram. Ao invés de me perguntar.."mas se um dia eu precisar, e se acontecer comigo?"eu comecei a me perguntar "e se não acontecer, e seu eu chegar aos 80 anos e descobrir que meu medo foi apenas isso, um medo?" Senti um medo ainda maior em pensar na possibilidade de ter vivido anos da minha vida me sentindo infeliz por conta da promessa de um ombro carinhoso caso eu precisasse. E pensei também que estar infeliz poderia por si só se transformar no que acarretaria a necessidade de ter alguém ao meu lado.
E este foi o caminho que resolvi seguir. Vou ser fiel aos meus desejos, aos meus sonhos, e deixarei que eles direcionem a minha vida. Vou dizer não ao medo.
Vou me proteger com aqueles que estão a minha volta, vou exercitar todo o meu prazer em me dar aqueles que de mim precisam e aqueles a quem posso estender a mão. Vou direcionar a minha energia, o meu tempo, e o meu amor aqueles que amo.
E foi então que finalmente encontrei um hobby pra mim. Agora virei artista e faço o que resolvi chamar de colar temático. São colares únicos, feitos para cada um do meu universo, que contém uma idéia dos sonhos e desejos que a minha leitura particular do outro me permite.
Vou fazer um colar temático pra você!

domingo, setembro 07, 2014

Dez anos sem ele

Na mesma semana em que ela descobriu que nenhum plano de saúde cobriria sua gravidez e você assinou os papéis do seu apartamento em Lisboa, eu fiz uma tatuagem no pulso, já que não poderia cortá-lo. Alguns dias depois eu pegaria um voo para Washington e me viria, uma vez mais, rodeada por paredes amarelas que eu mesma pintei num dia tal qual como hoje. Aquele dia era um dos últimos dias de verão aqui em Washington e eu estava em boa companhia, Moby e Bebel. No final do dia eu tinha uma sala feita de luz e dois cachorros amarelos.
Hoje eu peguei a bicicleta e desci a rua 14 até chegar no Trader Joe's, onde comprei duas garrafas de vinho e dois potes de Maple Syrup. Um pra mim e outro pra você.
Em novembro deste ano, dez anos terão se passado desde a morte do David. E nestes dez anos eu vivi a ausência dele de formas diferentes. Eu me apaixonei, me descabelei, me libertei, me re-encontrei e me abandonei. Passei a maior parte deste tempo vivendo a vida de outra pessoa. Eu tinha sonhos e desejos de outra e fiz uma força descomunal para me encaixar em planos que não reconhecia. Acho até que fui feliz, às vezes. Outras, fui miserável.
Moby também se foi, dormindo pacificamente, como somente os anjos podem ir.
Maribel ficou e sempre ficará. Maribel é o prêmio que me restou por tamanho sacrifício. O prêmio maior e única justificativa por ter vivido tamanho desencontro. Os meus dias seguirão cuidando dos meus amores, Maribel e Bebel. E cuidarei mais de mim. Pensarei mais em mim e pensarei sobre todas as coisas que ainda estão por vir.

sexta-feira, agosto 29, 2014

Comunicado aos amigos

Na mesma semana em que ela descobriu que estava grávida, você comprou um apartamento em Lisboa, e eu me desfiz de um casamento inventado. Tomei coragem pra desocupar aquela vida que não era a minha, aquele papel que nunca foi meu, aquela mulher que nunca fui eu. E corri pra cá sem demora e cá estou, essa mesma que sei quem sou. Mais velha, agora preciso dos óculos para escrever e uma vida para refazer.
 Desta vez não vou me re-inventar. Vou buscar aquilo que gosto, aqueles quem não mais via, os filmes perdidos, os encontros nunca acontecidos, a solidão da taça de vinho. Eu nunca tinha tempo porque estes últimos anos eu apenas passei, quando deveria ter passarinho.
Me sentia estrangeira em minha própria cidade, uma alienígena da alma e um corpo pobre de espírito. O sangue ainda escorre mas esse também tem hora para estancar. Os fios de meu cabelo já desbotaram, as mãos já não são mais as minhas e os dias agora são subtraídos de uma conta ainda desconhecida.

segunda-feira, setembro 23, 2013

Uma noite na casa Amarela

Sinto o frio de um inverno próximo e escuto os grilos. Uma noite sozinha na casa amarela, como foram tantas outras noites da minha vida. Aqui eu já fui de tudo. Fui feliz, fui alegre, fui triste, fui sonhadora, fui mulher e fui amante. Aqui meu mundo um dia caiu e passados muitos outros, um novo mundo se ergueu diante de mim. Eu morri e renasci, bem aqui. Mais um trem passou, indo sempre na mesma direção. Diferente de mim, que fui em muitas outras direções. Cruzei mares e continentes, vivi novas línguas e alfabetos. Eu amo esta casa profundamente. Olho para cada cantinho onde Moby e Bebel gostavam de ficar. Achei no basement um bola, uma bacia de alimentar cães e uma coleira velha. Sonhei muitos sonhos nesta casa, vivi para mim e Moby e Bebel nos últimos anos que estive nesta casa. E hoje penso: Eu estou viva e o que eu tenho hoje em minha vida foi mais do que pude esperar. Esta casa, com suas paredes, ficará. E eu, continuo ficando, horas por aqui e horas acolá.

segunda-feira, outubro 24, 2011

Uma bola de tênis de nome Wilson e um cão chamado Moby

Minhas palavras são movidas pela dor. Isso eu já sabia. Se não tem dor, não tem palavras. Ou elas não me veem e eu escrevo nada. Quando alguém me diz.."poxa, você não tem mais escrito.." tenho vontade de dizer ..."e isso é ótimo não?"
Escrever pra mim é analgésico e analgésico eu só tomo quando dói.
E agora tá doendo muito! Muito! E já fazia muito tempo que não sentia dor assim. Essa dor me transporta para outros tempos que já nem queria lembrar ou ter conhecido um dia.
Estou no Rio desde setembro, numa viagem que seria mais uma das minhas idas e vindas entre Israel e Brasil, dividindo minha vida entre o trabalho que está aqui e família que está lá. Sinais e possibilidades da era do skype, do torpedo, e da mais última descoberta em alta resolução; face time!
Mas nada disso pode substituir o desejo mais urgente e dilacerante de estar lá ao lado do Moby, olhando pra ele, fazendo carinho e cuidando dele.
Na quarta-feira passada ele acordou chorando e não conseguiu se levantar. Com muito esforço meu marido conseguiu levá-lo pra passear. Com muito esforço ele comeu na mão, com muito esforço bebeu água e voltou a dormir. No veterinário, dois dias depois, a notícia chegou rápido e implacável. O raio-X não escondeu o tumor que se instalou entre sua pélvis e o fêmur. O tipo espcífico não sabemos, mas possivelmente um daqueles nomes horríveis impronunciáveis por mim de tão feio que é. Deveriam ser todos banidos de todas as línguas do planeta.
E eu aqui, longe, me dilacerando por dentro e procurando passagens desesperadamente. Olhando a agenda e fazendo contas.
O estômago está virado ao avesso. O cigarro re-apareceu e nem sei da onde veio. A vontade é de sumir amanhã no primeiro voo para Tel-Aviv para ficar ao lado, só mais um pouquinho, desse bichinho que só me deu felicidade e amor incondicional. Que me acompanhou por nove anos nas minhas maluquices e nos momentos mais difíceis da minha vida, esse bichinho que sempre foi só felicidade, mesmo com todos os problemas de saúde que sempre teve. Que jogou bolinha mais que qualquer outro cachorro, que ainda se surpreende com as moscas, com as formigas, e que adora soprar na cara da gente porque nunca entendeu que o que a gente esperava era um beijo e não um sopro de cachorro. Que peidava sem cerimônia, que acordava no meio da noite pra uivar como um lobinho e depois cair no sono novamente. Que ronca a ponto do volume da TV ter que ser aumentado. Que não se deitava mas se jogava no chão como se fosse um saco de batata. Que sempre topou tudo e qualquer coisa e sempre foi muito paciente e educado. Foi sempre a companhia das cozinheiras e ficava deitadinho no chão da cozinha esperando pela casquinha do pepino. Foi sempre louco por pão, a única coisa que era capaz de roubar quando nos distraímos. E além de mim, sua paixão da vida inteira foi uma bola de tênis de nome Wilson.

terça-feira, maio 31, 2011

Pinto no Lixo

Meu irmão sempre gostou de usar esta frase como a expressão máxima da felicidade. E foi assim, que nem pinto no lixo, que me senti hoje ao sair do avião no Santos Dumont e respirar o cheiro inconfundível desta cidade. Estou no Brasil há quase 1 mês mas por conta do trabalho fiquei até agora poucos dias nesta cidade que cada dia me parece mais maravilhosa. A felicidade não é apenas por ter pousado no Rio de Janeiro. Ela vai muito além e cruza oceanos e continentes. A felicidade é por ter encontrado pra mim uma vida que me satisfaz em todos os sentidos e que me supre todos os dias. A minha vida hoje tem o meu jeito e atende a todos meus desejos e necessidades. Sou uma empresária de sucesso, minha pequena empresa está crescendo e fazendo sucesso, meu casamento é super feliz, as meninas me revigoram e me ensinam novas lições e meus cães são as coisas mais deliciosas que eu poderia ter. E tudo isso eu atribuo ao fato de não ter me feito refém de coisa alguma que não pudesse me trazer felicidade. Nem as minhas maluquices de mulher quase neurótica me impediram de ir atrás daquilo que me parecia ser o caminho da felicidade.
Quando penso hoje no meu casamento e vejo que eu quase deixei tudo a perder percebo claramente o tamanho do erro irreparável que teria cometido na minha vida. Eu teria deixado esse homem maravilhoso e super companheiro ir embora e hoje, provavelmente, estaria batendo cabeça pela cidade como como vejo acontecer com outras mulheres da minha idade.
Eu tive a sorte de não apenas um mas de dois amores tranquilos.

sexta-feira, maio 06, 2011

Frescor da Primavera

Vivo agora um instante de grande prazer que ganhei de presente e que é fruto de um perrengue. O perrengue foi ter meu voo pro Brasil cancelado depois de passar 5 horas no aeroporto de Tel-Aviv. O presente é este momento, que estou em casa, sentada do lado de fora com uma cerveja e Moby e Bebel. Meu marido saiu com as meninas para ver um stand-up comedy que eles já haviam marcado.
Uma vez eu falei disso. Desses momentos solitários que passam a ser tão escassos quando se tem uma família. Esses momentos onde se pode escolher tudo. O que se vai beber (uma cerveja!), e o que se vai fazer (escrever!). Eles tem um gostinho muito diferente daqueles momentos solitários quando se vive só, exatamente porque são únicos. ás vezes nem sabemos o que fazer com eles de tão especiais que passam a ser.
Minha volta pro Brasil foi adiada para amanhã. Fico até junho e depois volto pra Israel onde ficarei até setembro.
Eu adoro a nossa casa nova! Fica num bairro delicioso, super silencioso, é cheio de flores lindas por todos os cantos e estamos em plena primavera! Um ventinho fresquinho bate de leve e escuto uma cigarra fazendo aquele barulinho gostos que identifico como natureza.
O perrengue que passei ontem no aeroporto me mostrou uma coisa importante. Que eu tomei a decisão certa em trocar a base da minha vida pra cá e de ter invertido a ordem das coisas. Ao invês de morar no Brasil e visitar Israel constantemente eu agora moro em Israel e visito o Brasil constantemente. A grande diferença é que quando saio de viagem pra trabalhar deixo aqui a minha e aqueles que amo em segurança. Ontem no aeroporto eu não fiquei histérica com a possibilidade de qua a troca de passagem fosse me deixar desamparada, ou Moby e Bebel ou as meninas ou meu marido. Fora o trabalho não há nada no Brasil a minha espera ou que dependa de mim. Estão todos aqui em segurança e os imprevistos da vida, como foram as chuvas de janeiro em Itaipava já não se traduzem em catastrofes pessoais. Fiquei cansada com a confusão de ontem a noite no aeroporto, mas somente isso, cansada.
Acho que esse é um dos grandes benefícios de se ter uma família, é o de se sentir amparada. Não tenho medo da velhice e nem da solidão e isso me dá uma tremenda paz e possibilita a minha vida presente.
Eu hoje me sinto tão mais feliz e tão mais equilibrada do que nos últimos anos. Não tenho mais crises e tudo pra mim faz sentido. Hoje entendo exatamente os questionamentos que tive quando ele e as meninas entraram na minha vida. Eu simplesmente nnao sabia o que fazer com eles ou o que eles de verdade representavam. Agora sei exatamente. Eu casei foi com ele e por causa dele apenas. Não resolvi ficar com ele porque me parecia a única possibilidade de ter uma família. Era isso que eu me recusava a aceitar e eu estava certa. Até realmente me apaixonar por ele e decdir que eu o queria como compnheiro pra vida toda a sensação de que eu deveria aceitá-los porque seria bom pra mim era uma idéia que eu rejeitava fortemente. Eu o fazia com razão, porque me negava a aceitar a idéia de que uma mulher só poderia se sentir completa se tivesse uma família pra cuidar. Esse esteriótipo da infelicidade e da amargura da mulher solitário era algo que eu desprezava e contnuo desprezando. Uma mulher não precisa ter marido e filhos pra sentir completa. A felicidade pode ser conquistada de vearias formas e até mesmo dois ponters marrom podem ser fruto e produto de todo amor que se necessita na vida. Cuidar de duas meninas que perderam a mãe tão cedo não é um passeio no parque, por melhor que elas sejam. Cuidar de duas meninas, sendo filhas legítimas ou não não é passeio no parque pra ninguém. E apesar de ter desde o ínicio tentado de tudo pra preencher esta lacuna na vida delas eu me perguntava constantemente porque seria meu dever assumir tal responsabilidade. E enquanto eram estes os meus questionamentos, os sentimentos que tal ato despertavam em mim eram sentimentos de caridade e de confusão. A chave de toda a mudança foi de fato ter me apaixonado por ele e de te-lo escolhido pra minha vida. Agora sei porque quero e devo cuidar delas. Elas são as filhas do homem que amo e são parte da vida dele. Agora sim, faz sentido. Um dia elas irão cuidar de suas vidas e nós permaneceremos. Foi com ele que me casei. As meminas vieram de bônus. Fazem pate do pacote que eu escolhi. Agora sim. A escolha foi minha! E estou fazendo desta escolha o melhor que posso para todos nós. Estamos todos bem!

sexta-feira, abril 29, 2011

Ciclo circadiano

Aprendi cedo em biologia sobre os ciclos circadianos. É o ciclo circadiano que permite que nosso corpo durma a noite e esteja acordado durante o dia. É ele que diz pro nosso corpo que horas são. É ele que nos deixa perturbados quando fazemos uma longa viagem e atravessamos os meridianos numa velocidade maior do que aquela já conhecida por nosso corpo. Quando o ciclo circadiano é perturbado tudo fica esquisito e precismos de alguns dias para nos adaptarmos a nova realidade das horas.
Tenho pensado muito sobre os ciclos, e mais recentemente tenho perecbido que há algo além dos ciclos que determinam as horas diárias pro nosso corpo. São cilcos maiores que se extendem além das meras 24 horas de um dia completo. É ciclo da semana, dos meses e das estações. EStes ciclos me parecem ter um significado maior, ainda inexplorado e que nos servem de ancoras da alma, ou de nossa psique.
O mais difícil da vida em Israel, por enquanto, não é minha falta de palavras e nem o ar seco. Não é o vento algumas vezes desértico e nem a chuva fria repentina. O mais difícil é ter que fazer de conta que domingo é segunda-feira! Domingo aqui é um da normal como todos os outros. Todo mundo tem trabalho, as escolas funcionam normalmente e o país segue inderente à pausa que se faz na maioria do resto do mundo. Domingo aqui é o sábado que se revela um domingo violento onde nada funciona, nem mesmo o transporte público. O país pára literalmente, indeferente ao movimento crescente que se observa neste dia no resto do mundo.
Meu corpo não entende como, sendo domingo, Maribel e Shika precisam levantar cedo, e eu também, para começar um dia que se inicia as 7 da manhã.
As estações também parecem ter seu significado. Somente depois de termos vivido uns 3 anos num novo lugar começamos a nos sentir adaptados e a reconhecer tal lugar como lar. Acredito que isso nada tenha que ver com as particularidades do lugar em questão mas com a certeza e a familiaridade que se começa a sentir num novo lugar depois de termos testemunhado as mudanças de estações por pelo menos uns 3 ciclos e de já sermos capazes de reconhce-las ou antecipá-las. Neste sentido Israel me parece muito familiar porque me lembra demais os ciclos nos EStados Unidos e meu aniverseario, de novo, volta a cair no verão enquanto por muitos anos, quando criança, eu queria fazer festa na piscina e minha mãe me lembrava que meu aniverseario caia no inverno. Carioca sim, mas mesmo assim ainda inverno.
A maioria das pessoas precisam destas âncoras para se sentirem em casa, precisam dos ciclos em total harmonia para que ss sintam pertecendo. Eu nesse ponto me sinto muito perdida. E talvez seja exatamente a falta que eles me fazem que me levam a pensar tanto neles.
Meu marido é um homem de ciclos e rotinas. Na sexta-feira compra pão especial, a hala, e pega o jornal gratuito que é distribuido no supermercado. Ele tem hora pra tudo. Pra acordar, pra tomar café, pra comer, pra falar ao telefone e até pra cagar. Se a hora passa ele simplesmente deixa pro dia seguinte. Diz que já ficou muito tarde.
Por isso muita gente jamais consegue sair do mesmo lugar. Dizem, de forma simplista, que já estão acostumados do jeito que vivem.
Eu não me acostumo com nada. Porque quando perecebo que estou me ficando eu reinvento a vida a parto para uma outra nova. Mas talvez com a idade a necessidade dos ciclos, o desejo por uma rotina, começam a se fazer presentes em mim.
Talvez isso tudo fique mais evidente ao lado das meninas por causa da escola. Não há nada que possa dar mais estrutura a todos os indíviduos de uma família do que a rotina tirana escolar. O dia sempre começa e termina na mesma hora e ao longo dele há vários marcos. A hora do almoço, hora do banho e hora do jantar. Por isso o fim de semena, mesmo pra quem tem uma vida tão flexível como a minha, se torna um descanço. Não há escola no fim de semana.
Mas quando sou requisitada a deslocar o principal dia do meu fim de semana, o tal do domingo, fica tudo bagunçado. Vai explicar pro meu corpo que um dos únicos marcos ainda possíveis na minha existência precisa ser re-ajustado...Que eu preciso mexer nos dias da semana como fossem cartas de baralho. Que preciso trocar a coringa de lugar se eu ainda quiser ter uma canastra. Sinto como se me tivessem roubado um feriado por muito aguardado.

quarta-feira, abril 27, 2011

A delícia e o prazer de ser brasileira

As 7 horas da manhã chegou em nossa casa a nova a moça da faxina. Veio com um lenço amarrado na cabeça que cobria o cabelo totalmente. E o olhar temeroso ao ver os cães não deixou dúvida. Nossa faxineira é árabe. Os árabes tem muito medo dos cães judeus. Isso tem razões históricas. Cachorro sente cheiro de medo, que deve ser o cheiro que as descargas de adrenalina devem produzir e que muito provavelmente são perceptíveis apenas ao nariz canino. Não preciso aqui gastar muitos bits pra explicar que as relações judaico-árabes nunca foram das melhores, por motivos igualmente históricos e os quais ninguém já nem sabe mais aonde começam ou acabam. São todos inocentes e culpados ao mesmo tempo. E os árabes israelenses, aqueles que nasceram em Israel e são cidadães israelenses que assim como os judeus compartilham o país onde vivem, tem uma constante relação de amor e ódio com o país. Vivem, sem sombra de dúvidas, em condições melhores do que os árabes que vivem em países árabes. O acesso a educação e saúde é gratuíto a todos no país. Mas vivem num país que tem dificuldades em reconhecer como pátria. Mas com certeza não gostariam de estar em nenhum outro lugar senão aqui. Enfim, é o conflito que atinge também o dia a dia das pessoas comuns e não apenas as guerras e as frustradas tentativas diplomáticas de se buscar uma solução pra região.
Pois ela, que tem um nome que me parece impronunciável e que eu nem me atreveria a tentar soletrar, me pareceu tímida e certamente acuada. Faz uma faxina que não se compara à faxina da Angélica, a faxineira da Guatemala que trabalhava na minha casa nos EUA, a Lu ou a Soely no Brasil. A faxina dela é de guerrilha!
Pois eu estava lá embaixo tentando explicar pra Bebel que ela não podia entrar em casa agora porque a casa estava limpíssima e ela tava com as patas sujas. Expliquei, dei osso, fiz carinho até que ela se deitou no quintal da frente, para admiração de nossos vizinhos ingleses.
Foi então que subi pro segundo andar pra continuar trabalhando e tive que interagir com ela, a faxineira, pela primeira vez e tendo pra isso apenas o meu vocabulário hebraico super limitado (todos os árabes tb falam hebraico). Como deixá-la menos acuada e mais tranquila em minha presença se mal posso me comunicar com ela?
Lembrei do meu maior trunfo, que não é só meu mas de tantos outros milhões de indivíduos. Sou brasileira! Sou do país mais querido do mundo. Sou da terra que sempre abre sorrisos nos rostos de qualquer um de qualquer nacionalidade. Não brigo, não implico, não me acho, não sou besta. Sou brasileira.
Não precisei de muitas palavras pra explicar pra ela que eu não sabia ainda falar hebraico e que eu...eu sou brasileira! Falei pra ela. Foi ai que conheci o sorriso dela. Brasilai, ela perguntou? Ken Brasilai, eu disse. Ela sorrindo me disse: meu filho ama o futebol do Brasil! Ele tem a camisa e o short do Brasil!
É mesmo? E quantos anos tem seu filho? eu perguntei. Nove; ela disse ainda satisfeita com a novidade.
Hoje ela vai chegar em casa e ao invés de dizer que fez faxina na casa de um judeu, vai contar satisfeita ao filho que fez faxina na casa de uma brasileira. A brasileira é judia, mas isso provavelmente se torna irrelevante diante da paixão verde-amarela!
Da próxima vez trago um presente do Brasil pro filho dela. Afinal, não é só de futebol que se alimenta uma paixão, mas também do calor, da simpatia e do carinho de um povo.
Eu sou brasileira!

sábado, abril 23, 2011

Casa nova

No dia 20 nos mudamos para uma casa nova, linda, de 2 andares, 4 quartos. A casa tem um quintal pequeno e Moby e Bebel ficam doidos atrás dos gatos que sempre entram pelo portão baixo, de ferro. Cada uma tem seu quarto e eu fiquei com meu escritório, por enquanto, dentro do nosso quarto. Vamos ver se vai funcionar.

sexta-feira, abril 08, 2011

Hello Tel-Aviv, Au Au!

Há três dias Bebel e Moby pousaram em Tel-Aviv. Foi um período de muito trabalho, desde o dia em que decidi, ainda em Israel, em Janeiro, que eu mudaria a minha vida pra cá. As decepções que tive na época e a sensação de desamparo me foram necessárias para que eu tomasse uma atitude que pensava não ser capaz. Eu ...não capaz de alguma coisa quando enfio na cabeça???...té parece! Não sou refém né...Acho que isso já deixei claro!
Meu marido veio me encontrar no meio do mês passado no Brasil e foi de Tel-Aviv direto ao meu encontro na cidade paulista do Aedes, onde eu dava um workshop. No dia seguinte voltamos juntos pro Rio de Janeiro e trabalhamos muito até finalizarmos com tudo. Entreguei o apartamento de Itaipava, que havia alugado em Novembro! Vendi, dei, mudei, emprestei, perdi, quebrei, tropeçei, ou jogeui no lixo todas as coisas que tinha. Tudo coisa né? Fizemos uma pequena reforma no ap do Posto 6 e no domingo passado fomos de carro até um sítio perto do aeroporto de Guarulhos onde ficamos os 4 (eu, meu marido, Moby e Bebel) até terça feira. Na terça feira chegamos esbaforidos no aeroporto, atrasados e eu super nervosa. Enfiei o "remdinho" dos cachorros guela abaixo..30 gotas pra cada um, botamos cada um em sua caixa de R$ 500,00 e seja o que Deus Quiser!
No meio do voo fui ao banheiro na ponta de trás do avião e escutei Moby latindo. Decidi que eu também devia tomar o "meu" remedinho. Um comprimidinho pequinininho marromzinho e puft. Bom dia and welcome to Tel-Aviv!
Ele passou na frente, a fila dos Israelenses estava pequena, eu fiquei lá no meio dos russos, segurando meu passaporte brasileiro e com o coração na mão. De repente vejo lá de trás, por dentre as portas, Moby e Bebel andando na coleira. Graças a Deus! Eles estão vivos!
Fui liberada pela soldadinha, que agora me libera assim que mostro a certidão de casamento. O que um papelzinho não faz, hein? Sai correndo e Bebel se soltou e veio correndo em minha direção. Moby ainda ficou tonto tentando entender onde, como e principalmente porque.
Passamos pela alfandega onde literalmente passaram a mão nos dois e nem quiseram olhar coisa nenhuma. Welcome to Israel eles falaram. Já no saguão do aeroporto Ben-Gurion Bebel sem cerimõnia se abaixou e fez o maior xixi do mundo. Eu tava preparada, já carregava comigo aquele cobertorzinho de avião exatamente prevendo que isso poderia acontecer. Depois veio o coco. Esse foi fácil, eu tava com o saco a postos.
Como tantos outros judeus...Moby e Bebel viajaram o mundo e agora que já estão ficando com mais idade (9 e 10 anos) vieram se aposentar na terra prometida.
Estamos todos bem!

sábado, março 05, 2011

A mulher da faxina

Já disse que gosto de fazer faxina. Principalmente a parte que envolve água. Lavar chão, lavar banheiro, etc..Faxina pra mim é terapia, sempre me ocorrem pensamentos interessante. Mas não é só isso. Não sei delegar. E sabe o que mais, todo mundo fala isso facilmente..Fulano não sabe delegar. Mas como é isso de não saber delegar? Na minha penúltima faxina aqui no ap pensei sobre isso e pensei no que pra mim significava não saber delegar.
Tudo começou porque contratei uma pessoa pra fazer faxina no ap e depois peguei o carro e subi a serra. Paguei por um dia e meio de faxina num ap de quarto e sala. Ou seja, esperava encontrar o ap um brinco. Precisaria mesmo de mais de um dia pra ficar o brinco que eu esperava encontrar, já que com as obras era uma poeira só. Muito bem, o Júlio porteiro me indicou a Rosilene, ela veio no ap, tratei com ela, e fui embora com Moby e Bebel pra serra.
Quando voltei ao ap alguns dias depois fiquei super decepcionada com a faxina dela. Não sou nada perfeccionista, nem com as minhas coisas e nem com as dos outros. Sou super tolerante e tá tudo bom pra mim. Mas a faxina da Rosilene deixou mesmo a desejar. Eu havia pedido que elas passasse um pano em todos os livros pra tirar a poeira, que fizesse quantas máquinas de roupas fossem possíveis (fez uma apenas, aparentemente), que ajeitasse os móveis em algum lugar (ajeitou todos), que lavasse todas as louças (não lavou nada, aparentemente) e o chão estava horrível. Resultado: Passei um sábado de sol no Posto 6 fazendo faxina. E então pensei: Se tivesse sido a minha amiga Cris que tivesse contratado este serviço o ap não estaria assim. Estaria de fato um brinco, tenho certeza. Então começei a cavar, a cafufar e a tentar descobrir porque. Ai pensei na forma como falei com a Rosilene no dia da faxina e constatei que eu faço o tipo "patroa gente boa". Sou mole mesmo, legal demais, simpática demais, sorridente demais. Veja bem, não estou dizendo que precisamos ser duras ou grossas com estas pessoas, não é isso. Mas o que constatei nessa minha faxina feita no dia lindo é que estes pequenos contratos de serviços (faxina de 1 dia com faxineira que nunca vi antes na vida) não se sustentam na simpatia. A Rosilene não tem nenhum sentimento em relação a mim, ela não me conhece e quanto mais fácil e rápido puder ser a faxina, melhor. Ela não me deve nada, nem simpatia, nem gratidão, nada. Se eu me apresento como patroa gente boa e vou embora assumindo que "ela sabe o que deve fazer", a tal da Rosilene vai fazer as coisas da forma mais fácil possível. E foi exatamente isso que aconteceu. O problema, eu pensei, é que na hora da contratação fica parecendo que eu estou ali pra fazer uma nova amiga, no caso a faxineira, e não pra contratar um serviço. E essa sutileza desta relação mal definida não fica clara para a Rosilene. O que ela tem ali é uma patroa mole que não vai dar trabalho. Resultado: Porcaria de faxina!
Já pro caso da Sueli, que era minha empregada de todos os dias, a minha "moleza" me transformava na patroa mais querida do mundo e eu podia contar com a Sueli para as mais diversas situacões, até pra ir cuidar de Moby e Bebel no domingo, quando eu tentava me virar pra ver que jeito daria pra deixar minha família e voltar pro Brasil por causa dos cães. Mas isso é fácil de entender..Sueli desenvolveu sentimentos por mim e isso não tem preço. Nunca sumiu 10 centavos da minha casa e ela não tem nenhum motivo pra se indispor comigo. É uma relação completamente diferente daquela relação que se desenvolve com a diarista. Com a diarista isso só ocorre depois de anos de convivência, como foi a minha com a Angélica, a faxineira da Guatemala que trabalhava na minha casa nos EUA e que ficou comigo por uns bons 4 anos da minha vida. Ela coonheceu o David e viu ele morrer. Foi pra mim que ela ligou desesperada do hospital quando estava prestes a dar a luz, eu paguei curso de inglês pra ela e vivia dando coisas pro filho dela. Para mim não há nenhum outro modo para se estabelecer estas relações.
No fundo a razão é uma só: evitar conflito. Não sei brigar com empregada, nem com o porteiro, nem com o bombeiro e nem com o cara que colocou as prateleiras.
Peciso encontrar alguém pra contratar estes serviços pra mim.
Cade meu marido que não chega?

quarta-feira, março 02, 2011

Não sou refém

No dia 12 de fevereiro eu fechei um ciclo ao colocar Moby e Bebel dentro do carro e deixar Itaipava, onde morei por quatro anos, desde que fui embora dos Estados Unidos. Eu desci a serra no final do dia, depois de vender quase tudo que havia na casa. Vendi o sofá laranja, vendi a mesinha de centro, vendi a mesinha de televisão, vendi a televisão de 30 polegadas. Tudo coisa. Vendi tudo e o que não vendi ainda irei vender, dar, emprestar, alugar, consignar, sei lá. Tudo coisa. Não sou refém de coisa! Não sou refém de salário, não sou refém de aposentadoria garantida, não sou refém de rotina, não sou refém de 13 salário, não sou refém de lugar, não sou refém de língua. Meu compromisso é com uma coisa apenas: a minha felicidade. E faço o que tiver que ser feito em nome deste único compromisso.
Engana-se quem achar que isso é o mesmo que dizer que sou irresponsável ou inconseqüente. De jeito nenhum. Sou super responsável e penso tudo sobre todas as coisas. Porque ser responsável e pensar tudo sobre tudo faz parte da minha felicidade.Também é um engano pensar que se trata de uma viagem solitária e egosísta. Mais do que nunca não. Porque estar com a minha família, meu marido e meus cachorros faz parte da minha felicidade.
Estou no Rio. Moro no Rio. Planeta Copacabana, que saudades!
Hoje entendo perfeitamente o que me levou a escolher Itaipava, um lugar onde nunca antes havia estado, onde não tinha estória, onde não conhecia absolutamente ninguém. A escolha por Itaipava foi como escrever a primeira página de um novo livro que se quer terminar um dia. Eu precisava começar tudo de novo, do zero. Precisava me afastar das coisas que conhecia, precisava me re-descobrir depois da morte da David e de viver 12 anos nos Estados Unidos, precisava me apresentar a mim mesma e me olhar lá no fundo pra ver o que poderia enxergar. Enxerguei um monte de porcalhada, umas minhas e outras que nunca me pertenceram. Umas me chocaram profundamente outras não me surpreenderam. Umas me assustaram outras me desesperaram. Umas me deprimiram, outras me deram esperança. Me agarrei no que ainda podia me dar alguma esperança, tive a devida coragem e puxei com força a corda que me acompanhava no fundo do poço. Do outro lado da corda havia um homem paciente que puxava um pouquinho de cada vez e que nunca, nunca em momento algum, largou a corda.
As pessoas que conheci em Itaipava foram amigas, companheiras e confidentes. Me ajudaram a construir este novo mundo cercado de montanhas. Eu precisava olhar para coisas bonitas. Precisava ver as borboletas, o Ipê roxo da rua abaixo, o periquito verde e escandaloso. Precisava poder sair sem medo de madrugada, precisava poder voltar a hora que fosse. Precisava descobrir onde era o supermercado, o cabeleireiro, o restaurante e onde era o melhor lugar para beber Itaipava.
Consegui perdoar todas as minhas dores. Consegui curar as feridas que me comiam aos poucos, consegui deixar o medo pra trás, consegui deixar de me fazer de vítima das circunstâncias, consegui me libertar da personagem da jovem viúva, consegui perder o medo da conta do banco, da mamografia, da vistoria do carro, do celular bloqueado. Consegui afrouxar a minha rigidez. Finalmente descobri o botão mais importante da minha vida. Ele chama-se foda-se!
Vou escrever um tratado: Como o botão foda-se me tornou uma pessoa mais feliz!
Não recomendo pra todo mundo. Somente pra aqueles que como eu sofrem, ou sofreram, de rigidez excessiva.
Agora não sou mais refém de nada. Nem das minhas maluquices.
Meu marido chega em duas semanas. Ele vem me ajudar com a entrega do apartamento em Itaipava, com a reforma do apartamento em Copacabana e com a viagem de Moby e Bebel para Israel.
A viagem acontecerá em Abril.
Estou muito feliz. E pensei: sobre felicidade não se conversa. É o assunto mais proibido do mundo. Pode se falar sobre traição, dores, tristezas, dúvidas, incertezas. Mas sobre felicidade não se pode falar. Não pega bem ligar para uma amiga e pedir: Vamos sair? Quero te contar como eu estou estupidamente feliz.
Não pode. É feio. Até dá medo. Olho gordo, dizem. De felicidade não se fala não, só de desgraça e coisa ruim. Pra falar de coisa ruim sempre tem um ouvido amigo..já da tal felicidade...
Queria contar como estou estupidamente feliz. Posso?