quarta-feira, março 29, 2006

De 14/4/2006 a 9/3/2006

2006-04-14T11:21:47.860-03:00
Bola pra frente
Sabe uma coisa que tem me ajudado muito? Comecei a fazer uma coisa que nunca havia conseguido fazer antes na vida, aliás duas coisas.. A primeira é que começei a correr, mesmo! Ontem corri 40 minutos. Quarenta minutos sem sair de cima!!! E com isso tô emagrecendo pacas, perco meio pund por dia e aí começo a me sentir mais bonita, mais magrinha, mais gostosa..E sim, continuo fumando, mas cada vez menos, a não ser quando saio pra beber, como fiz ontem à noite com meus amigos maravilhosos. A outra coisa é que nunca consegui deixar meu cabelo tão longo como agora. Não que isso seja especialmente importante, mas é um sinal de que estou me re-inventando, e acho que isso é importante agora.

Sei como é essa sensação de estar de mal com o mundo, sei bem. Todos são chatos, desinteressantes e cansativos porque só se quer ele, ele, ele. Essa etapa eu já passei, mais foi só recentemente. Um dia acordei de manhã, abri a janela e tava sol e então pensei..Eu estou viva!!! Eu estou saudável! Eu sou bonita! Eu sou legal pra caramba! Eu sou interessante! E vou tratar de fazer isso, vou viver o ser eu!!!

Outra coisa..um bom livro. Nada como um bom livro para ajudar a manter os nossos pedaços juntos. Então li um autor que eu amo de paixão, o Paul Auster e quando terminei a última página do Brooklyn Follies, tive novamente aquela sensação de privilégio. Que privilégio é estar viva para poder ler esse livro, que privilégio é poder saber desse livro, que privilégio é saber de Paul Auster. Até me deu vontade de escrever um email pra ele, só pra dizer isso. Esse livro conta a estória de um homem comum, mas é de um otimismo e de uma beleza radiantes. E nos faz lembrar que para as coisas acontecerem, basta estarmos vivos, basta estarmos bem.

Experimente contar o tempo de trás pra frente..Eu faço assim..Acordo de manhã, me olho no espelho e digo Faltam 63 dias para eu encontrar um novo amor...Amanhã direi, Faltam 62 dias pra eu encontrar um novo amor..Porque 63 ou 62? Sei lá..Mas funciona como contar ovelinhas..quando nos damos conta já chegamos lá...E no caminho vamos nos preparando..Tô malhando, tô fazendo as minhas coisinhas e também tô relaxada porque sei que ele não vai aparecer antes desses 62 dias então posso ficar em casa sábado a noite lendo meu livrinho ou vendo meu Truffaut e não preciso ficar na pilha ou na ansiedade... E se não acontecer? Bem, de duas uma..Me conhecendo do jeito que me conheço (porque toda aquela grana gasta na análise tem que servir para alguma coisa..) alguém vai aparecer, eu sei que vai, e não sou quem diz não, são os números. É uma questão de probabilidade, simplesmente, é quase científico! Todas as vezes na minha vida que eu relaxei com isso de encontrar alguém e liguei aquele dispositivo magnifíco que devíamos todas usar com mais frequência- o tal do FODA-SE- alguém chegou na minha vida, de supetão. Todas as vezes em que saí à noite no desespero de encontrar alguém, quando tinha o coração pesado e a alma doente, voltava pra casa só, triste e depremida. Esses achados foram colhidos ao longo de 20 anos de estudo!!! Então, é relaxar e deixar a porta aberta. Alguém vai ver a brecha, vai bater na porta e vai pedir pra entrar. E aí é comigo.

E se alguém não aperecer.. pouco importa também, o que importa é o caminho, é a busca. Não há outra opção a não ser a de viver a vida relaxada, a de re-aprender a sorrir, a de fazer as pazes com o mundo. Começe por aí minha amiga. Me promete que amanhã você vai abrir a janela da sua casa, vai olhar pro céu e vai dizer em voz alta..Hoje eu vou fazer as pazes com o mundo. Chega!

Minha querida, não deixe a peteca cair não, porque isso irá te trazer um alívio que não durará mais que uma noite e depois o tombo será ainda maior.

Um beijo e bola pra frente porque atrás SEMPRE vem gente,
São os meus votos pra você nessa Páscoa!!

 2006-04-12T09:07:08.826-03:00
Você gosta de sushi?
O vazio que fica depois que ele se vai..Penso muito sobre esse vazio...O que ocupava esse espaço antes dele aperecer? Existia esse vazio? eu me pergunto. Eu acho que não. Antes do Gaton do Chimarron entrar na minha casa num domingo a noite em outubro, pra pegar a chave do apartamento de um amigo em comum, eu estava bem. Estava inteira, me recuperando da paulada que a vida havia me dado (leia Roxa de Saudades), estava centrada, e nem dei muita bola pra ele, inicialmente. Você precisa da chave? Pode passar aqui sim, mas tô um caco, acabei de chegar de uma viagem de 5 horas.. Eu pensei: ele vai pegar a tal chave e vai embora, e eu vou dormir que tô com sono e sem o menor saco de fazer sala pra hermano que é amigo de amigo... Pois o homem entrou, pegou uma cerveja na geladeira, sentou no sofá (eu com os olhos quase fechando de sono), e depois pegou outra cerveja, e depois começamos a conversar sobre o filme do Fernando Meireles, e depois sobre ética médica, aí meus olhos abriram, ele se empolgou, eu me ajeitei no sofá e lá pras tantas, quando ele saiu da minha casa, eu já sabia que beijar aquela boca seria inevitável. Apenas uma questão de tempo, apenas mais dias ou menos dias. E no dia seguinte lhe mandei um email que tinha apenas uma pergunta: Você gosta de sushi? Recebi apenas uma resposta: Quando?
E assim tudo começou. E agora que tudo acabou, fico tentando lembrar o que se passava na minha cabeça naquela tarde de outubro quando eu dirigia de volta de Pittsburgh e quando ele ainda não existia na minha vida. Quem era eu? O que eu estava buscando?
Certamente não era ele quem eu buscava. Certamente eu diria Cruz Credo se alguém me oferecesse um homem cheio de talentos, mas confuso, enrolado, que não sabe se vai te querer ou não, mas que vai dizer que te ama, e até que queria ter um filho com você ele vai dizer, e vai chorar, e vai dizer que o seu problema é que você é maravilhosa demais, e vai desparecer e depois vai aparecer de novo, e vai morrer de ciúmes, e vai te pirar e vai te fazer passar dos limites, e vai te fazer se testar... Sim eu diria, Sai de mim Satánas!! Quero isso pra mim não. E se fosse uma amiga me dizendo que havia conhecido um homem assim eu lhe perguntaria Já esqueceu quem você é? Tá maluca, ou cega, ou pirou de vez.. e botaria a criatura em camisa de força. Como alías uma amiga sugeriu..Se tranca no banheiro e joga a chave fora mas não saia com esse homem.
Então, voltemos para os sonhos que buscávamos, voltemos para os planos que tínhamos, voltemos para as coisas nas quais acreditamos.
O que alimenta esse vazio não é a ausência dele, esse vazio vem no momento em que começamos a nos separar, no momento em que já queremos deixar de pensar, no momento em que o número no celular é deletado, e ele é bloqueado no msn, e os torpedos são desviados para outros destinos, e as mensagens são apagadas...O vazio vem quando a paranóia começa a baixar um pouco, porque no fundo passamos todos esses meses nos alimentando de paranóia, de diálogos inexistentes, de images e cenas que tanto desejamos mas que só aconteceram na nossa cabeça.. Quem preenchia esse espaço não era ele, era o nosso desejo. E o desejo de encontrar alguém legal e de reconstruir a vida continua mais vivo do que nunca. Que nos alimentemos deste desejo, do sonho de que ao cruzar a esquina amanhã um outro Gatão (ou quem sabe até outro Gaton), melhor e mais feliz, irá esbarrar na gente. E eu então irei perguntar: Você gosta de sushi?

2006-04-18T09:57:19.016-03:00
Email à amiga
Sei bem como é essa de não saber perder. Porque mesmo que seja uma decisão deles a de não se entregar e de não estar com a gente, não aguentam a possibilidade de perder, porque é bom demais ser querido e amado, não é? O Gaton aqui faz a mesma coisa. Ontem conversamos, também sem briga, também falei tudo (que já havia dito antes) e que basicamente se resume em “com você eu queria tudo“. Então concordamos que não dava mais, que era melhor assim, que quem sabe um dia a gente se re-encontrava em outro momento, e bla, bla, e bla e ficamos de não nos falarmos mais, para nos afastar. Eu hoje, finalmente, deletei o número dele do meu celular, e todas as mensagens que haviam. E às 7 da noite, quando dirigia de volta pra casa depois de um almoço delicioso com alguns bons amigos bebendo de bem com a vida, o celualr toca e como já não tinha lá mais o seu número não me toquei de quem era e atendi o telefone. E então ele falou.. Liguei somente pra te dar um beijo e pra te dizer que tenho pensado muito em você. Mas o que ele queria dizer mesmo era Liguei somente pra você não me esquecer e não deixar de me querer. Fui de poucas palavras, não disse muito e desligamos logo.
Como você, também não quero mais, também fiquei com muita dor mas também já sinto o alívio. Nós somos mulheres bonitas e interessantes e não temos porque achar que ficaremos só. Alguém vai aparecer, claro que vai, alguém sempre aparece. E teremos uma outra chance e se não for essa, teremos outra e mais outra. Outro dia vi o último capítulo de Sex and the City e a última frase do programa que a Caren fala é o relacionamento mais importante de nossas vidas é o relacionamento que temos com nós mesmas, e eu acho que a coisa pior desse tipo de relação com homens assim é que afeta de forma muito ruim esse relacionamento com a gente mesmo. A insegurança, o medo, a incerteza, o susto, o coração que pula e desmorona a cada minuto, isso tem consequências muito duras. Eu me sinto horrível, chata, fico nervosa, agoniada, é horrível. Me sinto detestável e pior do que tudo, deixo de ser eu mesma. Porque abrimos mão de nós mesmas, das coisas que sonhamos, das coisas em que acreditamos, e tudo passa a exisitr em função do outro. Viramos concessão. E isso não é amor, é obsessão, é vício. Com isso, não se constrói nada, não se avança nem meio passo, não há realizações, há somente prazeres passionais e de curta duração e dor, muita dor. A dor de acordar sozinha, a dor de não saber quando irá vê-lo novamente, a dor de não ser querida, a dor de saber que se está vivendo nas brechas da vida do outro, nos 15 minutos que se expremem entre uma coisa e outra e que são mais importantes que a gente. Eu, eu quero um homem que comigo queira tudo! Que não tenha medo de mim, que não tenha medo de se entregar, que não tenha limites. Um homem que não minta pra mim, que esteja comigo para o que der e vier. Pra que com ele ao meu lado eu possa curtir o deleite que é ser quem eu sou e estar onde estou...
Quando você acordar no meio da noite, não pense nele. Eu estou desenvolvendo uns exercícios, fiz uma lista de coisas boas que gosto, de pessoas, de estórias passadas, de lembranças de outros que já se foram e quando me vem o pensamento nele eu olho a lista e escolho um tema para pensar. Porque está tudo em nossa cabeça, relações assim, infelizmente, não moram no coração. Porque o coração só sente e pensa pouco. Os milhões de diálogos que passamos e repassamos todos os dias (aí ele disse isso e eu disse aquilo e vou dizer aquilo mais e ele vai ver só..) evidenciam que isso é relação enchaqueca, isso não é amor. E eu acho, que relaçãos que ficam nisso por muito tempo se perdem e nunca acham o caminho do corção. Se perdem entre os nossos neurônios, causam uma bagunça nos nossos circuitos.
Sabe que eu percebi uma coisa muito interessante, que não tenho como provar mas que é fascinante?! Minha cadela Bebel é muito agarrada comigo e muito carinhosa. Ela é um anjinho e segura muita barra minha.

Bebel adora dormir comigo na cama e eu também adoro dormir com ela (ela é super limpinha!). Percebi que quando o Gaton aparece assim de repente e acontece uma conversa, um encontro ou alguma coisa, e depois ele se vai me deixando totalmente em parafusos e com minha cabeça em curto circuito.. nessas noites Bebel não dorme comigo. Eu a chamo, ela me olha mas escolhe o sofá. Dizem que cachorros são extremamente sensíveis e acho que ela sente que estou carregada e isso lhe deve ser desagradável. Quando estou tranquila, quando sei que ele está viajando ou quando tenho certeza que não vai aparecer, ela vem pra minha cama. E se a Bebel sente, as pessoas ao nosso redor devem sentir também. Ficamos carregadas e isso aparece na expressão de nossos olhos, no sinal vermelho que passamos sem nos dar conta, no esquecimento dos compromissos.. Porque a nossa casa fica vazia, nós não estamos mais lá, estamos nesse lugar escuro e frio que eu chamei de limbo. E no limbo, nada floresce, minha amiga. No limbo, nos afogamos e nos perdemos.
É preciso força para sair do limbo e retornar ao nosso centro. É precso força para juntar todos os pedacinhos que se espalharam pelo quarto para que possamos ser de novo uma mulher inteira, com sonhos, sorrisos, e cheia de amor pra dar (e pra receber). E essa força tem que vir da gente.
Repita pra si mesma..isso não é amor. Poderia ser se ele deixasse, poderia ser se ele tivesse dado uma chance. Mas assim, não é não. E ver que o potencial desse amor foi transformado numa paranóia neurótica é muito triste. Porque os sonhos eram muitos. Mas estávamos o tempo todo sonhando sozinhas e sonho de amor que se sonha sozinha não é sonho, é pesadelo.
Durma bem, minha querida e vá em frente. Você é interessante e linda demais. E ele, e todos os gatões e gatons desse mundo que têm medo do amor, esqueceram-se de um dia se tornar homens com H.
Beijo

2006-04-20T23:01:31.530-03:00
Comi a minha fortune
Acabei de comer a minha própria fortune. É que eu tava distraída, com os olhos inchados, a cabeça rodando, o coração pesado. Sei que estou com fome, meu estômago tá me falando, mas não tenho vontade de comer. Aí vi aqui do lado do computador o cookie da fortune, uma simples lembrança do almoço que hoje tive com o homem que amo mas que não posso porque tô enrolado, você me desarticula, você me tira do sério e blá-blá-blá.. e aí peguei o cookie e coloquei na boca inteiro. Depois de uma mastigadinha aqui e outra acolá, senti uma coisa molinha na boca (sem idéias pessoal!!!). E pensei, pô que cookie mais passado, nem no cookie do chinês se pode confiar mais esses dias. Aí fui ver o que era. Tinha comido a minha própria fortune.

Ainda tentei desenrrolar a coisa, pra ver o que tava escrito, pra ver se havia alguma pista sobre o meu futuro, sobre o que fazer com este amor que me dilacera, e nada..O papelzinho estava inutilizado, já foi. Nunca vou saber que mensagem me trazia aquela disgranha, nunca vou saber a minha fortune, nunca vou saber o que fazer com essa coisa que me come por dentro.

Melhor que tivesse engolido, saberia exatamente onde ia parar. Saberia exatamente que fim tudo isso levaria, saberia como a estória ia acabar. Mas não sei. Só o tempo me dirá o que vai ser desse amor, só o tempo me dirá se uma dia ele baterá na minha porta novamente, segurando a cuia de chimarrão.

Enquanto isso, vou voltar ao paliteiro e continuar a minha busca por uma agulha. Já achei a agulha uma vez, e se tiver sorte, acho de novo. Repito pra mim que o mundo é grande demais, que há gente de todos os tipos, que há milhões de homens por quem eu poderia me apaixonar. Mas só de pensar já me cansa o coração. Como me apaixonar se apaixonada já estou? Como procurar por aquilo que já encontrei? Como fazemos para nos desapaixonar?

O ministro já diria..Tempo rei, ó tempo rei, ó tempo rei…

 2006-04-10T23:26:44.016-03:00
A vida como ela não é
No meio do jantar de ontem, e depois de dividir com meus amigos algumas garrafas de champagne, aproveitei aquela pausa que se fez e me arremessei ao meu lap-top. Sim, vim em busca de um sinal, de uma confirmação, de uma esperança que pudesse estar ali na minha caixa de mensagens, na madrugada fria de sábado, aguardando por mim. Não havia nada, apenas uma mensagem enviada por mim para mim mesma. Além de mim, não havia nada.

Aí cliquei em Compose e escrevi umas poucas letras tímidas que diziam simplesmente o que eu tinha pra dizer..que tava com saudades de você. A mensagem dizia assim:
Que saudades de você…

E não dizia mais nada. Fui no campo to e cliquei naquela letra que tem o seu nome. Seu endereço de email apareceu, junto ao seu nome que ainda me causa arrepios quando vejo brilhando na tela, e vi aquela mensagem singela, sem título e tímida. E foi naquele meio de segundo, que exisitiu entre eu pensar se mandaria ou não a mensagem, e foi naquele meio de segundo que eu entendi tudo. Fechei a caixa de email e desliguei o computador.

Já pensei e cansei de pensar no que eu poderia ou deveria fazer pra te fazer entender e acreditar no que eu sinto por você. Já pensei também, e já também cansei de pensar, em porque pra você é tão difícil acreditar que o amor sobrevive, mesmo que desprovido de necessidade. Pensei em tudo que eu poderia te dizer, a forma como poderia ser dito, as coisas que poderia fazer, e até a forma como eu poderia ser. E tudo isso me deu um cansaço milenar. E tudo isso me arremessou para um lugar muito distante e escuro, que é onde vive quem não sou, quem não diz, quem não tem paz no coração. É lá onde vivo como hóspede de minha própria casa. É lá também onde vivem todas as relaçãoes imaginárias que não existem, é lá onde vivem todos os diálogos e atos que se acredita poderem consertar, ou até fazer nascer, o amor.

Esse lugar é tão antigo quanto nossos primeiros questionamentos. Acho que antes de perguntarmos quem somos e de onde viemos já perguntávamos porque não me amas? E por todos estes séculos andamos em busca desta resposta e ensaimos todos os dias, por todos os cantos do mundo, um comportamento que modifique este destino tão cruel; o destino de não ser amada por àquele a quem se ama.

Entendi naquele milésimo de minuto que mais do que o prazer de tê-lo ao meu lado, que mais que seus beijos e abraços, que mais que seu sorriso ou sua gargalhada, que mais que o seu mundo fantástico, há um prazer maior do que tudo isso. É o prazer de ser quem eu sou, na plenitude. Como no último capítulo de Sex and the City, quando Carrie finalmente entende que o melhor relacionamento é aquele que se tem consigo mesmo. E é esse relacionamento que a sua presença em minha vida (ou seria ausência?) destrói. Destrói a minha relação comigo mesma porque faz de mim essa coisa chata, feia, nervosa, agoniada, gorda (não interessa o que o espelho ou a balança possam dizer, eu fico gorda e pronto!!) angustiada, ansiosa, mal amada, e portanto impossível de ser querida, até por mim mesma.

Eu quero o prazer de não ter que pensar, de não ter que perguntar, de não ter que esquecer, de não ter que calar, de não ter que regular, de não ter que questionar, de não ter que ter. É o prazer de acordar, tomar café, ler o jornal e botar os pés pra cima. É o prazer de ser a dona, mesmo que louca, da minha própria casa.



Me lembrei do filme A Insustentável Leveza do Ser e também do livro de Kundera. E me lembrei que eu havia esquecido que já havia aprendido isso antes. Me lembrei de quando indo visitar o Thomás pela primeira vez, e sem avisar ou prepará-lo para a sua chegada, a Teresa simplesmente aparece na casa do Thomás e em poucos minutos pula em cima ele. Ela simplesmente se joga em cima dele, e aquele pulo é de uma sinceridade que não sei nem explicar. Com aquele gesto ela diz tudo pra ele, sem abrir a boca. E com aquele ato inusitado ela chega na vida dele pela porta da frente.

Acho que eu tinha uns vinte e poucos anos quando vi esse filme pela primeira vez e aquela cena me impressionou de uma tal forma que ficou imprintada na minha cabeça pra sempre. O que me impressionou foi a verdade e a coragem daquele gesto dela. O que ela queria fazer quando ele abrisse a porta era se jogar em cima dele, e foi isso que ela fez na primeira chance que teve. Claro que ela poderia avaliar aquele gesto, questionar se deveria chegar assim, ponderar que talvez fosse uma loucura, concordar que seria no mínimo um susto. E claro também que ela poderia analisar se aquela seria a melhor forma de dizer pra ele te quero, se aquele gesto não o assustaria, se não faria com que ele pensasse que ela era uma louca. Claro que ela poderia tudo isso. Mas não, ela simplesmente se jogou em cima dele. E se nessa estória ele fosse quem deveria ser e estivesse onde deveria estar, ele a seguraria no momento do pulo. E foi exatamnete assim que aconteceu. Ela pulou, ele segurou.

E você que já me deixou cair no chão tantas vezes, não é quem deveria ser, não está onde deveria estar e por mais diálogos que eu crie, e mais argumentos que eu construa, a verdade é que você é você e isso, infelizmente, não me basta.

 2006-04-04T00:00:11.446-03:00
A esperança é a última que dorme
São 10 da noite de uma treça-feira fria e silenciosa. Esse silênicio que antecipa o trim do telefone que nunca acontece é mortal. É um silêncio dilacerador porque é um silêncio que diz tudo. Você não vai ligar, eu não vou atender, a sua voz eu não vou escutar, as suas palavras você não vai dizer.

É em meio a este silêncio que escuto todas as coisas que tenho ainda a lhe dizer. Tenho ainda a lhe dizer porque a cada novo dia nasce um novo diálogo, surge uma nova ponta dessa agonia, e uma nova esperança se faz.

O que eu quero, eu sei. Quero que você não seja quem é. Quero que você seja tudo o que eu sonho, quero que você seja outro, quero que você deixe de existir para que eu possa fechar os olhos e possa enfim dormir com a certeza de que o telefone não irá tocar.

Sinto o coração apertado, como se eu usasse um sutiã que é pequeno demais para mim. Sinto tudo apertar, sinto dificuldades em respirar, sinto uma vontade louca de gritar. Mas prevalece o silêncio, que afinal somos seres morais, éticos e comportados.

Mas acho que nem mais o telefone me consola. O que eu queria mesmo é que você tocasse a campainha, eu abrisse a porta e te visse me olhando sem dizer, inicialmente, uma palavra se quer. Queria que depois você me desse um abraço e confessasse baixinho em meu ouvido..Não posso viver sem você, não quero viver sem você. Sem você, você diria..sem você eu não quero nada.

E com esta tripla negativa me faria finalmente acreditar que você me ama. Triplamente, mesmo que negativamente. Triplamente, que é o avesso do avesso do avesso.

 2006-03-29T23:54:26.403-03:00
Cartilha da relação neurótica
Vou te falar o que você pensou já saber mas não sabe não. Falarei daquela relação neurótica, que você já repetiu tantas vezes que não quer mais. Mas não consegue sair, fica amarrada por uma corda que desconhece, fica sufocada, chora e grita. Mas não sai.

Vocês brigaram mais uma vez no telefone, numa conversa sem pé nem cabeça que terminou de madrugada. Ele desligou o telefone com raiva e disse nunca mais querer falar com você. Você acredita que a culpa é dele e ele, claro, que a culpa é sua. Mas isso é irrelevante, o fato é que não dá certo, e isso é a única certeza que você tem.

A briga aconteceu há 4 dias atrás e ele até agora não deu as caras. No começo você ficou aliviada, e disse chega! Não quero mais, discurti! Perdi o tesão! E desde então tem se repetido estas palavras como se fosse uma reza, seja no carro, no chuveiro, ou cozinhando feijão. Mas o fato é que não deixa a bateria do celular descarregar e checa os seus e-mails a cada 15 minutos. Não quero mais, você repete. E diz que ele é isso e aquilo, e liga pras amigas pra falar mal dele.

Aí pensa que já que decidou que não quer mais, deveria falar isso pra ele. Pra não ficar um clima ruim entre nós, você diria. Poderia também usar a desculpa do "vou deixar as suas coisas aí na portaria" acreditando que esse gesto simbólico irá te libertar das amarras dele. Como se um CD, uma camiseta surrada e uma escova de dentes já gasta pudessem realmente te libertar. Mas tudo isso só reflete que no fundo você ainda está vivendo a relação.

Então pensa que o melhor é agir com cabeça fria e botar em prática tudo que tem discutido na terapia. "Poxa, o que a gente viveu foi tão bonito, não queria que acabasse assim, a gente pode ficar amigo". Mas você sabe que na verdade faria isso só para provocar nele uma reação, que você nem consegue imaginar qual seria. Aí pensa que melhor assim do que ele te ligar pra dizer, numa boa, que acha melhor que vocês fiquem separados. Isso lhe cortaria o coração. Mas se você já decidou que não quer mais, porque lhe cortaria o coração? Porque na verdade você apenas decidiu que quer não querer mais, o que é bem diferente de realmente não querer mais. E querer não querer mais nem te serve como consolo porque nada indica que isso fará com que de fato você não queira mais.

Então a outra opção é não ligar mesmo e deixar a poeira baixar. Mas o que fazer com esta ansiedade? Como dormir com um barulho destes? Aì você volta a dizer que se falar pra ele que a relação acabou, numa boa, você irá se sentir melhor e não ficará mais ansiosa. Mentira. Porque no fundo você ainda sonha que ele possa aparacer pra redimir o amor de vocês, que irá dizer que agora tudo será diferente, que ele reconhece isso e aquilo, que sabe que errou. Mas quantas vezes vocês já brigaram? Mas será que eu já esgotei todas as minhas energias? você perguntaria. Será que tentei mesmo tudo?

Você desconfia que alcançou o seu limite, mas não está certa disso. Alcançar o limite é como um orgasmo, quando acontece não há dúvidas. Então se há dúvidas é porque não alcançou ainda o limite e ainda tem esperanças. Vou então ligar pra ele, dizer que eu reconheço isso e aquilo, que agora vai ser diferente, e blá, blá.. Mas só de pensar nesta opção você se sente rídicula e teme que no momento que você se abrir e se mostrar frágil ele irá te falar, na boa é claro, que é melhor que vocês sejam amigos. E essa possibilidade, dentre todas as outras, é a que mais assusta. Então se assusta, é porque você está muito longe do não querer mais.

Aí você pensa que talvez tenha então que usar de algumas estartégias inteligentes para.. para o que mesmo? Se você não vê qualquer futuro possível juntos, pra que usar de estratégias? Para sair disso com classe e sem dor, você argumentaria. Ha! Pode esquecer! A possibilidade de sair disso sem dor é inexistente. Mas e se eu ligar e for verdadeira? E se eu disser "olha me custa muito dizer isso porque eu ainda gosto muito de você mas é melhor a gente dar um basta nesta estória. Por favor não me procure mais." Mas se é pra ele não te procurar mais, pra que ligar pra ele pra pedir isso? É como ligar pra dizer "estou ligando pra dizer que já não mais ligarei.."

Bom, então é melhor não ligar, você conclui, e se deixar ficar nesse limbo o qual já não pode nomear. Limbo. Você está no limbo, que é aonde moram todas as relações neuróticas que nunca conheceram ou a muito já deixaram o aconchego do coração.

 2006-03-29T00:07:22.343-03:00
De repente...um domingo!
Hoje acordei de olhos abertos, como sempre acordo. E espantei todos os caçadores de sonhos, que por ventura estivessem na espreita. Já acordei pensando no que faria ao longo do dia. E me permiti ficar na cama aqueles minutinhos a mais com a condição de que decidisse a roupa que usaria.

Lavei meus olhos, assim como costumo fazer todas as manhãs, e me olhei no espelho. Havia um amontoado de tempo entre o dia que havia sido ontem e o dia de hoje. Nem pensei em abrir a janela, nem liguei a televisão, nem o rádio. A única tomada ligada foi a da cafeteira. Calcei meus incansáveis sapatos que me seguem por onde quer que eu vá e quando já estava pronta para deixar a concha e me lançar em mais uma coletânea de horas, todas com a duração exata de sessenta minutos, o telefone toca. Era ele, me trazendo a notícia de que de repente, assim no meio da semana, como se eu tivesse simplesmente quebrado um ovo no mesmo instante em que passado e futuro colidiam, tinha acontecido de ser domingo.

"Levanta a persiana." Foi aí que vi neve como nunca havia visto antes, que nem filme do Kurosawa, e uma ventania que levantava toda a poeira e fazia tudo ao redor ficar branco. "Que coisa mais linda!" "Linda mas nem se atreva a sair de casa. Isso é whiteout, fica tudo branco, é perigoso. Bota o pijama e volta pra cama." Liguei pro trabalho. Ninguém atendeu ao telefone. Liguei pra ele de novo. "Tem certeza de que é isso mesmo?" "Liga a televisão." Liguei, tava passando Teletubbies. Observei os carros do condomínio, ninguém havia se atrevido. Liguei de novo pro trabalho. Nada. Abri minha agenda e encontrei uma rosa a me sorrir repousando no verso da folha anterior. Então me dei por vencida. Coloquei o pijama e deixei que aquele domingo órfão, que não era fruto das horas tardias de um já remoto sábado, se embaralhasse entre os dias da semana como um coringa entre as cartas do baralho.

E pensei: nos últimos anos não têm acontecido invernos em minha vida. Eu tenho mantido meu corpo quente para que meu sangue, confortavelmente, possa viajar por minhas veias tantas, para que meus fluidos emanem pelos caminhos a serem percorridos, pra que minha energia se dissipe em milhões de átomos infinitos. E que meu pensamento possa então repousar sobre a muralha do meu cérebro, se equilibrando como uma bailarina capenga sobre a corda bamba.

Fiquei na janela piscando os olhos, o olhar perdido no infinito da costa leste americana, que estava a dois palmos de distância. Levantava a sobrancelha vez por outra. Foi então que me lembrei das ventanias na praia, as barracas voando com o vento e a gente tentando, inutilmente, ler o jornal. Os olhos cerrados, a areia massacrando sem piedade. E meu coração tropical ficou coberto de neve, e a neve, voando assim no vento, não faz barulho, não é como a chuva que quando cai forte é aquela explosão. E também não tem raio nem trovão. É tudo muito calmo e tranqüilo, que é pra não incomodar o vizinho. É uma tempestade sem paixão!

E assim como todas as coisas vivas por aqui, a tempestade de neve também parece estar morta.

2006-04-11T20:01:42.866-03:00
Roxa de Saudades
É muito curioso pensar que eu nunca tenha escrito nada sobre você. Nem uma linha se quer, que eu me lembre. Logo você, meu amor. Mesmo agora, tento dizer tudo aquilo e as palavras me vêm com muita dificuldade.

Eu sempre desconfiei que o que move os meus dedos com tamanha fúria sobre o teclado é a dor, ou a paixão, que no fundo dá quase no mesmo. Dor e paixão são muito parecidas e igualmente insuportáveis. Mesmo que a paixão venha, aparentemente sem dor, fisiológicamente falando é tudo o mesmo inferno. Não se consegue dormir, dá dor no estômago, a cabeça passa o tempo todo revivendo cenas e dialógos, fica-se completamente fora do mundo. Apaixonados, somos como idiotas em crise aguda de dor. Não se consegue trabalhar, ler um livro, pensar ou falar de outro assunto que não seja o objeto da paixão. Eu falo muito quando estou apaixonada, e também escrevo, que é pra não implodir em milhões de pedacinhos brilhantes que refletem apenas uma coisa: a sua cara.

Mas de você nunca escrevi coisa alguma. Logo você, meu amor. E pensando agora, acho que nunca escrevi sobre você porque você nunca me causou dor alguma, e também porque fui apaixonada por você apenas por 3 minutos, que foi o tempo que me levou para fechar a porta da minha casa, depois de nosso primeiro encontro, e ir escorregando até me ajoelhar no chão e dizer baixinho como numa prece.. Eu vou casar com esse homem.

Quando te encontrei pela segunda vez eu já amava você e já sabia que com você eu queria tudo. Queria ser sua mulher, sua amante, sua escrava, sua empregada, e também a mãe de seus filhos. Pra você, eu já dizia, pra você o mundo. Por você, eu pensava, por você todos os meus sonhos e desejos, por você eu vou me virar ao avesso, eu vou ficar de cabeça pra baixo, eu vou me redimir, eu vou desejar o mesmo homem todos as noites.

Em nenhum momento tive medo. Não sei se foram os seus olhos doces, a sua roupa elegante, as suas piadas inteligentes, ou se foi o seu pau, que depois de um extenso estudo de mais de 20 anos, foi eleito, por unânimidade, a coisa mais linda que um homem já carregou entre as pernas.

O fato é que me entreguei pra você por inteira, como nunca havia feito antes e como me pergunto se serei capaz de fazê-lo de novo. E a coisa mais maravilhosa que aconteceu diante de meus olhos foi ver você sorrindo de volta pra mim.

O que vivi com você foi diferente de tudo que conhecia, de tudo já vivido, de tudo imaginado ou sonhado. Nem sabia que isso existia e se hoje entendo que não amei nenhum dos meus 800 namoradinhos, é porque compreendi que amar, amar mesmo eu só amei você.

Ainda me pergunto que conjunção estrelar acontecia no dia que nos conhecemos. Sentados naquela mesa no museu, tomando guaraná e comendo coxinha de galinha, você já me olhava de modo penetrante. Eu fiquei encabulada e tive vergonha. Não sabia como interpretar o seu olhar.

Só muito depois é que fui entender que pra você as coisas também aconteceram rápido. Pra essa mulher, você pensava, pra essa mulher tudo. Pra essa mulher de sotaque charmoso, e que anda como uma potranca, pra essa mulher darei o melhor de mim. Pra essa menina encabulada, que se enrola com as palavras e se perde pelas ruas, para essa menina eu vou mostrar o mundo, vou ser seu guia, seu motorista, seu carpinteiro, seu encanador, seu pintor, seu cozinheiro, seu bombeiro, seu marido, seu amante, e o pai de todos os seus filhos. Só a morte poderá me separar desta mulher.

Lembro das coisas tão especias que você fazia por mim. Você adorava surpresas, cartões apaixonados, presentes e embrulhos com laço de fitas. Uma vez você me disse que tinha que ir a um bairro distante pra pegar uma coisa. Perguntei que coisa era essa e você disse que não podia falar, que era surpresa. Disse que eu podia até ir junto e que podíamos tomar café naquele lugarzinho gostoso onde já havíamos estado antes. Tá bom, eu vou com você pegar essa coisa. Depois do café você saiu andando olhando os prédios e as lojas, olhando os números. Até que disse pra mim assim: Você espera aqui que eu já venho. Esperei. Daqui a pouco vem você carregando um saco plástico. Me deu o saco e disse que era meu. Dentro do saco vi a minha saia branca rendada, que semanas antes eu havia posto no lixo depois de arrebentar a renda ao passar esbaforida pela quina da porta do quarto. E você, sem nada me dizer, resgatou a saia do lixo e foi atrás de uma rendeira que consertasse a saia que eu tanto gostava.

Hoje montei um livro de colagens com todos os cartões que trocamos. Cartões de aniversário, catões de natal, de dia dos namorados, de aniversário de casamento. Os cartões foram muitos mas couberam em apenas um livro porque o tempo, esse foi pouco. Os cartões contam em palavras bonitas, escritas com canetas coloridas, e em letras caprichadas, um pouco da nossa vida. Tá tudo ali, como o primeiro natal que passamos juntos, quando fui surpreendida por uma caixinha pequena e quadradrinha que se escondia por trás de todos os outros presentes. Aquele foi mais do que meu primeiro natal com você, aquele foi o primeiro natal da minha vida. E foi neste primeiro natal, e eu já tonta e feliz de tanta champagne, que você me entregou aquela caixinha, já passada a meia noite, e me disse com a sua voz sensual que jamais esquecerei, que aquele presente era muito especial e que vinha acompanhado por uma pergunta. Quando escutei suas palavras, quando vi a caixinha quadrada embrulhada com laço de fita vermelho, meu coração subiu à boca. E a pergunta veio Would you marry me? Abri a caixinha com cuidado, fui puxando o laço de fita devagarzinho, sentindo o deslizar do cetim até o laço se desfazer como uma leve bailarina ao finalizar uma pirueta. O laço se desmanchou em minhas mãos e ali, diante de meus olhos, estava a tampinha da caixa, pedindo para ser aberta. Dentro da caixinha, um lindo anel de brilhantes, quadrado. Eu nunca havia visto nada igual. Aconteceu com o anel o mesmo que me aconteceu com você..me apaixonei no primeiro segundo que nele pousei meus olhos.

E te abracei com paixão e disse sim, claro que sim, e disse também o quanto eu te amava.

Você e os laços de fitas… No verão do ano passado resolvi começar a ir pro trabalho de bicicleta. Durante o primeiro mês, usava a sua bicicleta. Ela me parecia ótima; era leve, bonita, perfeita pra mim, eu pensei. Isso porque ainda não conhecia àquela que seria de todas as bicicletas, a mais perfeita. Um dia eu cheguei do trabalho e você disse: Tenho uma surpresa pra você. Não era nem o meu aniversário e nem o de nosso casamento. Não era dia dos namorados tão pouco. Mas para surpresas carinhosas não havia dia certo. Qualquer dia era digno de uma surpresa. Mas que surpresa era essa agora? Você falou para eu entrar em casa e esperar até você me chamar. Disse também que eu não podia espiar pela janela. Foram 10 minutos de agonia e de uma vontade louca de dar aquela olhadinha marota por entre as cortinas. Mas respeitei seu pedido, embora todos os meus sentidos estivessem ligados no que acontecia do lado de fora. Talvez um barulho que me dê uma pista, ou um comentário seu em voz alta, ou talvez um cheiro, sim porque podia ser alguma coisa de comer. Nada.. Passados os 10 minutos você me chamou. Quando cheguei na frente da nossa casa vi aquela que seria a rainha de todas as bicicletas já antes pedaladas, ali olhando pra mim, e com um laço de fita cor de rosa amarrado no volante e uma caixa de CD pendurada que dizia Músicas de bicicleta pra você.

E você então me explicou que eu precisava de uma bicicleta de menina e com esta simples frase me fez entender, de uma vez por todas, que você sempre estaria atento e pronto pra me dar tudo aquilo que eu precisasse, até mesmo antes que eu me desse conta de minhas necessidades.

Usei a bicicleta o verão inteiro. Ia pra baixo e pra cima. Meu namoro com minha bicicleta ficou ainda mais intenso quando no mês seguinte você me deu um Ipod pra que pudesse escutar as músicas do CD quando pedalava.

Já doente e cansado, era assim que você me acompanhava todos os dias em minhas pedaladas pro trabalho. Todas as musicas do CD falavam de bicicleta, ou de ir e vir do trabalho, ou então mencionavam os nomes de algumas ruas ou locais por onde eu passava no meu trajeto. E tão cuidadoso era você que as músicas que mencionavam as ruas por onde eu passava foram meticulosamente calculadas para tocarem quando eu passava por elas.

Só a morte poderá me separar desta mulher, você pensava. E a morte veio, meu amor. E veio rápida demais, como todas as coisas em nossa vida.

Mas outro dia percebi umas flores roxas nascendo no jardim da nossa casa. Não tínhamos flores roxas antes e elas não se parecem com àquelas que brotam do nada. Alguém plantou estas flores e acho que foi você. Plantar flores no outono para me supreender na primavera combina mesmo com você. E ver as flores roxas nascendo salientes e sem vergonha me deixou ainda mais roxa de saudades de você.


2006-03-24T00:42:25.116-03:00
Profissão Muso
Outro dia você ficou reclamando e disse que pra mim você era apenas inspiração literária. Apenas? Quem dera eu ser um dia a inspirção de um escritor, a força que move a mão sobre o teclado, ou a razão de ser de uma folha de papel. Quem dera eu ter a capacidade de trazer vida ao que morto já estava, de fazer o coração disparar, as idéias fluirem, o imaginário transbordar. E não pense você que ser inspiração é para qualquer um. De modo algum. Isso é trabalho pra profissional e há uma série de pré-requisitos a serem preenchidos, dos quais você satsifaz todos, meu amor.

Primeiro, precisa ser bem maluquinho, quem sabe até psicopata, pra ter a ousadia de um dia trazer flores para no dia seguinte, com a cara mais lavada do mundo, propor: Vamos parar?

Parar? Como assim parar? Como se para de fumar, de comer carne, ou de beber coca-cola?

Depois, tem que ser capaz de pegar pelos cabelos, olhar no mais fundo dos outros olhos e falar que ama, pra em seguida tomar um banho demorado e dizer que precisa ir embora pra nunca mais voltar. E esse nunca mais não pode passar de 12 horas.

Outro talento que se precisa ter é a total falta de compromisso com a realidade, com o tempo, e com as horas e uma habilidade espantosa para não falar coisa com coisa, quando o assunto é amor. Deve-se também ser capaz de um discurso telefônico, realizado sempre tarde da noite, que parece não ter começo, meio ou fim e que além da dor de cabeça e da orelha quente, deixa o outro incapacitado de recapitular o que foi dito.

É preciso ter grande coragem e saber chorar também. É preciso ser capaz de gerar emoção nas coisas mais simples da vida, e de acreditar que não há drama maior que aquele vivido ali. É preciso ser vítima e vilão, dor e facão, lágrima e gargalhada. E tem que ser capaz das maiores baixarias e mentiras. De pedir sem pudor e com um certo ar de suplício.. Pega no meu pau …E de contar a mentira de Adão.. a de que só vai botar a cabecinha. Mas mais importante ainda, tem que ser capaz de se fazer acreditar. Isso é fundamental. Porque falar qualquer um fala né?, mas ter o poder de fazer com o outro o que se bem quer, de virar o outro ao avesso, de quebrar uma costela ou de torcer o pescoço, ha isso é condição sinequanon para o papel de inspiração!!!

Mas a verdade, meu amor, é que desde que você se foi, eu tenho estado muito doente. Literalmente e literáriamente também, porque tudo que tenho escrito fala apenas de uma coisa, você. Fiquei monotemática, ou seria monogâmica?

Primeiro foi uma gripe que veio acompanhada de febre alta, tosse, mal estar e dor no corpo. Depois essa gripe se transformou numa dor no pescoço que desce para o ombro, bem naquela área do meu corpo que você costumava ter como um orgão sexual secreto feito só pra você.

O curioso mesmo é que você gostou de mim pelas mesmas razões pelas quais eu gosto de mim mesma. E eu gostei de você pelas razões mais erradas pelas quais se pode gostar de um homem.

Frida Kalo sofreu um acidente de bonde, minha amiga Megan teve sarcoma, e eu, bem eu tive você. O fato é que ficamos as três estateladas na cama com dor insuportável. As outras duas já estão mortas e eu confesso que já não me sinto muito bem.

 2006-04-10T23:46:48.506-03:00
Hecho a mano
Nunca antes eu havia vivido uma estória de amor que tivesse nome. Nome é coisa de cinema, com títulos escritos em fontes modernas, ou ecléticas, que escorregam pela tela prateada como gotas de chuva que antecipam a primavera.

E tudo aquilo que já estava adormecido num canto preguiçoso do meu cérebro, ou quem sabe escondido por entre um orgão e outro, ou talvez perdido na bagunça do meu coração, tudo aquilo que eu passei anos cultivando, sendo, e remoendo, e vivendo e lembrando, era então ido.

E no vazio de um luto que já se extendia, que já não carregava mais lágrimas, que já havia doído de todas as formas, que já havia examinado a dor por todos os ângulos mais que obtusos, foi aí, bem aí, que você chegou como uma furacão.

Esqueci o luto, o álbum de fotografias ficou inacabado, as músicas nunca mais foram ouvidas, as cartas se deixaram amarelar, os recadinhos se perderam, as etiquetas pela casa desbotaram, os avisos foram esquecidos, as roupas se amassaram ao vestirem um guarda-roupa já vazio e os quadros que ainda tentavam, inúltimente, iluminar as paredes da minha casa se apagaram. Foi-se tudo e eu só quis saber de você. Você de manhã, com gosto de noite mal dormida, você pela tarde no sofá, você noite adentro, já a essa altura com olheiras, canseiras, bocejos, e todos os nossos cheiros enterrados por debaixo de suas unhas.

A cada novo encontro, meu corpo se lambuza de prazer, minha alma se enche de emoção e minha cabeça lança vôo da mais longínqua imaginação. Você, com sua cara tão de homem e seus olhos de menino, com a sua boca grande, que por tantas vezes já tentou me engolir, me devorar, e me fazer desaparecer.

E sem combinar ou dizer palavra, demos um nome ao que é só nosso, e tão nosso, e que só a nós pertence. Porque as palavras que você me diz no meio da noite, só eu escuto, e o carinho mais atrevido que te faço, fazem de seu prazer o único dono. E aquele singelo pedacinho de inocência que ainda resta em você, e que fui eu que descobri e que de um nome é desprovido, aquele pedacinho ali meu amor, é meu pra sempre.

2006-03-22T23:46:16.550-03:00
Comendo pelas bordas
Fui sincero quando te disse que às vezes queria te comer devagarinho e com amorzinho. Mas a verdade é que não consigo, quando me dou conta estou com uma mão puxando o seu cabelo e com a outra segurando a borda da cama, só para te fuder mais fundo. Só não entro com bola e tudo porque tenho humildade.

E só paro quando você, com os olhos molhados, pede Pelo Amor de Deus. Aí eu paro, olho pra baixo e enxergo você toda descabelada, meio entre soluços, meio entre palavras que nunca se completam. Aí tenho vontade de passar a mão no seu rosto, de lhe dar um beijo longo e demorado como aqueles que víamos nas novelas. Aí olho fundo nos teus olhos e vejo, mais uma vez, esse brilho seu. É desse brilho que tanto falo, meu amor. Esse brilho é seu e ninguém poderá roubá-lo, nem mesmo um macho latino, meio grosso, meio romântico, que por tantas vezes já perdeu a cabeça. Por mais pressão que eu coloque, por mais força que use, por mais que eu jogue o meu corpo em cima do seu, que nem fala àquela música da Paula.

Mas confesso que tenho a ilusão de que vou te ganhar à força, que você um dia irá se render aos encantos meus, que um dia não poderá mais imaginar a vida sem mim. Por isso me esfrego em você com força, que é pra sua pele absorver meu cheiro e suor e para que os cabelos de meu corpo se embolem com os seus.

A gente já falou de tanto filme, de tanto livro e já trocamos até listas de música, mas para nós o momento da vida como ela é nunca chegou. Nós nunca conseguimos sair da cama, e olha que eu tentei! Até disse que não ia mais te comer e por dois dias consegui resistir ao seu olhar safado me chamando pra briga. Mas em dois dias não consegui muita coisa não, continuei me achando um capricho seu, continuei lembrando de você me olhando daquele jeito que ainda não defini (seria cinismo?) quando estufei o peito e me enchi de coragem pra te dizer que eu sabia que você não me amava. Eu falei pra você que as raspas e restos não me interessam. Na verdade eu pensava era no brilho, de novo.

Também te perguntei porque você não queria ter filhos mas você nunca me respondeu. Mas eu já sei porque. Você que já perdeu tanta gente, tem pavor de perder um filho. E você, que pra quase tudo é tão materialista e científica, no fundo acredita existir alguma profecia (ou quem sabe seria um trabalho que alguém fez?), que irá fazer com que você perca todos que ama.

Talvez seja isso que lhe faz ter tanto medo de me amar. Você me liga, me manda email, pede para que eu vá correndo vê-la porque diz ter algo importante pra me dizer. E quando chego na sua frente você fica muda, não me diz o que tem que dizer, não me diz que me ama, que quer construir uma vida comigo, que me quer todo pra você. Não, você não diz nada.

E me olha com aquele olhar safado de novo e corre pra aquele que parece ser seu esconderijo preferido. Se revela por debaixo das cobertas e me chama, mais uma vez, pra briga. E eu vou, e eu vou correndo bem atrás de você.

 2006-03-17T21:47:46.486-03:00
Dr. Kim me prometeu um mundo sem dor
Você diz que eu tenho um jeito de andar que nem égua de milha freiada, que é irresistível. Que eu estufo o peito e me insinuo para o mundo. Dr. Kim, meu quiroprático, diz que o que eu tenho é escoliose e bem diferente de você, me prometeu um mundo sem dor. E disse que eu preciso me cuidar. Que estou muito nova pra isso. E eu que achei que era burra velha, me estrepei.

Dr. Kim, que é Coreano e dessas coisas eles entendem, pegou no meu pescoço, torceu para um lado, torceu para outro, estalou aqui e ali. E nem pegou no meu cabelo nem nada.

Saí do consultório dele me sentindo mais forte, que é bem diferente de como me sentia quando me desvincilhava de seus braços e ficava te olhando ir embora, ainda com a porta aberta. É que eu gostava de ver você ficando pequenininho, pequinininho, até desaparecer. Só para me surpreeder no dia seguinte com uma nova aparição sua. Como uma pinta que do nada surge e que pra sempre ficará.

Deu no rádio agora, o Celso Blues Boys faz 50 anos hoje e eu ainda continuo sentindo as mesmas dores daqueles tempos de Circo Voador. E eu continuo, na essência, a mesma.

Mas na minha secretária eletrônica ontem a noite havia um recado do Dr. Kim que dizia ver “uma coisa ruim” no meu Raio X. Pediu para eu ir no consultório dele o mais rápido possível. Chegando no consultório me mostrou o raio X. Reconheci na hora aquela boca, aquele sorriso, aquele olhinho nem muito grande e nem muito pequeno com a sombrancelha mais linda que já vi e que faz um arco como se estivesse sempre a sugerir os olhos.. Essa coisa ruim que o Sr. está vendo no meu Raio X, e que parece ter passado desparecebido pela terapia, é esse homem que grudou em mim doutor, e mais especificamente no meu pescoço. Perdi a liberdade de meus movimentos, perdi a candura, a leveza, e dói...como dói..Começa no pescoço, passa pelo ombro, escorrega pelo coração e morre na palma da minha mão. Tem cura pra isso, Dr. Kim?

Dr. Kim me jurou que eu vou ficar bem. Disse que deve levar umas semanas, mas que se eu seguir as suas recomendações ao pé da letra, e me deitar na cama do jeito que ele me mostrar e usar um travesseiro especial e fizer exercícios de respiração, ah sim, ele não duvida que eu ficarei boazinha. Disse que não vou nem me lembrar da dor. Será?

 2006-04-10T23:55:34.906-03:00
Dei pra ti
Eu já tava olhando pra ele há algum tempo. Tava secando mesmo, filmando. Quando chegou mais perto eu perguntei de supetão. Você não tem coração não? Ele olhou nos meus olhos, se demorou um pouco a responder e finalmente disse.. Só vazio.

Depois destas palavras as luzes se apagaram, todo o barulho ao redor desapareceu, entrei na minha concha e só pensava em todos os corações vazios pelos quais me apaixonei, e mais do que tudo, me lembrei daquela coisa dura, fria, amorfa e esquecida num canto e que você insistia em chamar de coração. Não, aquilo não era um coração.

Naquela época eu quase morri, lembra? Depois jurei que não queria mais, que aquilo era vício e que eu tinha que dar um basta. Disse que ia parar de vez. E parei mesmo; por cinco anos..neca de pitibiriba.

Os meus amigos e todos aqueles que me amam me perguntavam a toda hora, E aí, nunca mais? Nunca mais, dizia eu convicta e orgulhosa.

Muitos até se admiravam com a minha coragem, outros me davam força e diziam já ter passado pelo mesmo. Diziam que no ínicio era difícil mas que depois tirava-se de letra. Diziam até que um dia eu ia olhar pra trás e achar graça disso tudo. Outros achavam que eu ia desisitir, que não resistiria por muito tempo, que mais cedo ou mais tarde eu acabaria cedendo e tudo voltaria a ser como antes.

Eu continuava incrédula, imutável, imexível..por cinco anos. Emagreci bastante mas confesso que naquela época eu me sentia melhor. Tinha mais energia, doente eu ficava raramente, me sentia leve e acho até que era feliz; imagine só uma coisa dessas…eu feliz!

Mas aí o tempo foi passando, eu comecei a re-pensar várias coisas, a re-avaliar as decisões que havia tomado em momentos de dor e desalento. E aí foi me dando uma saudade, uma vontade louca, uma coisa aqui dentro de mim que nem sei explicar. Só pensava naquilo, só queria aquilo. Tentei resistir, tentei não ceder, lutei com todas as minhas forças. Não queria que todo um trabalho de cinco anos fosse por água abaixo por causa de um momento de fraqueza.

Me lembrava constantemente da minha infância, dos almoços de domingo no Alvaro’s e no Degrau, no Leblon. Me lembrava das idas ao Porcão depois da praia e ainda de biquini, e daquela moleza que vinha depois, daquela vontade de deitar numa cama, botar o pé pra cima e ficar só assisstindo as bobagens do Faustão.

De repente escutei uma voz interromper o meu devaneio e me perguntar ..moça, moça, não tem coração mas tem picanha, posso trazer?

Pode, eu pensei, claro que pode. Que venha toda picanha, maminha, fraldinha, e alcatra que há nesse mundo. Que venha toda a carne vermelha, castigada ou não, cheia de sangue e mal passada, porque de bem passada já basta eu! Que venha tudo de bom que essa vida me reserva; afinal eu tô em Porto Alegre, bá!



2006-04-10T23:49:22.256-03:00
O amigo emprestado
Era sábado a noite e eu nunca havia ido à Lapa. Já faziam 10 anos que a Lapa havia sido ressuscitada e as minhas lembranças da região ainda se limitavam aos tempos em que trabalhava no Hospital do Câncer. Consultei todas as minhas agendas, palm-top, lista de contatos e Outlook só pra descobrir que não tinha se quer uma companhia que fosse para sair comigo na noite carioca. Todo mundo tava ou com filho pequeno, ou com pouca energia ou simplesmente com muito calor. Me senti como a última pipoca do saco.

Foi aí que tive a idéia de arrumar um amigo emprestado com alguém. Liguei pra Shirley. Escuta, tô querendo ir a Lapa, sei que você tem uns amigos que andam por lá, será que cê me emprestava algum pra sair comigo?

Assim obtive o número da Mônica, que me colocou em contato com o Val, que me deu o número do Gustavo que nunca ouviu falar de Shirley alguma.

Eu e Gustavo nos falamos rapidamente no celular. Ele disse: estou aí perto e posso te pegar. Estou num Tipo cinza.

Eu então respondi: pois eu estou num tipo moreno de cabelos castanhos na altura do ombro.

E foi assim que chegou Gustavo. Bonitinho, magrinho, com uma barbicha meio moderninha, meio preguicinha. Gustavo me levou à Lapa, andou comigo por toda a Mem de Sá e vizinhanças, entrou nos bares e acho até que ensaiamos uma dançadinha. Mas bom mesmo foi quando sentamos na beira da calçada naquele sábado que já era quase domingo; eu com uma cerveja, ele com um sono danado. Começamos a conversar e descobrimos que tínhamos mais em comum do que aquele simples Orkut nada virtual. Estávamos os dois sofrendo de amor. Era o fim do carnaval.

E eu até aquele momento achava que homem não sofria mais disso, que isso era disprivilégio das mulheres, que homem simplesmente botava outra no lugar, enquanto eu aqui me descabelo, escrevo crônicas, e até crio um blog só pra poder falar dele, dele, dele, dele…porque todos os meus amigos, parentes e vizinhos já não aguentam mais ouvir falar desse homem.

Outro dia eu tava na Livraria da Travessa com meu irmão e sua tico-tico no fubá, que agora é uma modalidade de relacionamento institucionalizada e legalizada no Rio de Janeiro (vamos legalizar!!), e então encontramos uma amiga de meu irmão que está escrevendo um tratado sobre como se tornar uma pessoa séria. Pois bem, então a menina me falava de seu livro muito interessante e meu irmão se distraiu com outra coisa e me deixou ali só com aquela autora peculiar. Na primeira oportunidade que tive eu disse que também escrevia. Ela me disse que escrevia em surtos, eu disse: eu também só que meu surto foi a dois. Como assim? ela perguntou. Pronto, não deu dois minutos e tava eu lá falando desse homem para essa desconhecida, disse que ela nem sabia da missa a metade, que aquele homem era isso e aquilo e blá, blá, blá. Aí meu irmão ao ouvir a conversa de longe veio correndo e me puxou pelo braço envergonhado e disse: Poxa, a gente não pode te deixar nem um minuto sozinha que você já começa a falar desse homem e logo pra uma escritora que está as voltas com um tratado sobre a seriedade! Onde isso vai parar Meu Deus?

Fiquei muda, mas só por um minuto. Aí tentei explicar que foi ela quem perguntou, que por mim eu nem falava nada, porque já nem queria mais falar sobre aquele homem, porque ele é isso e aquilo, e blá, blá, blá..

E dito isso calcei meus patins de 4 rodas, fiz de minhas orelhas dois auto-falantes e fui atrás do monobloco. Porque atrás do monobloco só não vai quem já morreu…

 2006-03-09T16:20:27.343-03:00
A Sabedoria de Seinfield
Por mais que insistam na idéia, Seinfield, o programa de televisão, está longe de ser sobre o nada. Muito pelo contrário, o programa é sobre tudo que há de importante na vida de míseros mortais. Já aprendi muito com o Seinfield e sua gang, mas acho que nada me foi mais útil do que o episódio em que Jerry e Elain decidem adicionar sexo à amizade deles. No ínicio os dois possuem brilhantes argumentos de porque tal detalhe não irá interferir na grande amizade que têm. Somos pessoas maduras, eles dizem. Depois, para não deixarem margem a dúvidas, estabelecem as regras do jogo. Pode isso mas não pode aquilo. Então os dois correm para o quarto de Jerry, embora ninguém até hoje seja capaz de afirmar que tal coisa realmente exista atrás daquela porta.

A combinação não dura nem meio episódio, o que talvez signifique umas poucas trepadas. E ainda bem que é assim.

Tesão sem paixão está condenado ao mesmo fim que a paixão sem entrega. Não há nada mais dilacerador, no universo das relações amorosas, do que a paixão que vem só, a paixão que não traz consigo a possibilidade de um futuro a dois, a paixão que se torna um fim em si mesma. E a paixão sem entrega pode acontecer por diferentes motivos; porque um dos dois não está disponível, ou os dois não estão, ou pela distância imposta pela vida moderna, pelas opções que fazemos ou simplesmente por medo. E de todas as opções, o medo me parece a mais dolorosa. Porque embora simples, é incompreensível, pelo menos em cabeça de apaixonado, que pensa menos que a cabeça de um alfinete.

A batalha interna, e muitas vezes também externa, que acompanha um evento destes é exaustiva, consome toda a energia que possuímos; ficamos insistindo em montar um quebra-cabeça que teve a sua principal peça perdida já no início, muitas vezes quando se abriu a caixa pela primeira vez. Foi assim comigo. Desde o primeiro momento sabia que não poderia me entregar à você, sabia que não conseguíria, sabia que lutaria com todas as minhas forças para que esta possibilidade não existisse.

Tenho pensado muito sobre isso desde que decidimos terminar o que tínhamos, seja lá qual for o nome daquela coisa. Já pensei de tudo. Primeiro pensei : Se não há um futuro para nós dois, e se daqui a 1 mês você vai embora mesmo, então porque não ficarmos transando assim quando der vontade?

Você, com a cara de pau que lhe é tão única, e também tão bela, até chegou a me propor isso. Me suplicou que eu te usasse como objeto. Logo você, que teve vontade de me dar uma surra quando eu te falei que havia dado um beijo em boca alheia.

Depois cheguei a conclusão de que o melhor era que ficássemos amigos. E você até concordou comigo, mas por motivos bem diferentes dos meus, eu desconfio.

Ficar só amiguinho, pra mim, significa liberar o espaço psicológico que antes estava dedicado à coisa que tínhamos, significa à volta à estaca zero, significa estar só, somente só.

Adicionar sexo à receita significa querer te moldar, e te dobrar, te torcer, te desculpar, e te relevar, para que você caiba como uma luva nos meus sonhos. E significa também me questionar, me relevar, me testar, me dobrar, me estremecer, para que eu caiba naquilo que imagino ser o seu sonho de mulher. Assim como um sapato que na vitrine parece lindo mas que no pé incomoda e pede meia-dúzia de band-aids. Ou então que venham as bolhas.

E ninguém quer bolhas ou band-aids, eu acho. Pelo menos eu não quero. O que quero é aquele sapato confortável e lindo, que me cai tão naturalmente que nele não preciso gastar nem uma gota de pensamento. Por ele não há discussão, não há brigas intermináveis, a cama não vira ringue de box, os telefonemas não entram pela noite adentro, não há espantos e nem ansiedade, não há confusão nem dilemas.

Ele simplesmente é. Foi feito sob-medida, estava o tempo todo na vitrine a sua espera. E só podia ser você, mais ninguém.

Quando não temos um sapato assim, aí melhor mesmo que andemos descalços. Ficaremos com os pés sujos, e os riscos de se pisar num vidro ou num côco de cachorro são enormes, mas apenas um pé descalço está pronto para experimentar um novo sapato.

E que venha o sapato, e que venham muitos sapatos. E que venham todos os sapatos do mundo. Eu quero experimentar todos!

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