Sempre gosto te ouvir falar, mesmo quando o que você fala não tem sentindo algum. E você é capaz de discursar por horas a fio, e o que te move, e agora já sei, é o medo. Mas o que gosto mesmo é de prestar atenção nas palavras que você escolhe. Algumas de suas escolhas me parecem óbvias, e por mais peculiares que soem a este ouvido carioca, percebo que no fundo você nunca deixou de falar comigo em espanhol. O que você faz é falar em espanhol usando as palavras do português.
Já percebi que quando falamos uma segunda língua, a lingua materna, por teimosia ou soberania, fica sempre por detrás, e é quem dita o ritmo de nossa melodia, dita assim em palavras. Veja um italiano falando inglês e perceba que o italiano nunca se foi, está ali nos bastidores, nos movimentos das mãos, na cadência das palavras.
Durante muito tempo eu tentei escrever em inglês, e ficava frustrada ao pereceber que as palavras não me vinham com naturalidade. Escutando você, que ultimamente tem sido o início de tudo em mim, percebi as pontas deste fenômeno.
Quando aprendemos uma língua já na idade adulta, e por melhor que venhamos a dominar o novo idioma, as palavras aprendidas são orfãos de pai e mãe que nunca tiveram infância. Era isso que eu tentava explicar quando repetia para mim mesma que não importava quão bem eu viesse a dominar o inglês, o fato é que não sabia determinar o peso das palavras. Na verdade, o que queria dizer é que as novas palavras me vieram quando eu já sabia arrumar meu cabelo, qual maquiagem usar e que perfume cairia melhor com o cheiro natural de minha pele. Levamos pelo menos uns 20 anos para aprender estas coisas. Se eu soubesse, há vinte anos atrás, o que hoje sei, teria sido uma adolescente mais bonita e não levaria 2 horas para me arrumar. É que a tarefa de se arrumar para uma festinha no sábado a noite não passava de um exaustivo experimento onde eu testava todos os batons da minha mãe e usava a escova de cabelo das mais variadas formas até conseguir o efeito desejado ou então até meu tempo se esgotar.
Diferente de fogão, capacete e ônibus, que ao cinco anos eu pronunciava gufão, caçapete e ontibus, com as palavras de um novo idioma, nunca houve experimentos. Elas me foram apresentadas já adultas e maduras. São palavras sem passado para as quais não existem referências.
O mesmo se dá com os nomes. Quem não se lembra de Eduardo que jogava futebol de botão com seu avô enquanto Mônica assistia aos filmes de Godard? Ou de Luiza, a quem o poeta pedia, melancólicamente, que lhe desse a sua mão? Ou de Rita, que impunemente, nos roubava o sorriso? E como poderíamos nos esquecer de Maria de Fátima? Nunca dantes fez a maldade tão boa parceria com um nome; enquanto a bebida se fez definida através da pobre Heleninha. E também não posso deixar o Mário de fora, jamais.
Mas o que dizer de Larry, Terry, Fred, ou Garry?
Somente os números nos permanecem fiéis. Estes se recusam a crescer. São os Peter Pan da linguagem. Eu conto dinheiro como contava figurinha e a imagem de meu avô fazendo conta em iídishe, que ele gostava de escrever em papel de embrulhar pon, está mais viva em mim do que nunca.
E as coisas também contam uma estória. Por isso fiquei chocada quando você me disse áquela noite na locadora de vídeo que meus óculos estavam mais para Belas Artes do que para Estação. Essa frase bateu fundo em mim, e refletindo sobre o assunto, me saí com áquela pérola.. O que acontece com uma carioca quando ela vai morar nos Estados Undios? Ela vira paulista.
E ainda hoje você voltou a falar dos meus óculos. De que eles eram a minha única esperança de ver o mundo como ele é. O que você quis dizer é que se com meus óculos eu estou mais para cinemateca paulista, sem eles corro o risco de me esquecer que sou brasileira.
Foi por isso que enchi meu mundo de bandeiras do Brasil. Para nunca me esquecer quem sou e para sempre lembrar que da onde venho existem Mauricinhos, Patricinhas e Ricardões que língua nenhuma poderá ser capaz de traduzir.
O que sou é aquilo que há muito já se perdeu na tradução.
segunda-feira, março 13, 2006
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