terça-feira, maio 16, 2006

De 16/05/2006 a 15/4/2006

2006-05-16T01:31:13.723-03:00
No meio do caminho tinha um cachorro tinha um cachorro no meio do caminho
Moro com mais sete mamíferos. São três adultos, uma adolescente, um menino de 5 anos e três cachorros. Onde quer que você vá, há sempre um cachorro no meio do caminho. É um arranjo provisório, já que abrigo uma família amiga de sem-terra que está prestes a voltar pro Brasil. E quando voltarem no final de junho ficaremos apenas eu e mais dois cachorros.

Quando um late, todos latem, quando um come, todos olham, quando um resmunga e ganha carinho, os outros ficam com ciúmes. E assim os dias passam.

No sábado, meu querido amigo CJB, o mesmo que sempre me visita por aqui, veio aqui em casa cozinhar uma carne assada maravilhosa. E outros amigos também apareceram para uma bocadinha na carne do CJB. Aí éramos, com certeza, muito mais que seis. Nem sei mais quantos éramos.

E a receita levava uma lata de tomates, préviamente descascados e cortados. Não usamos a lata inteira. E a lata, com aquela sobra de tomates, foi deixada na bancada da cozinha. E hoje olhei pra aquela lata novamente e pensei sobre essa atitude, a de deixar uma lata semi-cheia e semi-vazia, de qualquer coisa, ali sobrando na bancada da cozinha. E pensei no porque de fazermos isso e então cheguei ao âmago da questão sobre raspas e restos.

A verdade é que ninguém sabe ao certo o que fazer com uma lata semi-cheia de qualquer coisa. Colocamos de volta na geladeira, jogamos fora no lixo ao final do primeiro ato ou damos de comida pro cachorro? E por não saber, optamos pela indiferença. A lata fica ali, noite e dia, até que alguém, já passados alguns dias a pegue, olhe a conclua..essa lata vai pro lixo.

Essa lata já estava condenada desde o momento que o cozinheiro, o talentoso CJB, usou o que devia de seu conteúdo e todos que ali estavam já sabiam que seu destino, após grande aparição na receita de CJB, era o lixo. Mas ninguém teve coragem de sugerir destino tão cruel para uma probre lata. E ninguém, naquele momento, estava também preparado pra encarar tal fato. Assim, nos enganamos todos. Fingimos que saberíamos o que fazer com a lata, em algum momento. Mas na verdade, tudo não passou de um ato de procrastinação. Quando os dias tivessem virado noite, e á lata já não lhe guardasse outro distino que não o sacão grande e branco que carrega o lixo, uma mão caridosa iria jogá-la ao seu único destino, como num último ato de piedade. Assim, deixamos que a impossibilidade de que outro destino pudesse se apossar da lata tomasse uma decisão por nós. O tempo, foi o tempo que decidiu o que da lata seria feito. E ela foi pro lixo.

Da próxima vez que uma lata assim cruzar o meu caminho vou ser corajosa e vou jogá-la direto no lixo. Não vou temer nada, não vou re-pensar seus valores enquanto lata, não vou lembrar da fome ou da miséria alheia. Vou ser verdadeira como a carne assada de CJB. Que não mentiu pra ninguém. Ela foi o que desde o ínicio anunciou que seria. Uma iguaria na terra da merda enlatada, um óasis no planeta da apatia, um deleite do qual somente os bons poderiam se lambuzar. E viva CJB e sua carne assada.

 2006-05-15T00:53:23.976-03:00
Carta sem vírgula 
Uma vez recebi uma carta de amor que tinha três páginas e nenhuma vírgula. O coração de quem a escreveu ofegava tão rapidamente que seu autor não pôde sequer parar para respirar. Em nenhum momento deu descanso aos pensamentos e desejos. Parecia que tinha pego uma reta e nela ido a vida toda. E quando chegou ao fim, a curva ele fez.

E a carta dizia mais ou menos assim

Minha querida queria te falar de tudo que sinto e sonho e de como você me faz o homem mais feliz do mundo e de tão feliz eu até me esqueço do ponto.

E continuava assim por três páginas que se dobravam em papel de seda com linhas de um azul claríssimo, e que adormeciam dentro de um macio envelope, também de seda, que enterrado está até hoje na minha gaveta. Minha gaveta é mais segura que o cemitério do Catumbi.

Ele era sem dúvida um homem sem vírgula e foi por isso que não deu certo. Detesto homem desvirgulado, acho mesmo um horror!

Já o homem sem ponto tem sua beleza. Deixa o ponto implícito e usa de outros artifícios pra anunciar que cheguei ao fim. Mesmo sem o ponto, eu sempre o encontro, mesmo sem o travessão, eu escuto cada palavra que diz, mesmo com sotaque do anti-herói preferido das piadas do meu país, eu o admiro. Gosto do homem sem ponto.

Quem dera eu poder escrever um dia como o homem sem ponto.

 2006-05-14T01:21:45.336-03:00
Tratado sobre o paradigma da plástica 
Esse assunto plástica é muito interessante e aqui vão as minhas impressões dialéticas sobre assunto deveras metafísico. Há 15 anos atrás, se me perguntassem eu diria ser contra. Veementemente. Hoje as coisas são bem difentes. Não sei se foi o peso desses 15 anos que me fizeram mudar de idéia, ou se foi a mudança no paradigma da cirurgia cosmética.

Porque veja bem, tudo, ou quase tudo, nessa vida, é regido pela velha relação custo/benefício. E a relação custo/benefício da cirurgia cosmética muito se alterou nesses 15 anos.

Há 15 anos atrás, fazer plástica, muitas vezes, tinha seus riscos, tanto para a saúde como para a estética, e também o custo financeiro era bastante alto. Assim, passar pelo perrengue de fazer uma plástica, correr todos os riscos associados à tal aventura, e pagar muitos reais só para ficar mais bonitinha me parecia um absurdo. Talvez eu, há quinze anos atrás, fosse bonitinha o suficiente e talvez não sonhasse também com a possibilidade de algum dia ter todos aqueles reais disponíveis. Por tanto, a relação custo/benefício era alta demais. Plástica, definitivamente, estava fora de questão. Era desnecessário, arriscado e caro. Tô fora, eu diria! E abominava todas as mulheres do mundo que já fizeram, pensavam em fazer, ou que viessem a fazer plástica.

Mas hoje, faz-se uma cirurgia plástica em 30 minutos, e a carnificina de baixo grau acontece ali mesmo, no consultório do matador. E os reais necessários nem são tantos assim. E não esqueçamos todas as novas linhas do meu rosto que, literalmente, colocaram as asinhas pra fora nesses 15 anos. Por isso, hoje, a relação custo/benefício caiu muito e fazer só isso pra ficar mais bonitinha..Opa!! Tô dentro. Plática hoje é necessário, seguro e barato. Então me chama que eu vou, e vou de taxi, que é pra chegar mais rápido e fresca como uma rosa.

Aí tem a intriga da oposição que diz que a plástica te deixa bonita por fora e podre por dentro.. Mas o mesmo argumento poderia ser usado para todas as milhões de coisas que fazemos todos os dias para ficarmos mais maravilhosas por fora, como..usar maquiagem, fazer hair removal com laser, malhar, fazer a sombrancelha, fazer as unhas (sim, sim..gosto das minhas mãos Paulão do Catumbi..e por falar em Catumbi, como é a experiência de viver tão perto do cemitério?).

Por que é que, para algumas, usar maquiagem é OK e fazer cirurgia plástica não é? Por causa da relação custo/benefício que falei. Para algumas, usar maquiagem é tarefa simples e rotineira, e com resultados positivos comprovados. Claro que falo de maquiagem suave, usada com toda a sabedoria adquirida em anos e anos de pesquisa e consultas na literatura especializada de mulherzinha, como as revistas Cláudia, Nova e Marrie Clair (fundamentais na cabeceira de toda mulherzinha que se presta a tal..ser apenas mulherzinha, nem que seja por apenas uma noite..).

Aí vem o argumento de que a maquiagem não é nem permanente e nem invasiva. Realmente não é. Qual é a mulher que não sabe o que é acordar no domingo ao meio-dia, e além da ressaca e da dor de cabeça, ter que encarar um espelho que te esfrega na cara um olho negro todo borrado?

Mas há outras coisas que são permanentes, ou semi-permanente e invasivas, e mesmo assim encaramos de frente, quer dizer..algumas vezes de costas. Falo da remoção de cabelo a laser. Nunca se inventou idéia mais dolorosa, cara e estapafúrdia para se livrar daqueles fios indesejáveis. E nem por isso escutamos as bocas de Matilde falarem..Hum, você viu menina..Fulana faz remoção de pentelho a laser…

Quer dizer então que tirar pentelho com tecnologia de ponta pode, mas tirar ruguinha do rosto não pode?

E dando continuidade ao discurso que já se estende a essa hora da noite e que só pode vir de uma mulherzinha que essa noite mulherzinha não será (porque se não não tava aqui perdendo tempo com tamanha bobagem sem pé nem cabeça) examinemos o aspecto mais complexo da questão. E o aspecto que realmente incomoda é o da possibilidade da propaganda enganosa. Porque uma mulher plastificada engana aos olhos, é uma mulher que vive a contradição em pessoa, é o brilho apagado dos olhos que não correspondem à pele que lhes circunda, é a boca lisa que não soa voz conducente, é uma mulher que revela apenas parte da estória. E ter acessso à apenas parte da estória incomoda como escutar a conversa de um desconhecido no celular. É a conversa que a nós só é oferecida a metade. Por isso incomoda. Afinal, todo mundo quer a fatia inteira da pizza, as duas metades das bolas de platão.

Mas para propaganda enganosa, tem solução..chame o Procon! E assunto encerrado. E me engane, mas me angane muito, com talento e charme, que eu até que gosto.

 2006-05-11T01:25:29.906-03:00
O Peguete da Vez 
Hoje te deixei chegar um pouquinho mais perto de mim. Melhor seria dizer que fui eu quem chegou mais perto de você. E cheguei tão perto, e tão gostoso, que você não aguentou. Se derreteu todinho ali na minha frente, sem demora e sem vergonha.

E te falei que de mim você não sabia nada. Tive vontade, por alguns minutos, de te dizer tudo que sou. Mas você não parecia muito interessado nas minhas palavras, você buscava sim a minha boca, mas à procura de prazeres nada fonéticos.

Achei que eu ia achar bom não ter que fazer aquele discurso inicial, não ter que te soletrar todo o meu curriculo, te explicar o meu sobrenome, te contar do passado, de outros homens, outras bocas, outras praias.

Mesmo você não querendo ouvir, eu falei. Rapidinho assim, entre uma coisa e outra, eu te falei. Disse que não era ciumenta, não era encrenquera, não era rabujenta, não era brigona. Disse até que se fosse homem eu seria gay, porque as mulheres, em sua maioria, são chatas demais. Odeio mulher chata, que pra tudo faz um bico, mulher afetada e cheia de princípio. Não sei se você me entendeu. Não sei se você está entendendo coisa alguma.

Mas quem não tá entendendo sou eu. Nem sei como você veio parar na minha cama hoje. Sei sim, você veio com a desculpa de que tava ineteressadíssimo em saber se o Flamengo ia ou não sair vitorioso e no último minuto, quando suas mãos já eram todas um abraço, o cara me chuta a bola na canela da defesa e bum!! O Flamengo toma um gol!!!

Mas aí o Flamengo saiu de cabeça baixa e no meio de campo, redondinha, só dava eu.
Mas consegui te dizer a coisa mais importante sobre mim. Eu gosto de escrever. Agora só preciso aprender.

 2007-12-13T21:58:37.053-02:00
Madrugada boladona 
E olha que nem madrugada é ainda e eu já digo que tô boladona.. Tô é triste. Meu grande amigo Fábio vai voltar para o Brasil amanhã. Fico feliz por ele, porque desde que ele chegou aqui, só sonhava em voltar. Não que não tenha curtido e aproveitado a experiência de viver aqui por dois anos..mas só sonhava com os domingos no Brique e as ondas lá do sul. E a saudade do Fábio, esse sentimento forte que ele tem em relação ao lugar que chama de casa, e também a certeza de que devíamos todos retornar um dia, quase como naquele pensamento..Nós temos um país pra construir, galera!!!, acabou por mudar a direção do meu caminho.

Uma noite estávamos os dois aqui em casa, bebemos duas ou três garrafas de vinho e lá pras tantas eu começei a sentir a mesma emoção que ele sentia ao se referir ao Brasil. Não podia sentir nada em relação ao Brique, porque até então de lá eu só sabia de Cleiton e Cledir e de deu pra ti. Mas aquele sentimento foi me tomando de uma tal forma que de repente eu disse, também vou voltar. Liguei pro meu irmão, o mesmo que várias vezes me disse que já não me aguentava mais falando ‘daquele homem’, e disse pra ele: Minha experiência americana acabou.

E acabou mesmo, embora eu ainda esteja aqui.

Virei Brasileira profissional de carteirinha, aquela que anda com bandeirinha no carro, com camiseta escrito Brasil e que só vê Globo Internacional (que bosta essa novela Belíssima!!!). Minhas poucas amigas americanas reclamam que eu não ligo e eu só quero saber da minha patota, que ontem o Dr. Shapiro me revelou, ser a minha família. Really? E eu tenho que pagar 70 doletas pra ouvir isso? Mas o buraco é mais embaixo.

É que cansei de ser outra. Cansei de interromper frases no meio pra escolher a palavra certa, cansei de ter que prestar atenção dobrada pra poder entender tudo, cansei do tom da minha voz em inglês, cansei de comprar roupa bem comportada na Ann Taylor, a loja da Happy Secretary. Cansei da apatia que é quase dor.

Mas também sei que ser Brasileira expatriada nos Estados Unidos não é o mesmo que ser Brasileira. E não é o mesmo que ser Americana. É um terceiro continente à minha escolha. Minhas lembranças do Brasil vão até 1996. Me mostre uma Revista Caras publicada após esse período e eu já não reconhecerei muitas caras, ou bundas. E vivo de lembranças de um tempo bom, e esqueço a cada dia àquelas de um tempo ruim. A saudade tansformou tudo num mundo mágico e imaginário que eu sei que existe apenas em mim e no momento que eu voltar pro Brasil esse mudo mágico deixará de existir. Viver a saudade é a forma mais prazerosa de ter o Brasil, porque é um Brasil de amigos, de samba, de praia, de caipirinha, de música e de tudo que é bom. É um Brasil que não existe e eu não quero nunca perder esse meu Brasil. É um oásis, um lugar para onde vou quando preciso me re-encontrar, quando preciso juntar de novo meus pedaços.

E a verdade, é que hoje estou em pedaços. Por outros motivos também. Novidade seria se disesse que hoje, na despedida do Fábio, tive notícias ‘daquele homem’. E ele e sua família vão muito bem, obrigada.

E eu… eu vou indo. Comendo Botafogo com disco voador (desafio aos leitores: no que consiste o prato Botafogo com disco voador?), completando já uma volta na Lagoa onde Lagoa não há, e curtindo meus amigos Brasileiros que como eu se alimentam de slogans e música brega dos anos 80.

E o tempo vai passando, e eu vou conhecendo novas linhas no meu rosto, novas pintinhas vão nascendo, meu cabelo cresce, minhas mãos se transformam, minha voz vai ficando um pouco mais rouca, e eu só penso em fazer plástica.

 2006-05-06T01:51:42.030-03:00
Me gusta cuando me callas… 
Já que o assunto Neruda parece ser controverso, conto aqui que outro dia falava com meu amigo preferido sobre o Neruda e ele então me falou que não entendia porque a ‘mulherada’ se desmilingua toda com o Neruda.. Ele, muito intrigado e até com um certo rancor, dizia achar um absurdo total uma mulher admirar algo como

Me gustas cuando callas porque estás como ausente

E então veio com um discurso de macho evoluído e deveras pós-moderno, quiça até um pouco inglês, de que adorava quando a mulher por quem ele possui sentimentos nobres, abria a boca (disse que o homem é metade inglês e metade carioca?..whatever that is..). Lindo isso, eu disse. Você só tá esquecendo de adicionar o fato de que a tal mulher está há milhas e milhas distante, do seu amor… E que então falar que adora quando ela fala, quando a falante está lá abaixo do Equador.. aí é fácil…Quero ver assim, todo dia, toda hora, ao vivo e à cores.. Aí o inglês se rendeu e deu umas boas risadas.. Mas na verdade não é nada disso.

Digo porque gosto de

Me gustas cuando callas porque estás como ausente

Gosto porque gosto de ser calada. Espera! Não pense que gosto de homem-bruto ou que gosot de apanhar, que nem pra isso eu pareço qualificar. Acredita que aquele cachorro teve a cara de pau de me dizer um dia no meio de uma crise de ciúmes que só não me batia porque eu não tava pronta pra apanhar? Eu dei foi risada e achei o máximo porque me senti re-encarnando uma personagem qualquer do Nelson Rodrigues.

Eu falo demais, tenho opinião demais sobre tudo e todos e isso, ha isso é um saco! É um saco ter que pensar o tempo todo, ter que avaliar, fazer conta, botar na balança, se expressar pelo blá blá, blá.. Essa coisa de ter a cabeça como principal ferramenta de trabalho é uma escravidão. Se fico quieta vem logo o comentário..Hum, tá calada hoje, você. E quando encontro um homem que consegue me calar, porque com ele não quero falar coisa alguma, aí é um descanço. É um favor que ele me faz, é um deleite. Porque aí eu posso fechar os olhos e descançar, posso lançar vôo, posso olhar pra dentro, posso sentir. O fazer calar é um ato de amor e de liberação, é a pura redenção.

Por isso, me gusta cuando me callas…

 2006-05-05T01:44:48.560-03:00
Pekin é logo aquim 
Tinha que ser em NY, tinha que ser. Tô aqui no China Town, no ônibus que me levará de volta pra casa. À minha frente um china lê algo que parece com o Jornal dos Sports, meio rosado, com umas fotos de esportes..mas tudo em Chinês. Se o Jornal dos Sports daqui (quer dizer daí) é assim, imagina na Jamaica..digo na China!

E não sei porque diabos, mas não paro de pensar no seus olhos. E meu peito dói tanto, que antes do ônibus sair eu olhei pra um lado, olhei pro outro e quando me convenci que ninguêm olhava pra mim também, eu tirei o sutiã, que nem fez a menina do filme Fame, lembra? E o ato de arrancar de mim o sutiã como se fosse um estilingue amarrado no meu peito também me fez lembrar você. Mas aguardei por suas mãos quentes e cirúrgicas que nunca vieram.

Aí botei um casaquinho por cima, porque todo mundo sabe bem o resultado da combinação falta de sutiá + ar condicionado, só não sei se alguém já fez o experimento adicionando um monte de chinês em volta pra ver o que acontece.

Fui na loja da Nike de 4 andares e de tudo, o que mais gostei foi do poster do Roanldinho, o homem feio mais lindo do Brasil! Ali, enorme, no meio da loja. E até tênis com a bandeira do Brasil eles têm e na vitrine da loja, do lado de fora tá escrito bem grande..Joga Bonito!!!

E uma saudades de você simplemente horrível que não passa! Eu pensei que quanto mais o tempo passasse mas fácil ficaria mas não é assim não..Só fica mais fácil depois que já ficou todo o díficil que podia ficar.. E quando eu já tô toda serelepe, e já nem respondo mais seus emails ou telefonemas, me vejo assim no meio da tarde de quinta-feira, em pleno ônibus da famosa New Century ($35 round-trip NY-DC..you can’t beat that price!!) querendo tanto você que fico com raiva de mim mesma. Também eu fui brincar com fogo, botei no Ipod o Chico cantando Olê, olê, olá em Italiano que você deu pra mim. Isso é um erro mortal e eu já sabia.

Não se deve NUNCA deixar que um homem vire uma música do Chico ou um poema do Neruda, porque aí a prisão é eterna. A menos que se deixe de ouvir Chico ou de se ler Neruda por muitos e muitos anos e me pergunto se viver sem Chico, sem Neruda, sem você, sem sexo, sem cigarro, e sem chocolate vale apena por pelo menos um segundo. E te digo logo..não vale não.

Mai vai passar, um dia eu vou me esquecer de pensar em você, um dia eu vou me esquecer de lembrar de seus olhos, um dia eu vou me esquecer do barulhinho bobo da sua voz, um dia eu vou me esquecer que preciso te esquecer. E só nesse dia eu terei me esquecido de você.

Hoje uma amiga me perguntou..De tudo eu só não entendo uma coisa..Porque é que ele não ficou com você? Eu poderia ter desfilado todas aquelas razões pseudo-psico-pós-modernas, que falam de medo, de poder da mulher no novo século, de entrega.., todas aquelas bobagens..Mas a verdade é que você não está comigo porque você não me ama. Simples. É que resolvi que essa coisa de levar tudo pra discussão no âmbito da psicanálise..ha isso é coisa de mulher feia e mal comida. E já chega não ser amada, agora ser feia e mal comida..ha isso eu não admito!! E tenho dito! B

2006-04-27T23:12:18.763-03:00
Da série Sim você me fez voltar a escrever, mas a que preço, hein??? 
Pra compensar o post mais que chato e mais que mau humorada que botei hoje, adiciono aqui uma coisa que escrevi há algum tempo atrás, quando aquele homem me deu o primeiro pé na bunda de uma série de aproximadamente uns 10, tudo num período de 6 meses.
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A filha do Antropólogo

Numa tarde de domingo, na esquina da padaria de Ipanema, eu sou a filha do antropólogo. O nome da minha melhor amiga termina com ana, seria Luciana, Joana ou Adriana. Dez anos mais tarde, seu nome poderia ser Carol, que se transformaria em Sofia 20 anos depois.

Eu notaria você, olhando tudo à sua volta de modo curioso. Me chegaria e te convidaria para comer sushi na minha casa. Você se surpreenderia com o convite atrevido, mas eu explicaria que namorado meu podia dormir lá em casa e que a coisa mais importante que minha mãe já me disse foi que sexo é como escovar os dentes. E que quando eu tinha 16 anos eu ganhei O Segundo Sexo. E que no banheiro lá de casa só se lia Henry Miller.

Eu ia gostar de saber que você é do Paraguai e te perguntaria se sua família fugia da ditadura. Te contaria com orgulho que a polícia um dia bateu na nossa casa e que eu, com 2 anos, fui passada para a casa do vizinho pela janela e que fugimos para Israel quando a situação piorou. Contaria também que por anos a fio minha mãe lembrava-se de todos os livros levados pela nossa ditadura e te contaria rindo do famoso caso dos livros de cubismo apreendidos como propaganda de Cuba, ou do caso do milico que deu ordem de prisão para o autor de Édipo Rei.

Eu fingiria saber onde fica o Paraguai e depois confessaria que na minha escola, que nasceu de uma vigília, meu professor de história só falava das frentes, de Farabundo Marti à MR8, enquanto meu professor de Geografia me enviava postais com imagens do Degas e tentava por todas as vias, algumas possíveis, outras questionáveis, me levar pra cama. E que depois o meu orientador de iniciação científica me comeu numa sala escura da UERJ e que depois tive que fugir do meu orientador de tese. Naquela época eu ainda tinha respeito por todos os homens que se apaixonavam por mim.

Você me perguntaria sobre a foto na parede, onde enfileirados embaixo de uma faixa que diz Jornalistas Contra a Ditadura, minha mãe procura pelo isqueiro, ao lado de Gabeira, Ziraldo e Nelson Lemos. Eu te diria que quando minha mãe fazia frente na passeata dos 100 mil, eu tinha apenas 1 ano. Te diria que ela era amiga do Paulo Francis e que ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo. Que cresci ouvindo as travessuras da Leila Deniz e que num dia quente de verão fomos juntas à praia e Leila e eu fizemos um castelo de areia, e que a água veio e desmanchou tudo. Aos domingos minha mãe nos levava pra ver desenho animado Canadense no Museu de Arte Moderna, ou ao tetaro. Lembro de Pedro e o Lobo e também de Tribobó. A gente voltava pra casa de mãos dadas cantando a música que nunca esqueci..Tribóbo tem ouro, Tribóbo tem bó, bó, bó…

Você olharia os livros na estante e eu não poderia deixar de citar que meu pai traduziu James Joyce, fazia filme com o Glauber e tinha um teatro em Copacabana chamado Tonelero onde foi lançada a Óbra do Malandro, do Chico.

De cinema eu saberia tudo, desde o dia que meu irmão me levou para ver Truffaut. Isso foi antes das maratonas no Estação, quando eu ficava ansiosa na sala escura à espera do filme surpresa da noite. Te falaria que um dos maiores diretores de cinema do Brasil era meu tio e que a cinematografia continua na família. E que também na escola, eu fui ver Coraçãos e Mentes, para depois fazer um trabalho, e pra entender de uma vez por todas porque os Yankees são tão ruins para nós.

Você se deixaria enloquecer pela suavidade da minha pele, me diria que eu era lisinha e eu te explicaria que foi o sol de Ipanema que me fez assim tão macia para você. Te falaria do sol se pondo no Posto 9 e da gente batendo palmas para o maior espetáculo da terra. Te contaria do biquini de três cores, depois substitúido pelo minuscúlo tricot. Que naquela época nem tinha laser nem nada, que pra ficar lisinha a gente tinha que sofrer muito na mão da depiladora.

Você me perguntaria sobre o amor e eu confessaria sim, sim, Roberto Bataglin, Frejat e até um certo jogador de futebol. Te contaria do verão da lata, dos shows na Catacumba, das saideiras no Baixo Gávea, e das inesquecíevis festas do PT no Lagoinha, que naquela época nem era palavrão falar um nome desses assim.

E de romantismo não poderia falar muito não. Oswaldo Montenegro me dava agonia e achava Lô Borges, Beto Guedes e todos os mineiros, uns chatos-piegas. Achava absurdo e de mau gosto rimar pique com pique-nique. Só cedi quando me apaixonei por um ser de outro planeta que gostava dessa turma; esse outro planeta se chamava Méier. A primeira vez que vi o trem da central eu já tinha mais de 20 anos, e só aconteceu porque eu me apaixonei. A gente faz mesmo loucuras quando se apaixona, não é?

Eu até confessaria pra você que já fui apaixonada por uma mulher. É que minha mãe me botou no Tablado para eu aprender a me expressar.. Tinha aquela coisa de fingir que se é uma semente que vai crescendo, crescendo até virar uma árvore. Pois minha árvore já gastou muito dinheiro com análise, sabia?..

E eu ficaria interessada em você, te pediria pra falar Guarani, e te pediria pra cantar Yolanda, Silvio Rodrigues, Pablo Milanes ou qualquer coisa cheia de palavras que terminem em on. Realmente ficaria chocada com a sua falta de sotaque, e acharia o maior anti-climax que um hermano poderia oferecer. E por falar em hermanos, eu ia querer te contar do Argentino que meu deu uma fita da Nacha Guevara, mas você começaria a gritar, taparia a minha boca e me calaria, que nem eu tapei a sua na hora do gozo, te fazendo engolir o próprio gemido.

E quando você começasse a falar de Mena Barreto, Humaitá e toda a parafernália da Guerra do Paraguai, eu te acharia mais interessante ainda e te faria perguntas com essa voz minha que tem som de maresia. Você me pediria pra chiar, chia carioca, chia merrmo, chia pra mim. Muitas vezes ainda chiaria pra você, índio Guarani com cheiro de chimarrão que me pegaria pelos cabelos e me enterraria como se estivesse baixando âncora em mim.

Numa tarde de domingo, você diz que eu sou um ícone e que você já me amava antes de me conhecer. E que continuará me amando pra sempre.
E você me diz que eu tenho medo das vicissitudes do amor. Não tenho não. Eu tenho medo é do amor repartido e pela metade. Medo das meias palavras, das meias entregas, das meias verdades.

Numa tarde de domingo você chegou assim tão de repente. E de repente também se foi, levando consigo o chimarrão, os gemidos, os sonhos, e principalmente as lágrimas, que afinal elas são só suas.
2006-04-27T23:21:20.523-03:00
Sobre GPS, CNPq, filme ruim e um amor de verdade 
Depois de muito pensar e de avaliar a minha presente situação resolvi mudar de ocupação. Não quero mais ser para-raio de maluco. Chega! É uma ocupação muito ingrata. É desgastante, me mantém ocupada 24 horas por dia e nem quando durmo tenho sossego. Ás vezes acordo no meio da noite pensando no assunto. Um infero. Resolvi que vou mudar, quero ser outra coisa. Quero ser para-raio de homem doce, carinhoso, responsável, maduro, que sabe o que quer e mais importante, que seja louco pr mim. Veja bem, disse louco e não maluco.

Hoje estou muito cansada. Meu GPS me ferrou e levei 5 horas dirigindo de NY à Washington. Aquele desgraçado me tomou por mesquinha e me sugeriu um caminho que não pegasse os tantos pedágios que havia cruzado na ida, que por sinal me levou apenas 3 horas e meia. Resultado, economizei alguns trocados mas perdi 1 hora e meia do meu tão necessário dia. E se esse fosse o último dia da minha vida? E se esta 1 hora e meia fossem as definitivas? Desgraçado, nunca mais ouvirei aquela vozinha de mulherzinha me dizendo..in a half of a mile, turn left! Já turned left a muito tempo atrás e veja no que deu..só decepção. Agora eu me viro pra onde, me diz?

E hoje também tô com raiva do CNPq, aquele maldito. Coloca um edital com apenas 1 mês de antescedência e todos que se virem. Já falei que não tenho mais para onde me virar e ainda mais essa.

Mas olha que apesar da raiva e da canseira, tô preferindo falar de GPS e CNPq do que daquele homem. Talvez se o nome dele também pudesse ser abreviado, talvez eu estivesse também falando cobras e largatos dele. Pôxa, perdi o primeiro capítulo da novela nova e não há nada como primeiro capítulo de novela da Globo.

Por falar nisso ontem fui ver um filme Brasuca muito ruim que cheguei a ficar constrangida no cinema. Me deu um super mal estar assisstir àquele festival explícito de chavão e fiquei e me perguntar como é que esse pessoal consegue dinheiro pra fazer uma coisa tão ruim assim. O filme é Jogo Subterrâneo, de Roberto Gervitz. Uma boa pocaria. Eu não acreditei na cena em que a mulher (esqueci o nome da atriz, mas é aquela que fez uma hermafrodita numa novela da Globo) vai pro quarto de hotel do pseudo-herói Filipe Carmargo (que tá feio e gordo que dói), usando uma camisolinha preta, meio alucinada e na hora H, quando o cara já tá em cima dela, ela diz Não, não posso. Você precisa saber a verdade!!!

Pelo amor de Deus!!! Só faltou ela botar a mão na testa, assim com a palma da mão virada, num gesto típico e manjado e que niguém aguenta mais. Uma bobagem, uma perda de tempo e me deu vontade de pedir as minhas nove doletas de volta!

Poxa, hoje eu tô batendo o recorde do mal humor. Melhor me colocar pra dormir. Bebel já tá na cama me olhando, já se aninhou no meu travesseiro. Lindinha, vou ai te dar uma beijoca já já. Que você não pode ser abreviada, não solta editais de última hora (mas solta outras coisas que as vezes pôe todo mundo pra correr), não é maluquinha e com certeza, é totalmente louca por mim. Tô indo, meu amor.

2006-04-24T23:45:23.443-03:00
Adelaide, a anã Paraguaia 
Para não me tornar Adelaide, a anã Paraguaia, resolvi abrir a porta para deixar passar nessa avenida um homem mais popular…Que aquele já ta mais queimado que bagana de maluco!

E não é que o Gaton do Chimarron me ligou duas vezes, na quarta e na quinta? Eu não atendi o telefone mas depois pensei.. Tá merecendo um torpedo que lhe faça lembrar a mulher que sou. E escrevi assim

Se você não está me ligando pra me dizer que eu sou a mulher da sua vida..então não ligue mais.

E o silêncio se fez. Ele não ligou mais e eu não sou, nunca fui e nunca serei a mulher de sua vida. E pensei que mais do que ele, eu mesma precisava MUITO escrever esse torpedo. Me senti muito forte, e sabe porque? É assim…Claro está que não estamos juntos porque ele não quer. Mas claro também está que ele gosta muito de mim, mas tem medo, tá enrolado, é inseguro, é ciumento, não sabe se entregar..ou então tudo pode ser explicado por motivos menores, mas não menos importantes.. Quem sabe eu mesma tenha mau hálito, ou um sorriso amarelo, ou ronque quando durmo. Dessas coisas não sei, mas aí voltamos àquele experimento científico que é a minha vida e os números me dizem, e estamos falando de números grandes, assim na casa dos cinquenta, que essas coisas eu não tenho não. Pelo menos ninguém até hoje reclamou e guardo comigo uma vasta coleção de cartas de amor, dos mais variados tipos.

Hoje mesmo recebi um email de um ex-namorado, que depois de 13 anos sem me ver, quando me visitou aqui num fim de semana, ainda queria me pegar. Sim, me pegar depois de 13 anos!!! Ha, algum mojo eu tenho..eu sei. Então não é mau hálito, nem sorriso amarelo e nem ronco. Só restam os motivos mundanos, aqueles que nós mulheres conhecemos bem.

Mas eu falava de porque o torpedo me fez tão bem. Porque foi sincero e digno como o pulo de Thereza no livro, e também filme, A Insustentável Leveza do Ser. Somente seres superiores tem a coragem de falar a verdade, e mesmo que dura, são capazes de sair com a cabeça erguida. Sim Gaton do Chimarron, sou louca por você, mesmo que ninguém entenda o porque (eu entendo muito bem!). Mesmo que meus amigos me olhem e me perguntem..Você não tem espelho em casa? Esse cara é um enrolado e um idiota de não ficar com você, um imbecil de deixar uma mulher como você passar. Mas isso também não importa.

O que importa é que eu não estou com ele porque ele não quer, mas eu sei que de verdade ele queria estar comigo. Mas é prisioneiros de suas burradas, de suas confusões, de suas armadilhas, de seu ciúme e eu..eu sou livre como um passarinho! Num dia estou aqui, no outro estou acolá. Meus passos são meus.

Eu já iniciei o processo de retirada do meu time de campo, por um motivo muito simples. Ele não me quer. Penso nesse motivo noite e dia e assim me convenço de que tenho que me ir dessa estória e tenho que encontrar paixão em outro lugar. E estou encontrando paixão em mim mesma. Mas e ele? Que motivos irá ressonar em seu próprio ouvido quando buscar uma razão pra me esquecer? Que tal.. Preciso esquecer essa mulher porque ela sabe demais quem eu sou, porque ela não precisa de mim pra nada e eu preciso de uma mulher que precise de mim, porque ela é atraente e interessante demais e isso me deixa vulnerável e inseguro, porque morro de medo que ela me troque por outro, porque simplesmente não sei o que fazer com essa mulher, porque isso é território novo pra mim (e perigoso demais), porque…

Certamente prefiro as minhas razões para ter que esquecê-lo. São razões externas à mim e que não requerem mais 10 anos de divã. Ha, e sim, tem mais uma razão que já ia esquecendo. Não posso me esquecer de que também eu, acho ele um idiota completo. Porque me ter assim tão apaixonada por ele, me ter assim querendo tanto a ele e somente ele e mais ninguém, e deixar passar essa possibilidade.. só pode ser obra de um idiota. Ou de um anão paraguaio. Minto, ele é tudo, menos anão e talvez aí more a razão de minha paixão, ou de uma palavra pra lá de mundana também terminada em ão.

 2006-04-24T23:46:56.853-03:00
Herói de Hanói 
Dizem que só escrevo sobre mim. Não é verdade. Gosto mesmo é de escrever sobre você. Seja você o amor da minha vida, a paixão que alucina ou o peguete da vez.

Às vezes você é bem fácil de engolir e desperdiçar o meu tempo com palavras sobre você eu não faço não. Melhor viver.

Outras, roubo de você cada pérola que sai da sua boca, ou ainda te ignoro por completo e mais raramente, te coloco num pedestal e te protejo do meu rancor pós-moderno.

Mas com você..hã… com você aconteceu fenômeno diferente. Me apaixonei pela versão de você que eu mesma criei. Você assim de carne e osso, de manhã depois do café ou de tarde depois do almoço, esse eu não quero não.

Quero você que escorrega pelos meus acentos, que por vezes desliza pelas palavras ou agarra-se na ponta dos Ts, Ps, ou Ls na esperança de evitar a queda que já se sabe anunciada.

Me apaixonei por esse você que me olha como se estivesse no Arpoador a deslumbrar o mar. Quero esse você que não tem mau hálito, que palavra não diz, que me abandonar não se atreve, e que me deixar nunca quis.

Você é o herói mais querido da minha estória em quadrinhos. Por você, todos os balões do mundo, todas as expressões, todas as alusões, todos os trocadilhos.

 2006-04-20T23:50:20.940-03:00
Um trem para Nova Iorque 
Se eu não soubesse do timing da sua saudade, diria que você teria advinhado que hoje eu estaria pegando um trem para Nova Iorque e que portanto, pensar em você também no dia de hoje seria inevitável. Seria inevitável não lembrar da viagem que fizemos no Outono, no mesmo dia da Maratona, com os hotéis lotados, Manhatan com as flores brilhando e o céu azul e eu e você rindo sem parar como duas crianças felizes num parque de diversões.

Seria inevitável não pensar no Ipod Swapping que fizemos no trem, você ouvia uma música da lista que eu havia feito pra você e eu ouvia da lista que você havia feito pra mim. E como não lembrar de nós dois bêbados, lá no Karaoke Japanês, onde você já tinha os olhos molhados ao olhar pra mim e dizer..eu não tenho nada pra te oferecer. Devia ter te escutado, devia ter te dado também os ouvidos. Achei que você só queria mesmo era sentir o velho prazer de um bom dramalhão mexicano, digo...paraguaio.

Hoje quando eu dirigia de volta da ginástica, e depois de correr 35 minutos na esteira, todos eles com o coração palpitando, a respiração ofegante, e o pensamento lá em você, eu sabia que quando chegasse no trem eu escreveria alguma coisa cujo título seria Um Trem para Nova Iorque. Naquela hora da manhã eu ainda não sabia se ia falar alhos e bugalhos de você, se ia chorar, ou se ia agradecer por você ter feito parte da minha vida. Aí, quando cheguei em casa encontrei aquele email seu, que já me esperava fazia algumas horas. E que dizia mais ou menos assim:

Mrs L-T,

Como estas? Espero que bien..y llena de flores.

Soh agora que consegui me organizar , e queria cumprir a promessa de acabar com a trauducao.
Serah que ainda estou a tempo?
Me avisa....Posso envia-la no comeco da semana que vem....
mil besos y abrazos

E colocou um attachment com a imagem de um par de sandalhas Havaianas.
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Mas o que você queria dizer e teria dito se fosse mais corajoso é


Mrs L-T

Espero que continues pensando em mim todas as noites e todos os dias e que ainda me queira muito porque eu, mesmo sem saber se te quero ou se não te quero (e agora me lembrei de Neruda quando diz Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero) preciso muito que você continue me querendo porque faz com que eu me sinta mais homem e mais amado. Deixar de ser querido pra você vai me cair muito mal e até pre-sinto uma certa dor no peito. Mas não, não se iluda não porque até mesmo essa dor eu não sei se sinto ou se não sinto.

Mas também escrevo porque só agora me organizei e me dei conta de que sinto saudades de você e tô com vontade de te comer mais uma vez. Será que ainda dá tempo?

Assinado El Gaton do Chimarron

Mando essas Havaianas no attachment que é pra te lembrar das imagens poéticas que sempre circundaram o nosso relacionamento e para que desta forma sinta-se fragilizada e me responda com carinho, saudade e cheia de tesão por mim. E para que por fim, eu te coma, que afinal é pra isso que estamos aqui.

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Pois fique sabendo você, que hoje, pela primeira vez em seis meses, meu coração não disparou ao ver seu nome na tela digital. E que até agora nem respondi ao seu email e que meu celular está desligado e que hoje vi que você também me ligou, e que diabos que já deletei seu número para não ver seu nome também na tela do meu celular mas ainda não deletei a famigerada combinação de 10 números da minha memória. Mais que uma plástica ou uma sessão de botox..preciso mesmo é de uma lavagam cerebral. Quanto custa?

Mas é isso garoto, cansei de ser animadora freelancer da sua festa infantil. Te deletei, te apaguei, te cancelei de todas as vias de acesso a mim. Tá tudo engarrafado, com ônibus pegando fogo, tiroteio, bala perdida, blitz da polícia, greve de ônibus e de metro, apagão, arrastão.. Não tem jeito, não tem mesmo como chegar perto de mim. Até espaço na Van já não tem mais!

Não quero, não quero, não quero. Vou te responder assim…
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Mister Gaton do Chimarron

Por aqui vai tudo bem, obrigada (um começo bem formal pra ele já perceber a frieza). O sol brilha, os passarinhos cantam e as noites estão estreladas (uma coisa banal mas que dá um setido de continuidade na minha vida e que deixa claro que nada parou por aqui porque ele se foi, e de que eu estou andando pra frente e que os dias agora – e portanto sem ele- são bonitos e alegres) e Neruda ecoa no meu ouvido (a menção de Neruda tem aqui o efeito de um soco no estômago. Nossa relação era cheia de imagens poéticas, assim qualquer menção à poesia vai causar um efeito amolecedor no coração que o deixará fragilizado e aí eu venho com o tepão na cara dele). E ele me lembra que… Me gusta quando callas porque ès como ausente (como quem diz, vê se desparece, vê se some o criatura).

Mas nada disso importa (como se eu nem soubesse do estrago que acabei de fazer algumas linhas acima). Não se preocupe com a tradução, não há mais necessidade (como quem diz, sei que cê tá louco pra se sentir útil mas não preciso de você pra nada, nem pra fazer uma reles tradução) Muita gentilez sua, mas não há necessidade (reforçando a frieza, disfarçada de educação.)

Fique bem (quero que você se exploda).

Mrs L-T

PS- Acho que por enquanto você pode pendurar as chuteiras, digo, as Havaianas (pode tirar o cavalinho da chuva porque você não vai me comer nem que a vaca dance rock, pelo menos esses dias)..quem sabe na próxima estação(…mas diabos!!!! continuo te querendo..)

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Pronto!!! Agora estamos entendidos. Você diz que tá com saudade e que quer me ver. Eu digo vai catar coquinho, mas não muito longe daqui.

E eu continuo aqui, nesse trem pra Nova Iorque a pensar no quanto eu já nem penso mais em você. 

2006-04-15T23:16:27.263-03:00
Depois da tempestade …a bonança 
Hoje fez um sol redentor!!! Um sol daqueles de arrepiar os cabelos..Me deitei de biquini na rede no meu backyard e fiquei lendo meu livrinho (to lendo The Shopenhauer Cure), me banhando ao sol, enquanto Moby e Bebel (meus adoráveis cachorrinhos) observavam com interesse os primeiros sinais da Primavera, que chega cheia de vida e de promessas. E nesse espírito de um novo renascer, organizei um pic-nick no parque amanhã e qual não foi a minha surpresa ao ver que 20 pessoas, todos brasileiros e todos muito legais (sim, porque não basta ser brasileiro, tem que ser legal..) já confirmaram presença.

E entramos numas de levar cartas, gamão, comidinha, bebidinha, bola de futebol e coisas mais..Já passei da fase de me relacionar com brasileiros simplesmente porque eram brasileiros, depois entrei na fase de que tinha que me relacionar com americanos porque essa coisa de ficar só entre brasileiros diminuí e quase que anula a experiência americana e agora, mais recentemente, decidi que quero me relacionar com quem gosto e com quem tenho a ver e então descobri que as relações que mais me satisfazem, e parece não ter jeito mesmo, são aquelas com brasileiros legais. Minto quando digo que nosso grupo, entitulado A Patota, só tem brasileiros..Temos também um colombiano e um venezuelano que nos caem como uma luva. Isso sem mencionar aquele homem de um certo país que de tudo poderia dizer, menos que La garantia soy Yo!!! Ha, mas isso é coisa do passado, já sabemos.

Ter encontrado, finalmente e depois de 11 anos de EUA, A Patota, é quase como um sonho. Sinto como se minha vida tivesse re-encontrado a mesma efervescência dos anos anteriores vividos em Ipanema, quando o meu telefone não parava de tocar e quando todos os sábados eram dias de surpresas e encontros, e também de desencontros.

Hoje tenho um senso crítico mais apurado em relação ao modo como os americanos se relacionam uns com os outros. É incrível como a vida se divide e se compartiliza, como se fosse possível arrumar amigos e relações em diferentes tupperware. Os grupos não se misturam, os amigos não se compartilham, as trocas não se fazem. Eu adoro misturar os meus amigos, adoro ser a PR do meu grupo de amizades, adoro ter todos à minha volta, a casa cheia, o rádio ligado na Globo FM à tocar àquelas músicas que só escuto nessa rádio, e são as mesmas músicas que já escutava quando tinha 15 anos de idade. Onde mais se escuta Looking back, over my shoulder.. Do Michael and The Mechaniscs? Posso fechar os olhos e sentir que a minha vida continua, que sou eu sem tirar nem por, que estou viva mais do que nunca.

Depois da dor, vem a plenitude. E pode ser qualquer dor, pode ser dor física ou dor de amor. O alívio que vem quando a dor se vai nos dá a mesma sensação de plenitude. Pense numa dor de dente e no bem estar que sentimos depois que se toma um Tylenol.. Pois com a dor do amor é a mesma coisa, só que o remédio é outro. O remédio é a ânsia de viver, é a fome que sentimos por dias melhores, é o prazer de estar viva, o privilégio de estar saudável e de poder jogar os braços pra cima e dizer, Eu estou Viva!

Eu estou viva, e mais viva do que nunca.

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