sábado, janeiro 31, 2009

De 31/12/2009 a 22/3/2009

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2009-12-31T14:35:55.621-02:00
Negócio fechado
Fechamos a venda da casa! A casa simplesmente foi vendida em 5 dias, para o primeiro que teve a oportunidade de vê-la e pelo preço que pedimos. Eu disse pra ele: "Nunca saberemos se tivemos sorte ou se vendemos a casa barato demais." "Não importa, ele disse. O importante é que a casa foi vendida e assim poderemos recomeçar a nossa vida."
Ontem fiquei olhando para cada detalhe da casa, cada móvel, cada lâmpada, cada combinação de cores que ela sonhou, planejou e conquistou.
Falei pra ele que me impressionava o fato dele não parecer tocado com a venda da casa. "Você não fica emocionado?", eu perguntei." "Atualmente eu só me emociono com questões que remetem a você."
A casa foi vendida! Sinto como se um caminhão de chumbo tivesse sido retirado das minhas costas. Agora sim, um novo começo que pertence a nós dois, com a participação dos dois.
Me perguntam como andam as meninas. Depois de passados os primeiros dias, onde ficamos todas tensas em sem saber direito o que sentir em relação umas as outras, a casa volta a ser a nossa casa, mas agora já com uma dinâmica um pouco diferente e melhor.
As meninas passaram as duas de ano direto. Nenhuma prova final, nenhuma recuperação. Fiquei muito orgulhosa das duas.
Shika passou uma semana com as amigas quando aqui chegou. Perguntei pra ela se ela sentia que as amigas, que já haviam sido suas melhores amigas, ainda compartilhavam todas as coisas com ela. Perguntei se havia entre as amigas daqui alguma que compartilhasse com ela o mesmo interesse pelo YouTube, por músicas, a paixão e fluência em inglês, que são algumas das características mais marcantes dela. Shika é uma menina extremamente plugada, assim como...como...eu. Fiquei surpresa quando ela me respondeu que isso ela compartilhava apenas com aquele que considera ser seu melhor amigo, o colega da escola no Brasil. Outra coisa também interessante mas que não me surpreendou foi vê-la perceber como as meninas daqui, de sua idade, tem dificuldades para falar de sexo, do prórpio corpo, ou mesmo de se exporem. Isso eu já sabia que iria acontecer. Quando chegaram no Brasil Shika tinha vergonha até de mim, se trancava a sete chaves pra se trocar, usava sutiã com absolutamente tudo e morria de pudor. Hoje, 1 ano e meio depois o pudor que re-encontrou nas amigas israelenses ela já não mais foi capaz de reconhecer.
No início achei que seria muito difícil tirarmos ela daqui e que precisaríamos nos preparar para um grande drama quando fossemos embora.
Já não tenho mais esta certeza.
Mais uma viagem, neste ano, que me transforma. E cada vez melhor.





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2009-12-30T13:22:03.578-02:00
Perestroika doméstica
Neste exato momento uma mulher russa e sua filha, loira e russa, examinam a casa mais uma vez, e pelo que indica a última vez. A casa foi posta a venda e os primeiros interessados que vieram ver a casa decidiram que com ela ficariam. Não tem como não gostar desta casa. Ela é ainda o sonho vivo que ficou da minha amiga. O dinheiro que ela recebeu do processo que meteu no oncologista que havia dito que o nódulo em seu seio não era nada e que a dor que sentia era psicológica, foi usado em sua maior parte para comprar e montar esta casa. Tudo é novo, da frigideira à cama king size. Tudo combina, as luzes iluminam, tudo funciona. A casa é simplesmente linda!
E agora, nestes exatos momentos em que escrevo, ele mostra a casa a possível compradora russa, que pelo que tudo indica será quem manterá vivo este último sonho de minha amiga.
O dinheiro obtido com a vaneda da casa, ele me disse ontem a noite enquanto bebíamos num pub fechado onde ainda é possível fumar, a música que rola é nada aquém de Led Zeppelin e a clientela nada menos que mocinhos que bebem de noite e que de dia carregam metralhadoras pesadas, será usado para comprar a nossa casa em São Paulo. Metade minha, metade sua, porque finalmente entendi o quanto tudo isso é importante pra você. E também o meu seguro de vida, e isso você já sabe.
Conversamos muito ontem, tendo que vezes por outra driblar os berros de Robert Plate, fizemos as contas de quanto precisamos, fizemos novos planos e reformulamos planos antigos.
Apesar de meus momentos, e das coisas absurdas que de vez em quando lhe digo, ele nunca, jamais, teve um minuto de dúvida. Ele nunca teve medo dos meus momentos, nunca expressou qualquer desejo em voltar atrás ou ficou inseguro. Ele nunca desejou me deixar, e a facilidade com que se despreende desta casa e de tudo que ainda existe aqui pra ele, para começar a vida comigo, a mulher certa em muitos momentos enquanto em outros a total Betty Blue, me surpreende, e confesso, até me assusta.
Como ele pode apostar tanto numa mulher tão instável e maluca como eu?
Decididamente... esse homem não pode mesmo regular bem.

Sonhei com um pointer marrom que estava perdido na praia do Leblon. Alguém perdeu um point marrom?





-profile/016988792876050828742
2009-12-28T17:15:22.335-02:00
Ele coletivo, eu singular.
Eu tenho meus momentos, e quando eles ocorrem é pra cá que eu corro. E aqui fica registrado o medo que muitas vezes sinto, e também a vontade de largar tudo pra trás. É verdade. Mas se eu não larguei é porque existe alguma coisa que me prende a essa teia, e é nisso que eu aposto. A verdade é que meu medo tem sua razão de ser, embora eu não saiba dizer se medo é de fato a palavra certa. Mas não encontro a palavra.
A complexa situação familiar que vivo poderia me trazer muito prazer se eu conseguisse me despreder dos meus medos, e os meus medos são anteriores ao que vivo hoje. São medos que nasceram de uma vida anterior e que cresceram em mim e me fizeram quem eu sou hoje.
Ele foi criado num ambiente familiar muito forte e foi cercado a vida toda pelo amor de muitos. Eu tenho um irmão apenas, e que não fala comigo.
Ele sabe que quando precisar, em qualquer momento, outros irão correr pra lhe oferecer apoio, atenção, auxílio e o que mais ele precisar. Quando David morreu naquele quarto de hospital não havia se quer um parente presente.
Ele não sabe o significado da palavra solidão. Ele é coletivo.
Eu sou singular.
Ele trabalha dia e noite para que eu também vire coletivo.
Eu mal atendo o telefone, estou sempre invisível no skype e gosto de um canto.
Ele é barulho, tamanho, e altura.
Eu sou silêncio.
E foi a falta de amparo que me levou à ter no dinheiro o amparo que eu pudesse um dia precisar. Minha prima disse uma vez: "a falta de dinheiro me aniquila porque esse é o único amaparo que eu tenho." Entendi na hora.
Para ele dinheiro não significa nada além do que é, notas de papel com as quais se compra coisas. Dinheiro não vem fantasiado de símbolos e nem representa bóia salva-vidas. Dinheiro não compra nada além de coisas. Não compra o seu sono de noite, nem suas tardes tranquilas, nem seus antídotos pra dor. Pra ele há pouca coisa que se pode fazer com dinheiro.
Tudo que ele tem também é meu.
Estamos na casa de Israel. Das casas, a mais linda. Ele colocou a casa a venda para que possamos comprar uma nossa em São Paulo. Nossa casa não terá limites, não tem nem meu nem seu. Tudo é nosso.
Ele diz, agora quem tem é você. Amanhã poderá ser eu. Que diferença isso faz?
Não deveria fazer nenhuma diferença, e eu concordo. Mas pra isso eu preciso aprender a ser coletivo. E eu desconfio, no fundo do meu coração, que essa busca vale a pena, e que fará de mim uma pessoa melhor.





-profile/016988792876050828743
2009-12-21T15:30:37.314-02:00
Dois cosmopolitans
Hoje sentamos eu e ele num bar de praia em Tel-Aviv e ficamos olhando o mar. Ele é incansável. Nunca vi um homem lutar tanto por uma mulher. Duas horas e dois cosmopolitans depois ele havia conseguido me desvirar do avesso de mim mesma no qual havia me metido na noite anterior. Foi uma noite muito difícil, e em determinado momento estavam todos na sala, eu fechada no quarto, enquanto debatiam em família os desentedimentos ocorridos no shopping, em hebraico. Eu tentando pegar uma ou outra palavra e tentando entender o contexto da conversa, querendo saber se seu pai e a segunda esposa do pai (avó por tabela) me entendiam ou me crucificavam. Foram duas horas de muito sofrimento nas quais me senti muito sozinha. Olhei as possibilidades na Trevolocity, podia sair hoje num vôo da Air Canadá e ir pro Estados Unidos. A casa ainda não está alugada e essa possibilidade ficou me rondando até hoje, quando sentei com ele na praia em Tel-Aviv.
Decisão adiada, mais uma vez. E por enquanrto apenas.





-profile/016988792876050828742
2009-12-20T18:37:42.829-02:00
Enquanto isso em Tel-Aviv...
eu só penso em pegar o primeiro avião de volta pra casa. Chegamos tem 3 dias, os primeiros 3 dias de uma viagem que eu sinceramente não sei se conseguirei finalizar. E não conseguir finalizar esta viagem significa de fato finalizar esta relação. Muitas coisas aconteceram nestes meses, fomos até o fim do poço e retornamos. Conseguimos criar um plano para nós, ele conseguiu um excelente trabalho em São Paulo, para iniciar em fevereiro. Decidimos que venderíamos as casas do Estados Unidos e de Israel e compraríamos a nossa casa em São Paulo. Plano todo traçado. Mas eu, eu ainda custurando as minhas dores e minhas dúvidas. A sensação de não pertenecer a nada disso fica ainda mais exacerbada aqui. Sentamos no restaurante e as meninas só falam em hebraico. Me sinto completamente isolada de tudo, me sinto um fantasma, com a diferença que fantasmas não podem sentir coisa alguma. Mas eu sinto.
E sinto porque não tenho o distânciamento que me seria necessário para me proteger quando as lanças de duas meninas que me amam e me odeiam com a mesma intensidade fossem lançadas em minha direção.
Imagine a cena: Os quatro sentados numa mesa de restaurante num shopping em Tel-Aviv. Elas animadas conversando em hebraico, ele no meio de tudo e no fim de tudo, vem a conta. E a conta quem paga sou eu.
Se não fosse eu que tivesse sustentado esta família até agora elas não precisavam nem gostar de mim. Eu poderia ser apenas a namorada do pai delas. Mas o problema é exatamente este, me sinto usada porque a conta sou eu quem paga, por enquanto.
Podem me chamar de egoísta ou o que seja. Mas quero ver que outra mulher toparia se juntar a um homem desempregado, que não falava a língua local e que ainda trazia duas filhas, uma pré-adolescente e outra adolescente que haviam perdido a mãe recentemente. E ainda mais...nada disso foi idéia minha.
Quando elas me tratam mal todas estas coisas me vem a cabeça e tenho vontade de desaparecer. E pode ser que eu faça exatamente isso nos próximos 30 dias. Pode ser que um dia que esteja só em casa eu escreva um bilhete singelo, pegue um taxi e vá para um hotel e de lá pegue o primeiro vôo de volta pro Brasil.
Hoje estou tão cansada e doída que enxergo esta possibilidade como uma realidade.
Desaparecer, esta noite este é o meu único desejo.





-profile/016988792876050828742
2009-11-03T21:56:41.186-02:00
Uma guinada
A vida por aqui deu uma guinada e parece muito diferente do que tem sido nos últimos 16 meses. Ele está com uma proposta de trabalho bem promissora em São Paulo e isso mudou muito as coisas entre nós. Começei a


-profile/016988792876050828740
2009-10-22T14:19:00.054-02:00
Palavras de Maribel
Acreditem, ou não. Estas foram as palavras da Maribel que a professora particular de Português me chamou emocionada pra ver. Fiquei estupefada! Pra quem não sabe ela tem 11 anos e português é sua terceira língua!

"Quem Sou Eu?

Não é proibido, nem é obrigatório gostar de mim.

Vivo num momento em que tudo é mágico, fantástico, que seria bom que durasse pra sempre.

Finjo e também assumo.

Choro e rio.

Fico feliz e triste.

Posso odiar e gostar, até amar

Não sei de tudo e nem de nada

Se eu vou conseguir mudar ou vou ficar assim tem que perguntar aqueles com experiência na vida.

O que aconteceu no meu passado eu posso ver só pelos vídeos e imagens.

Imagino coisas que eu gostaria que acontecessem.

Copio, faço dever e me enjôo das aulas.

Me divirto e me canso.

Eu durmo e acordo.

Tomo café-da-manhã, almoço, lancho e janto.

Eu também sonho.

Fico me perguntando.

Vocês me conhecem?

Vocês sabem quem eu sou?

Eu sou aquela que vai te falar a resposta.

Sou uma humana e sou especial e única."





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2009-10-10T00:33:15.018-03:00
Nunca é tarde para amadurecer
Amanhã volto pra casa. Cresci um milhão de anos nesta semana e entendi muitas coisas sobre mim mesma. Entendi que não conseguia deixar o passado pra trás e que manter esta identidade dupla me dava um trabalho monstruoso e me custava dinheiro. Até julho deste ano, e portanto mais de dois anos desde que eu voluntariamente tomei a decisão de voltar pro Brasil, eu ainda mantinha aqui uma casa, um carro e um telefone celular. Não acredito que mantinha estas coisas por conta de uma possibilidade de querer voltar a morar aqui. Que eu não voltaria a morar aqui me parecia bem claro. Mantinha estas coisas pela opcão de não ter que arcar com a decisão que tomei.
Amanhã uma corretora vem ver a casa e estou considerando a possibilidade de vender a casa amarela. Minha prima que está qui comigo, e que tem sido absolutamente maravilhosa, me disse uma verdade: a coisa mais importante desta casa você tem com você e sempre terá, que são as memórias e a transformação interna que eu vivi aqui quando tive que encarar a dor de ter perdido meu marido. Isso ninguém tira de mim. Está em tudo que sou, naquilo que escrevo e nas coisas que penso. E está também em Moby e Bebel.
Se venderei ou não a casa passou a ser uma decisão a ser tomada que leva em consideração apenas a questão financeira, se é ou não um bom momento para tal, se devo esperar por um momento mais propício ou não. Enfim, trata-se de logística. Mas meu coração, depois da noite que passei ontem, finalmente se desgrudou destas paredes amarelas, e me permite finalmente começar a olhar pra frente.
É hora de literalmente arrumar a casa. Mas agora, a casa será outra bem diferente desta. Como será ainda não sei, mas que será será!





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2009-10-09T00:29:11.989-03:00
A procura pela liberdade
A empresária que oferece um serviço ultra especializado no Brasil e que faz o que ninguém mais faz no país passou os últimos seis dias tapando buracos na parede e re-pintando uma parede de amarelo. Estou absolutamente exausta e hoje, no meio da arrumação final eu me jurei que seria a última vez que eu faria isso. Eu preciso encontrar um caminho para abandonar essa vida e deixar o passado ir para um lugar que de verdade lhe pertence, que é lugar da memória. Preciso simplicar a minha vida se eu quiser reconstri–la de verdade. Preciso decidir que rumo minha família tomar e investir na decisão tomada. Ficamos eu com ele com os nossos rabos e só conseguiremos de fato dar uma chance para nós quando tivermos a devida coragem de deixar o passado para trás. E deixar o passado significa vender esta casa em Washington DC, que amo de paixão e ele vender a casa de Israel. Ficamos os dois mantendo uma vida paralela, pagamos por estas casas que ainda não estão pagas mas que reconhecemos como nossas casas enquanto moramos numa casa alugada que não nos diz ao coração.
Se eu quero ter tempo para escrever pra ler, pra correr, e se quiser ser empresária, esposa e mãe, preciso encontrar um caminho que me abra esta possibilidade.
Foi aqui nesta casa onde travei a maior batalha da minha vida, a batalha de conseguir sobreviver após a tragédia de ter ficado viúva aos 37 anos de idade. Esta casa representa toda a força que tenho em mim, é um monumento a minha imortalidade e auto-suficiência, e são precisamente estes sentimentos que eu preciso deixar pra trás se quiser de fato me entregar a outra vida e ter de novo a sensação de pertencer.
No fundo, preciso olhar para esta casa apenas como uma casa e descontruir todos seus símbolos. Não quero mais viver de símbolos, quero viver de verdade.
O destino da casa amarela está em minhas mãos, que aonde eu deveria segurar, com o força e com os punhos fechados, a minha real vida.





-profile/016988792876050828741
2009-10-02T23:33:21.494-03:00
Sentada na varanda
Na varanda da casa amarela olho pra minha rua que de todas reconheço como sendo a da minha casa. Aqui nesta varanda muitas vezes me sentei com David para fumar um cigarro nos entervalos que fazíamos durante os fins de semanas quando trabalhávamos cada um em seu projeto. Estávamos sempre envolvidos com sonhos e de vez um quando um gritava pro outro, baby let's have a break. E nos encontrávamos nesta mesma varanda, com Moby e Bebel, e trocávamos impressões de nossos sonhos e falávamos de nossos progressos. Ouvíamos as cigarras, ou o barulinho gostoso da chuva ou apreciávamos encasacados o manto branco de neve que cobria a grama que um dia sabíamos verde.
Amo esta casa com um amor tão profundo que nunca me esgotam as energias sempre necessárias para arrumá-la mais uma vez para o próximo inquilino.
Muita coisa foi vivida aqui, e uma vida bem diferente da que levo hoje.
Terei muito trabalho nos próximos dias, mas ela ficará de novo, com a cara de uma casa sempre feliz.





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2009-09-30T18:14:09.128-03:00
A volta à casa amarela



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2009-09-29T17:33:09.759-03:00
40 anos!
Meu Deus, o CEAT vai fazer 40 anos e eu finalmente me debatendo com questões de mulher madura. Ou assim eu acredito.
Na escola, minhas questões eram outras. Me achava feia e pobre. Minha família era diferente, faltava uma peça e a peça que eu tinha em casa já não regulava muito bem. Foi naqueles anos da escola que minha mãe começou a pirar. E ela pirando e eu crescendo. Aquela escola foi uma das grandes responsáveis por eu ser quem eu sou. Eu absolutamente amava a escola. Amava tudo. Minhas amigas, meus professores, a paisagem do alto de Santa Teresa, o friozinho de manhã cedo, o ambiente repleto de grandes artistas e seus filhos, e até o perrengue de ter que pedir carona pra subir pra escola.
Resolvi estudar biologia por causa de um professor. Antes de chegar ao terceiro ano e ter aulas com o Sérgio Linhares eu nunca havia pensado em estudar biologia. Eu vinha de uma família de jornalistas e adorava escrever; pensava em fazer comunicação ou história ou quem sabe econômia. Mas biologia? Fala sério! Decidir mesmo só decidi quando fui fazer a inscrição pro vestibular. Foi lá no último minuto que marquei a minha opção: Biologia UFRJ 1 semestre.
Alguns meses depois eu estava lá, sentada numa sala do CCS, no Fundão, que cheirava a sauna e até hoje cheira. Acho que é o tal tablado de madeira que dá esse cheiro que impregna.
Tenho que ir pra casa. Maribel tem prova de ciências amanhã e me pediu pra estudar com ela. Tô indo nênem.





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2009-09-26T09:36:32.994-03:00
O ato de escrever
Realmente não sei porque escrevo este blog, e isso já faz mais de três anos. Agora há pouco ouvíamos na Globo News uma entrevista com o escritor israelense David Grossman, sobre o seu novo livro que foi traduzido pro Português, "A mulher foge" e lá pro final da entrevista começei a chorar de mansinho. Não foi David e a triste história da perda do filho na guerra do Líbano que me fez chorar e nem a história do novo livro, que também envolve guerras, perdas, palestinos e muitos canhões. O que me fez chorar foi o fato de que a coisa que mais quero na vida é escrever profissionalmente. E eu simplesmente não consigo. Tenho as palavras, tenho as idéias, tenho os canais abertos mas não consigo.
Como tantos outros, fico sempre presa à certeza de que tenho que contar a minha história, mas sei que isso no fundo é prepotência de iniciante que acha que a sua história de vida é de fato fundamental e que precisa ser contada pro mundo. Bobagem!
Ser escritor não é isso, não é nada disso. Falar das aflições, dos sonhos, das dores, das lembranças, em primeira voz, me parece muito fácil e isso não se chama livro mas diário, e se aberto, blog. Agora, vai criar uma aldeia chamada Macondo e enche-la de personagens fantásticos e surpreendentes, vai... Ou escrever a história de um homem que passa a vida perseguindo o amor renegado de uma mulher, ou quem sabe a história de um médico Irlandês que foge de Praga com a invasão soviética e que se apaixona por uma mocinha ingênua e que juntos criam um cachorro chamado Karenina, ou mesmo a pura e simples história de um cachorro Labrador.
Sempre que começo a escrever alguma coisa, que quero chamar de livro, tenho vontade de botar no lixo apenas alguns dias mais tarde. Que bosta, digo pra mim mesma, que prepotência, que coisa mais rídicula.
Penso em Paul Auster, em Garcia Marquez, em Kundera e em todos estes escritores maravilhoso e me recolho à minha insignificância.
Já sei: só conseguirei escrever no dia que me libertar de minhas próprias aflições.





-profile/016988792876050828748
2009-09-18T20:56:10.924-03:00
O Ap do Posto 6
Essa semana estava em São Paulo e escutei uma frase ótima de uma moça que participava da minha oficina. Ela disse: Tenho muita casa pra pouca família.
Eu na hora me identifiquei com a situação. Essa serei eu ano que vem, muita casa pra pouca gente.
Estou no ap do Posto 6, o mesmo onde passei uns 3 meses em 2006 quando vim sentir o gostinho de como seria a minha vida se voltasse a morar no Brasil. Foram 3 meses de muitas mudanças e aqueles 3 meses em nada se parecem com a real experiência de ter voltado.
Durante esta última semana que passei em São Paulo trabalhando senti bem fundo o quanto já estou me separando da família, emocionalmente. Pra começar, nada mais dói.Acho que a pior fase de dor e confusão já passou, a partir daqui, eu acho será só logistíca.
Olhei pra mim, nesta semana, já com os mesmo olhos que reconheço. Me senti mais inteira, menos dividida em quatro e confesso que senti grande alívio.
Amanhã todos vem pra cá pra passarmos o ano novo juntos, talvez o último que passaremos juntos. Não, eles não sabem disso, mas eu sei.
Sinto vontade de me re-aproximar do mundo, neste último ano me isolei demais. Fiquei invísivel no skype a maior parte do tempo e atendi o meu celular poucas vezes. Sabia que as pessoas iriam perguntar de mim, da minha vida, como estavam as coisas e fiquei com medo de desabar antes da hora, por isso me fechei na minha angústia. Agora que já botei mesmo pra fora, que o circo já foi armado, tenho vontade de falar pra todo mundo que aquela vida imaginada já azedou.
Outra vida será vivida no lugar desta, e eu, como sempre, aguardo ansioasamente.





-profile/016988792876050828743
2009-09-17T20:26:29.733-03:00
Alugo a casa amarela
A casa amarela irá ser alugada de novo. Desde que me fui dos EUA ela estava alugada. A inquilina agora resolveu ir embora e eu vou ter de alugá-la de novo, claro que não sem passar alguns dias por lá. Espero desta vez não ficar obsecada com a fechadura de novo, como foi há coisa de dois anos, quando fiquei quase 1 mês lá.
A ultima vez que estive por lá, dois meses atrás, Maribel estava comigo e a casa não era a mesma. Não era a mesma porque estava habitada por outra pessoa e não era a mesma porque eu voltei a casa numa condição de vida muito diferente.
Agora volto a casa com a roupa que reconheço como sendo minha. Porque aos poucos vou retornando ao meu centro, vou voltando a ser eu e tudo vai clareando na minha cabeça e tudo que quero é isso: Minha vida de volta. Minha vida do jeito que reconheço e amo. Os diálogos metafísicos com os cachorros mais dialéticos do mundo, a torradeira que me assusta ao jogar o pão pra fora, o anúncio bobo que me faz chorar, a refeição comida nas horas mais erradas, o sono dormido nas horas mais impossíveis, o medo do escuro, o medo do medo, o cachorro de volta a cama, a agenda aberta, a perna fechada.





-profile/016988792876050828741
2009-09-15T18:53:18.850-03:00
Para Colorir
É mais ou menos assim: Sensação de ser facilmente dispensável e substituível. Sensação de fazer os outros acreditarem que a força substitui a proteção. Eu sou a que se pode deixar pra trás porque eu vou me virar. Eu sou a que sempre sobrevive. Ninguém tem medo que eu pire, fique doente, morra ou mate. Eu sou a guerreira que sempre renasce. E o que me dói é que é verdade. Não tenho medo nenhum de ficar sozinha, e é exatamente esta certeza que me apavora.
É assim: Existe uma doença genética que impede que as pessoas sintam dor. E sabe o que acontece com estas pessoas? Elas morrem cedo porque não se protegem como os outros. O sentir dor é uma necessidade biológica que faz com que o ser se proteja do que pode lhe destruir.
É assim: o desejo e a necessidade de se ter alguém torna possível o ato de ser ter alguém. Quando o desejo existe fica mais fácil encaixar um outro em nossos sonhos. Primeiro tem de existir o desejo, depois aparece o outro. Com uns ajustes aqui e ali o outro acaba cabendo. Sem o desejo, o único outro possível é o outro perfeito, que não existe. Ou o outro tão imperfeito que chega na vida da gente como um susto. Como aquela “coisa” paraguaia que me acometeu há alguns anos atrás. Era tão inesperado e enlouquecido e irresponsável e doente que não consegui encaixá-lo nem no clube dos sem-encaixe. Ficou flutuando por alguns meses a minha volta até receber o merecido pé na bunda. E eu senti orgulho de mim, de novo. Grandes merdas.
É assim: lembre-se da estória do milionário que pode ter tudo mas que não tem amor. Eu posso tudo, menos o que eu não posso. E o que eu não posso é de fato o meu grande desafio.

Clarice mora aqui esta noite.





-profile/016988792876050828742
2009-09-12T13:52:23.207-03:00
Primeira frase
Todo ser humano tem uma estória pra contar.
Esse é a minha.

ou

Every person has a story to tell. This is mine.





-profile/016988792876050828741
2009-09-11T15:33:38.718-03:00
September 11
Há oito anos atrás, neste mesmo dia, eu andava como uma louca carregando um laptop super pesado pelas ruas do centro de Washington e tentava encontrar uma forma de voltar pra casa. Voltei pra casa andando, em meio de outros milhares de rostos assuastados e suados naquele dia quente de um resto de verão. Ao chegar em casa David me esperava nervoso. Apenas desta vez a quimioterapia o havia protegido de um mal maior.
A vida quando contextualizada é outra. Os valores são reavaliados numa fração de segundos e se necesseario, ponderados, re-adquiridos ou jogados fora pra sempre.
No almoço de quarta-feira ele me contou que Shika tinha chorado no carro quando saia da escola para a aula particular de história. Disse que não tinha amigos, que só tinha panelinha na sala desde a volta das férias, que ninguém falava com ela, que ela estava só.
Quando acabou a aula particular de história eu fui buscá-la e a levei para almoçar. Conversa comigo, eu pedi, o que aconteceu? E ela me contou a típica história de menina de oitava série que hoje ama e amanhã odeia (conheço isso bem na pele) e ficou com os olhos cheios de água ao me dizer que não tinha amigas. Disse que não queria mais ir no passeio de turma milionário no ClubMed para o qual eu havia pago quase dois mil reais um ano antes. Tudo bem, ninguém vai te forçar a ir, mas acho que você devia pensar bem e tentar enfrentar esta situação.
De noite, mais uma sessão de choro por causa de um depoimento no Orkut enviado para uma "amiga" de turma onde ela em outras palavras pedia que fosse amada pela amiga. A amiga disse, com a maldade que é peculiar aos adolescentes, que ela Shika falava errado só pra chamar a atenção. Shika me contou isso entre lágrimas, de noite.
No dia seguinte de manhã eu estava na escola dela conversando com a coordenadora e pedindo que ela intervisse porque Shika já estava até falando em não ir mais a escola.
E assim, a crise mais difícil que já tivemos aqui em casa, e que durou umas boas semanas, acabou. Todo o amor e atenção se voltaram pra ela, que com certeza precisa mais que eu. Ontem fomos só nos duas, porque ela não me deixou chamar ninguém, ver Os Normais2. Demos boas risadas juntas e depois fomos todos comer no Bob's. Do Big Bob eu só comi o recheio.
O clima aqui em casa está bom, e aos poucos vamos todos nos acostumando com a escolha que fizemos para nós, embora a minha escolha eu seja ainda incapaz de vislumbrar. Talvez tudo que minha vida precise seja contextualização.





-profile/016988792876050828740
2009-09-09T10:11:10.133-03:00
Post anônimo
Obrigada anônimo, por suas palavras duras. Você tem razão em muitas coisas, em outras não. Nunca quis uma família, eu acho. Ela simplesmente bateu na minha porta e eu com susto a abri.
Antes da chegada desta família eu vivia uma ano de descobertas, de trabalho e até de celibato voluntário. Eu estava muito feliz sozinha.
Nem toda mulher tem que querer ser mãe, e isso não é um crime.
Nem toda mulher tem que estar de braços abertos somente porque o amor está lhe sendo oferecido.
Amor não se recebe por gratidão.
Amor se recebe somente por amor.





-profile/016988792876050828748
2009-09-09T09:18:03.239-03:00
Madrid, Roma, Paris
Eu estava agora olhando um website que as pessoas, do mundo todo, anunciam suas casas, nos mais diversos lugares, para serem trocadas com outras. Já me vi em Madrid, Roma ou Paris, com laptop debaixo do braço, ouvindo o barulinho noturno de cada cidade nova por onde passar. Sempre sonhei em fazer isso um dia e no ano que vem terei esta oportunidade.
Meu apartamento em Copacabana pelo seu em Barcelona?
Sim!!!
Saber que não terei que engolir este sonho, seja qual for a decisão tomada ao final do próximo ano, me traz uma satisfação sem par. É nesta satisfação que tenho que pensar, e usar para me proteger, toda hora que alguma coisa desta historia me fisgar o coração. Quando Shika me falar, com ar indiferente, que sonhou que seu pai havia casada com uma mulher que era assim e assado, não vou me deixar fisgar, não quero. Tenho medo de que estas fisgadas diárias acabem me deixando doente.
Não me vejo com toda esta capacidade de virar página nenhuma, se queres saber amiga. Me vejo com capacidade para acomodar as dores e os sonhos, em busca de uma vida plena. Não quero ser menos do que simplesmente tudo que sonhei pra mim.





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2009-09-07T16:04:23.352-03:00
Comer, rezar, amar
Incrível que este livro (comer, rezar e amar) tenha vindo parar nas minhas mãos justo neste momento, quando estou tendo que encarar todas as bruxas da minha dor e tendo que repensar valores, decisões e mesmo planos. Veio em boa hora, com certeza.
Passamos, só eu e ele, o fim de semana juntos no Rio. E pude ver, pela primeira vez com clareza que quando estamos só os dois as coisas vão muito bem entre nós. Foi só chegar em casa pra um flechada me atingir o peito.
Depois do grande sofrimento dos últimos dias falei pra ele do meu passado, das minhas angústias, da minha dificuldade. Entendi muitas coisas também sobre mim mesma, coisas muito difíceis de serem encaradas de olhos bem abertos, que é como estou me dispondo a fazê-lo.
O plano combinado é que ficaríamos um ano separadaos e que depois deste ano eu iria encontrá-los. Impossível pra mim dizer se de fato as coisas acontecerão assim, mas terei um tempo na minha vida pra decidir se quero ter uma família, ou se quero ter esta família, ou se quero ficar só, ou sem esta família. Porque na verdade, quando temos que tomar estas decisões, na maioria das vezes apresentamos a questão de forma deturpada, por pura covardia, eu desconfio. A questão que terei de avaliar nesse período não é a de se quero ou não uma família, porque escolher em não ficar com esta família em nada garante que eu não possa me apaixonar por outra um mês depois e com a qual eu queira ficar mais do que tudo que já quis nesta vida. Uma família não pode representar o conceito e idéia de famíla, assim como ter que escolher por um homem não representa de fato a escolha por se ter ou não um homem mas sim a escolha por aquele homem específico. Família ou homem nenhum do mundo podem ser tomados como representação, já que cada um só é capaz de representar o conceito de si próprio. É por isso que não existe uma mulher que não esteja preparada para um relacionamento ou que não seja capaz de ter uma família. Existe a mulher que não quer aquele relacionamento, ou aquela família. Mas, por pura covardia, preferimos usar o clichê: "não estou preparada".
Uma coisa eu já sei: o pensamento de querer esta família tem de ser capaz de me empolgar tanto quanto a idéia de fazer house swapping com qualquer pessao em qualquer lado do mundo, o que pode me permitir passar 3 semanas em Barcelona, ou em Roma, trabalhando no meu computador e vivendo o espaço da vida de outro alguém em qualquer canto do mundo. Ou então tem que me empolgar mais do que a idéia de publicar uma coluna sobre ciência na Folha, ou de treinar pra meia-maratona do Rio, ou de escrever um livro, ou até de ficar rica.
Esses são os meus planos pro ano que vem, quando estarei sozinha aqui nesta casa. Quero tomar vergonha nessa cara e escrever um livro, quero trinar pra maratona, e quero ser capaz de juntar no ano de 2010 o equivalente ao dobro do dinheiro que perdi em 2008/2009 com todas estas mudanças da minha vida. Essas idéias passearam pela minha cabeça neste fim de semana com tal desenvoltura, que fiquei tão empolgada que não consegui adormecer. Me lembrei da noite de véspera de ida pra colônia de férias, que era impossível dormir porque a coisa mais legal do mundo estava prestes a acontecer.
Se o pensamento de largar tudo isso e ir pra Tel-Aviv conseguir ser mais forte do que todas estas coisas, não preciso nem me preocupar porque eu me conheço, eu vou e acabou. Já se não for, eu fiz a minha escolha. Pra tudo que há nesta vida, acredite, eu já estou preparada, pra outras, me falta o querer.





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2009-09-04T17:51:09.543-03:00
Amor incondicional
Já tem uns dois meses que penso na possibilidade de nos separarmos. Sempre que pensava me vinha uma dor enorme em relação as meninas. Pensava que elas se sentiriam traídas, abandonadas, que iriam sofrer com a possibilidade de se separarem de mim, que iriam fazer perguntas, procurar por respostas. Eu já me sentia culpada sempre que vislumbrava a possibilidade de não estar ao lado delas. Joana falou: Não queria estar na sua pele. Maria disse: Você não vai ter coragem.
Hoje sentamos para conversar com elas sobre o plano. Eu estava apreensiva, esperando cenas e desesperos. Qual não foi a minha total surpresa ao perceber que ao receberem a notícia de que iríamos nos separar, que eles ficariam em Isarel e que eu iria depois me juntar a eles (um depois nunca muito bem explicado) Shika faltou soltar fogos de artíficio e Maribel disse que queria ficar porque tinha mais amigos aqui. Não houve qualquer pergunta ou expressão mais emocional com o fato de que eu fazia parte daquele plano apenas de forma hipotética, justificada por um depois que ninguém procurou entender melhor.
Quando eu percebi que eu na verdade não "percebia" me deu uma dor no peito enorme. As lágrimas subiram aos olhos e fiquei muda. Já não conseguia falar mais nada. Lembrei de meu pai que também em nome de um plano me deixou de forma tão rápida e fácil, lembrei de minha mãe, que em nome também de seu plano de morar junto ao mar não pensou duas vezes em me deixar pra trás, lembrei dos namoradinhos, uns melhores outros nem tanto que sempre no final me apresentavam um plano que não me incluía e lembrei de David, para quem o plano foi imposto contra sua vontade. De um jeito ou de outro, no final estou só. Talvez por isso tenha cultivado tanto a solidão. Na solidão não sinto dor. É tudo anestesiado pela própria dor.
Independente do meu desejo, ou não, em ficar só, independente das minhas dúvidas, fiquei abismada como, mais uma vez na minha vida, foi tão fácil abrir mão de mim. Sem cenas, sem expressões maiores de amor, sem pedidos de explicação, sem nada.
Eu, a mulher forte e independente, a mulherd e carreira, claro que posso ficar só. E posso mesmo.
Disse pra ele que a evidência do amor não condicional me dóia todos os dias. Mas ele jamais poderia entender, nem sabe do que eu estou falando. Acha que tudo que eu preciso é escutar ele dizer mais uma vez que me ama. Escuta, eu disse pra ele: Se nós fossemos casados e eu tivesse duas filhas suas, você consideraria me deixar aqui sozinha e ir embora com as "nossas" filhas com a promessa de que uma dia eu me juntaria a vocês? Pois é, é ai, bem aí, que mora a minha dor.





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2009-09-03T09:47:50.363-03:00
O Eu e o Outro
Tem gente que é o que é em qualquer lugar. São pessoas muito envolvidas consigo mesmas, independentes, são seus próprios chefes, curtem uma solidão, não precisam estar rodeadas por outros e possuem a capacidade de se entreterem (tá certo isso?). Você tira daqui e coloca ali e daqui a pouco tá do mesmo jeito ou de um jeito parecido. O fato é que elas continuam sendo quem são. Já outras pessoas são apenas dentro de um contexto, são a família, o lugar, o emprego, os amigos. Tire isso delas e não sobra muito coisa. Ficam apáticas. Ele é assim e percebi isso claramente nos desdobramentos destes últimos dias.
A partir do momento que vislumbramos a possibilidade de nos separarmos, e ele então veio com o plano da separação temporária, ele virou outro homem. No dia seguinte já tinha dado alguns telefonems,a já tinha um oferta boa de trabalho em Israel, já tinha bolado o plano B inteiro. Ele estava vivo de novo. Quando cheguei em casa do trabalho e ele me veio com a notícia da oferta de trabalho e com tudo que havia pensado e planejado naquela manhã eu pensei: esse homem eu quero pra mim. O outro não.
E hoje de manhã, finalmente eu entendi tudo!
Lembrei que quando fomos pra Israel em Novembro do ano passado eu me senti profundamente apaixonada por ele e pelas meninas. Eu não sentia o peso nas minhas costas, não tinha que tomar todas as decisões, não sabia de contas, de arranjos, de chatices. Ele cuidava de tudo. E ele lá brilhava como não poderia brilhar em nenhum outro lugar. Lá ele tem milhões de amigos que o amam e que como ele também palitam os dentes (argh!) e tem uma família enorme que o ama e que é muito presente.
Eu então entendi que realmente só poderia ser feliz ao lado dele se vivermos em Israel, porque pra eu poder amá-lo ele precisa ser por inteiro. E Israel é ele! Tire Israel dele e não sobra quase nada.
Confesso que o plano que ele bolou não poderia ser melhor. Vamos no final do ano pra Israel como havíamos já planejado, eu fico por alguns meses, e depois volto pro Brasil, eles ficam. Nestes meses lá vou ter a chance de aprender hebraico com aulas diárias com uma professora particular e ao final do período eu saberei se terei condições emocionais e afetivas para de fato fazer a mudança. Se sim, a minha mudança aconteceria um ano depois, ou mais tarde. Se não, sairia com a certeza de que tentamos de tudo. É um plano.
Ele diz que pode esperar o tempo que for, que por ele a gente até casava e ele andaria com a aliança (e eu ?), e de fato é um bom plano. Nós teríamos a chance de equilibrar nossas finanças, eu poderia ficar um pouco só e ver como me sinto, e também de experimentar como me sentiria vivendo em Israel.
Meu trabalho eu faço da onde estiver, e se eu mudasse pra Israel ficaria acordado que eu viria ao Brasil pelo menos duas vezes ao ano, por períodos de 1 mês, para dar workshops. E continuaria fazendo o resto de meu trabalho como faço, pelo computador.
Hoje estou me sentindo muito calma e tranquila como há muito tempo não me sentia.
Me sinto livre.
Tenho opções.
As escolhas são minhas. De novo.





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2009-09-02T15:51:50.172-03:00
O outro ele
Hoje quando cheguei do trabalho ele me disse: tenho uma oferta de trabalho. Jura? eu perguntei. Sim, em Israel. Fiquei em choque. Tão rápido assim? Sim, ele disse. Pensei: o homem que aqui está há 14 meses sem trabalhar, que se não for eu falando pra fazer isso e aquilo passa os dias vazios levando criança pra lá e pra cá, tomando café e fumando cigarro, em menos de 24 horas arruma um emprego do outro lado do mundo. Bem, isso pode ser explicado de várias formas. Explicação número 1: Lá ele conhece as pessoas, o sistema e sabe aonde ir pra procurar o que está encontrado. Aqui não sabia. (Mas também não se esforçou em saber.). Explicação número 2: Ao se imaginar sem meu suporte, ele rapidamente se virou por ordem da necessidade iminente


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2009-09-01T08:44:22.740-03:00
Bóia salva-vidas
Ontem ele me pegou no escritório e fomos tomar um café. Desde que voltei dos EUA, há quase dois meses, que temos discutido a relação (nunca achei que escreveria um cliché desses, eu tô mal mesmo!). A cada conversa, café ou cerveja que compartilhamos damos mais um passo. Ontem consegui, finalmente, falar sobre a possibilidade de nos separarmos. Foi difícil, mas ele tornou as coisas mais fáceis pra mim, ou mesmo pra ele. Bolou um plano onde a gente poderia se separar temporariamente, pra re-avaliar, equilibrar as finanças, ele voltar pra Israel pra trabalhar, e eu me juntaria a trupe no ano seguinte. Isso de fato torna as coisas mais fáceis porque economiza o grande sofrimento que seria vivermos juntos por quatro meses sabendo que a relação acabou e que estamos apenas esperando que as aulas terminem. Essa possibilidade também me abre uma nova porta: a do arrependimento. Mas eu jamais teria feito tal sugestão, e tentei fazer com que ele esquecesse esse plano, mas ele se agarrou a esta idéia como quem se agarra a uma bóia salva-vidas. Achei que seria uma maldade tirar-lhe isso.
Me sinto muito aliviada depois da conversa de ontem. Me sinto mais solta e mais tranquila. Talvez o simples saber de que não estou amarrada e que há uma porta pela qual eu possa sair me traz um pouco da paz que havia sido perdida.
Ele diz que me ama, que se decidirmos nos separar ele estará me esperando, que eu faço parte da família. Ele se refere a família como se fosse a coisa mais preciosa que pudesse existir, o bem maior que ele tem a me oferecer. A família é sua razão de existir, é o que dá sentido a sua vida, é por ela que ele acorda todas as manhãs.
Eu acordo todos as manhãs em busca de uma nova idéia. Acordo todos os dias com a esperança de um novo insight, acordo todos os dias sem nunca ter ido dormir.
Ele me disse que sabia o que eu faria se nos separássemos: eu ia me trancar dentro de mim e iria trabalhar como uma louca.
Pra ele, esse é um triste cenário.
Pra mim, me faz salivar. Mal posso esperar.
Ele perguntou se eu entendia o que estava em jogo.
Disse que sim. Eu estava trocando um homem amigo, companheiro, que me ama, que é carinhoso, que sempre estaria do meu lado, que cuidaria de mim pro resto da vida, por uma vida solitária, rodeada por cachorros e muito provavelmente uma morte solitária numa cama de hospital com as enfermeiras comentando: ciotada, ela não tem família, não tem ninguém.
O que ninguém entende é que ninguém fica só por acaso ou porque o mundo é mal. Por mais estranho que possa parecer para muitos, a solidão também é uma escolha de vida digna como qualquer outra.
Whatever makes you happy!





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2009-08-31T17:20:45.655-03:00
A Família
Quando minha vida mudou de 1 pra 4, coisa de 1 ano atrás, uma amiga me falou, como se trocasse confissões: "agora você está completa!"
Pensar nesta frase até hoje me irrita até o mais profundo da minha medula óssea! Como se antes, quando não havia família, eu fosse menos. Não era nem um pouco menos e nunca fui aquela mulher que desejou ter uma família como um fim em si mesmo. Não que eu não queira ou não quisesse uma família, mas família, a meu ver, não existe pra completar ninguém e nem pra tapar buraco. Ela é simplesmente a consequência natural do encontro amoroso entre um homem e uma mulher. Outras pessoas enxergam família de outra forma, e querem a família primeiro pra depois ter o outro, e não há nada de errado com esta ou qualquer outra visão de família. Whatever makes you happy! Mas, definitivamente, não vejo as coisas assim.
Já há alguns anos que vejo todos os entrelaços resultantes do encontro amoroso, e o próprio encontro amoroso, como consequência do existir e jamais como razão do mesmo. Faz tempo, hiiii, faz muito tempo, que descobri que sair de casa à procura do outro era o maior erro estratégico que uma mulher poderia cometer, principalmente se havia qualquer interesse em encontrar alguém de fato. Quando entendi isso passei a sair muito mais de casa e minhas saídas eram mais felizes. Porque ao sair de casa, ao ver as pessoas, ao falar bobagem, tudo era um fim em si mesmo. Nada deveria levar a coisa alguma, ou não havia qualquer expectativa que levasse a coisa alguma. Nas ocasiões em que levava, era uma grande surpresa, às vezes bem vinda, às vezes devidamente dispensada.
Quando decidi que realmente queria conhecer "um homem pra casar", eu oficializei o desejo e o institucionalizei, colocando um anúncio na internet que dizia: "A Jewish brain on the top of a Brazilian body." Eu tinha 32 anos! E foi assim que conheci David e com ele me casei.
Mas decididamente eu não estava à procura de nada nestes últimos anos, somente de mim mesma. A ausência de família não me fazia falta alguma, apenas David me fazia falta, e ainda faz e sempre fará.
Todo mundo gosta de História com Final feliz, mas nem todas as histórias podem terminar assim, se não jamais haveria o recomeço e jamais cresceríamos.





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2009-08-25T17:18:00.058-03:00
A falta que o carboidrato me faz
Desde o dia 16 de julho eu parei de comer carboidrato e açucar. Virei mais uma entusiasmada com a South Beach Diet e perdi vários quilos, que a vida em família havia me proporcionado no último ano. Como tudo que decido fazer, a dieta também foi feita de forma obsessiva. O recomendado era que ficasse apenas 2 semanas sem carboidrato, mas fui além. Na semana passada eu queria morrer! Eu nunca havia sentido depressão como senti na semana passada, nunca quis ficar enrolada no cobertor no quarto escuro, em plena quinta-feira a tarde. Eu estava péssima.
Tentei explicar o que sentia, mas ao ensaiar uma conversa com ele eu senti que não estava certa do que iria dizer e que podia me arrepender pro resto da vida. Consegui a façanha nunca dantes feita por mim de guardar pra mim e deixar simplesmente as lágrimas correrem.
A noite as meninas pediram tanto que acabei cedendo e fomos comer pizza. Comi. Comi pizza. E tomei uma cerveja. E comi pizza de chocolate de sobremesa. Já de madrugada eu o surpreendi com fome de sexo, coisa que não fazia já tinha uns 10 dias, para desespero total dele.
No fim de semana me senti melhor, curti estar com as meninas e com ele, recebi uma amiga Irlandesa em casa e no domingo a noite senti aquela sensação renovadora do novo ciclo que se inicia com a segunda-feira.
A falta de carboidrato não inventou porblemas que não existem. Os problemas existem e eu já os conheço há algum tempo. Mas o olhar é que mudou. O olhar era de morte, de escuro, de frio, de solidão.
Agora espero que o sol volte a brilhar porque já cansei da chuva da serra.





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2009-08-21T11:50:14.890-03:00
A casa nova e seus fiéis guardiões





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2009-08-21T07:35:05.662-03:00
Made in somewhere else
Ele palita os dentes, eu morro de nojo.
Ele ronca, eu acordo.
Ele fala alto, eu tampo os ouvidos.
Ele se espalha na cama, eu me expremo num canto.
Ele espirra, eu me assusto.
Quem foi que disse que ia ser fácil? Ou mesmo possível?
Me sinto como se um trabalho tivesse sido colocado nas minhas costas sem que eu tivesse tido o devido tempo para avaliar se aceitava ou não a tarefa.
Me fabricaram uma família e um amor que não me pertecem.
Há uma razão que explica porque algumas mulheres não tem filhos. Há uma razão que explica porque eu descartei o esperma do David, que tinha guardado na clínica de fertilidade. Na época eu pensei: o esperma está guardado por 2 anos, e eu me conheço. Quando quero uma coisa eu a conquisto, e muito rápido. Se até hoje não tomei nenhuma atitude em relação a isso é porque a única atitude a tomar é descartá-lo. Se eu realmente quisesse, já teria feito, disse pra mim mesma.
Há mães que são boas mães e que o fazem por prazer.
Há outras que são boas mães e o fazem por obrigação.
Faço por obrigação, porque me sinto responsável.
Claro que eu e as meninas estamos muito ligadas, e tudo poderia ser diferente se tivesse sido feito de outra forma, que é a forma natural como as coisas devem acontecer. Um homem e uma mulher se apaixonam, ele tem prole, ela se apaixona também pela prole, que é bem diferente de um homem que tem prole, ela aceita a prole a tenta se apaixonar por ele. Até poderia ser uma forma das coisas acontecerem, mas não me parece.
Me sinto só num mundo de idéias. Ontem o editor da Folha me pediu pra escrever uma matéria de ciência. Contei pra ele, que não entendeu o significado da coisa, não sabe o que é A Folha, não ficou em êxtase comigo, não entendeu nada. Fiquei só, como era antes e como continua sendo. Mas antes me sobrava tempo pra transformar a minha solidão em alguma coisa, pra procurar quem me entendesse, pra produzir algo. Agora eu engulo a minha solidão, todos os dias.
Ele tem coisas maravilhosas. É companheiro, carinhoso e amigo.
Mas certas coisas não se fabrica. Ou elas existem ou não existem e não há muito o que fazer além de lamentar. Aqui, eu lamento.





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2009-08-20T07:49:38.782-03:00
Texto truncado
Costumo dizer aos meus alunos que um texto bem escrito é aquele que flui e que não requer que o leitor fique lendo e relendo a mesma frase ou parágrafo para conseguir compreender a mensagem. É o texto que induz o leitor a escolher a próxima palavra, que não decepciona por apresentar algo impensável, descabido ou excepcional. É um texto que não causa surpresas desagradáveis, apenas emoção e a sensação de fechamento, de conclusão. O texto ruim é truncado, com palaras demais, outras menos, outras fora do lugar e outras inesperadas. É um texto desagradável.
Assim me sinto, como um texto mal escrito, truncado, chato, cheio de palavras, todas erradas. Muitas vírgulas deverão ser ajustadas para que sua leitura seja agradável. Muitas palavras deverão ser substituídas, parágrafos inteiros removidos, frases trocadas, a pontuação deve ser re-pensada.
Todos os dias acordo com uma sensação ruim, como se tivesse sido invadida de um jeito que já mal posso me reconhecer. Não me enxergo, me sinto transparente, transponível, vazia. Hello, is there anybody home?
Mas ontem de noite Maribel me perguntou: Qual teoria científica você entendo melhor? Respondi: A teoria de Darwin. Quis explicar pra ela o porque, e dizer que poucas pessoas de fato entendem a teoria de Darwin, tamanha é sua simplicidade. É quase banal. Mas a dificuldade em comprendê-la está em sua próximidade cotidiana, quando observamos uma borboleta de asas azuis e outra de asas pretas e vermelhas, e no fato de que o conceito mais importante para podermos enteder a teoria de Darwin, nós, meros mortais, não podemos alcançar, que é o tempo milenar. É preciso adicionar bilhões de anos à equação para que a teoria tenha sentido. Como bilhões de anos é algo que não faz sentido pra ninguém, a teoria também acaba não fazendo.
Que nem eu. Sentido? Nenhum. Nenhum sentido nos dias, nas horas ou nos segundos.
Mas estou lendo um livro -A Happy Marriage-, que recomendo as leituras que estão na terra do Tio Sam. É um livro novo do Rafael Yglesias, o mesmo autor do livro que deu origem ao filme Fearless. O livro me parece tão familiar. Fala de amor, da falta dele, de morte, e de câncer. E de dor.
Não sei quanto tempo vou poder viver assim e nem sei que caminhos se abrem pra mim. Não sei se para criar outros de forma comprometida é preciso de fato se abandonar. Que pra poder enxergar quem ainda precisa de direção é preciso se desfazer de qualquer direção que pudesse antes nos levar à caminhos outros, quaisquer. Agora me sinto grudada no chão, fazendo força em Newtons. Depois de todos os desenhinos e setinhas, Shika acabou entendo a matéria de física.
A terra me puxa e eu puxo ela, ela me puxa, eu puxo ela.
E assim tem sido, por milhões e milhões de anos.





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2009-08-16T18:33:35.905-03:00
A chata do supermercado
Só quando me casei com David entendi a frase que dizia: “Fulano made me a better person”. Era assim que me sentia. Eu tratava o mundo bem e em troca o mundo me tratava melhor. Eu me tornei adorável, simpática, prestativa, adorava receber as pessoas na minha casa, sorria, tinha paciência para tudo e todos. Essa fase de Love total entre eu e o mundo me emocionava.

Mais tarde e nos anos que procederam a morte do David, eu me emocionava ao ver um belo dia de sol, ou as folhas coloridas do outono, ou o cair da noite, Ficava com os olhos molhados e me sentia uma privilegiada. Eu repetia alto para mim mesma; Que privilégio estar viva para poder ver isso. Uma vez me senti assim com um livro do Paul Auster. Senti vontade de escrever pra ele somente para agradecer pelo prazer imenso que a leitura de seu livro me proporcionou. Eu achava emoção em todas as coisas, me sentia grudada em mim mesma, lia e relia meus próprios pensamentos mil vezes ao dia. Escrevia, refletia e não me sentia só. Havia sempre muito o que fazer, eu ocupava todo o espaço interno que existia em mim e a ocupação deste espaço me transformava a cada dia.

Mais recentemente tenho percebido que me tornei uma pessoa pior. Sou aquela na fila do caixa rápido do supermercado que arruma encrenca porque a pessoa da frente tem 17 volumes, dois acima do permitido. Eu arrumo encrenca pra tudo, tô sempre de cara amarrada, sempre insatisfeita, sempre procurando uma fuga pra poder escapar da conversa pelo skype com a família dele, do fim de semana em família que seu eu pudesse me fazia transparente e invisível; daria tudo para um ter um domingo sozinha na cama lendo o meu livro (to lendo A Happy Marriage de Rafael Yglesias e to absolutamente amando).

Nada me emociona e tudo me incomoda.





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2009-08-06T19:51:40.405-03:00
O fim de uma era
Estou em viagem à trabalho, em São Paulo, como tenho feito todos os meses nestes últimos tempos. Desta vez viemos todos juntos de carro pela Rio-Santos. Mas a chuva era tanta que não pudemos apreciar as curvas de um caminho já dantes percorrido com amigas queridas rumo à FLIP. Passamos a noite em Paraty para seguir viagem no dia seguinte. Mas foi nesse dia, à caminho de Paraty, que senti uma depressão profunda e uma vontade de chorar que só me trazia alivio quando eu discretamente me enfiava no banheiro para deixar as lágrimas rolarem. Assustei minha prima, pra quem liguei e falei de supetão: “Não vou conseguir, não vou conseguir!” E ela surpresa do outro lado dizia, “mas conseguir o que?” E eu apenas repetia, “tenho medo de estragar tudo”. Shika ficou assustada com meu comportamento. Naquele dia não consegui comer e voltava de minhas fugidas ao banheiro com a maquiagem borrada. “Você está bem? O que foi?” ela não me largou, ficou grudada em mim, dormiu agarrada comigo na cama. Acho que como eu ela também sentiu medo, medo de que eu pudesse de repente destruir tudo que já havíamos construído.
Quando o tardar da noite chegou virei pro André e disse “precisamos conversar”. Saímos na chuva da noite, tentando driblar as pocinhas de água que se formavam entre os históricos paralelepípedos. Já no bar, eu mal conseguia falar. Ele me perguntava o que tinha ocorrido comigo, o que estava acontecendo. E eu só chorava. Tentei me explicar, mas de verdade não sabia ao certo que explicação dar. É verdade, sentia dor de ruptura, mas só depois de um exercício sobre-humano, na tentativa de me fazer entender, de dar sentido ás lágrimas e a dor que sentia, é que me veio a lucidez. Sim, sinto a ruptura, mas não é nem sua e nem das meninas. Estou, de fato, 10 dias depois de minha volta dos EUA, rompendo com meu passado. Essa dor que sinto é a dor do elástico que puxa e quer ser rompido, é a consciência de que não há muito o que fazer, vou perder meu greencard. E com isso, toda história que ele conta e representa. É de fato o fim de uma era.
Mas até chegar a este insight, falei muita bobagem e de forma confusa, e sem pé nem cabeça, se não não estaria ali fazendo meu papel de mulher. A cada vez que esparramava meu acervo de baboseira ele pedia: “Ok, agora tente me explicar de forma simples e que faça algum sentido. “ E no meio da baboseira eu disse que tinha certeza que se não déssemos certo ele pegaria o primeiro vôo de volta pra Tel-Aviv com as meninas e eu ficaria só, destruída, falando com cachorros e com paredes. E ele me disse que não era tão simples assim. E me perguntou se era isso que eu queria. Não, não é nada disso, eu disse, e desabei no abraço dele.
Muitas lágrimas depois eu estava ali diante dele, companheiro paciente, compreensivo, amoroso, amigo pedindo desculpas pelo evento de maluquice básica que me havia acometido. Ele, já mais calmo, não escondia o temor. “Uau, suas crises me assustam. Não faz isso com a gente.”
No dia seguinte estávamos mais próximos do que nunca, nos olhávamos de uma maneira cúmplice que não sei dizer se já existia ou se nasceu ali como fruto da crise, ou do medo. Era como se surpresos constatássemos que nem eu havia me matado e nem ele havia fugido. Estávamos mais fortes do que no dia anterior.





-profile/016988792876050828744
2009-08-04T22:08:15.844-03:00
São Paulo
Todo mês venho a São Paulo a trabalho. Fico sempre no mesmo hotel business luxo preferido do meu principal cliente. Nossa, falando assim até parece que ofereço serviços pervertidos.


-profile/016988792876050828740
2009-08-02T22:51:58.779-03:00
Eu sem saber
Já voltei dos Estados Unidos há mais de 10 dias e não tive um momento pra mim, até hoje. Tive vontade de escrever antes, contar das minhas novas percepções e decepções, mas o tempo me faltou. A maior revelação desta viagem foi descobrir que eu vivia acuada nos EUA. Estava sempre com medo. Depois que entendi essa sensação, que me tomava por completo e às vezes até me imobilizava, entendi o filme do Michael Moore e quando ele diz que a sociedade americana é a sociedade do medo. Entendi. Mesmo.
Na salinha da Hertz, assim que cheguei, eu esperava que me atendessem para que eu pegasse o carro que havia alugado on-line. Ficamos olhando a televisão, eu e Maribel. Os anúncios eram na maioria sobre doenças, remédios, ou plano de saúde. E depois veio o carinha da Hertz me atender. Claro que o valor do aluguél não era exatamente o que eu esperava, já que ele me falou do seguro do carro, como se fosse opcional, mas que quando colcado da forma que foi feito, me deu total pavor em pensar na possibilidade de que toda aquela lista de coisas ruins pudessem acontecer com o carro durante aquelas duas semanas. E o pavor é claro que me fez "escolher" por um seguro que de verdade eu não precisava. Ou seja, ele me despertou o medo, eu concordaria com o que quer que fosse. O medo me cegou e me tirou o espírito crítico e o bom senso.
No metro, me chamou a atenção um poster que falava sobre os sintomas de uma doença que já nem lembro mais qual era, mas me lembro bem que eu poderia tê-la sem saber e que por isso deveria perguntar ao meu médico se tinha x,y,e z. E feito o diagnóstico, que eu não me preocupa-se porque poderia tomar o remédio não sei das quantas e ficar curada. Mas que ficasse bem claro que eu deveria perguntar ao "meu" médico.
Por essa e por outras eu tinha tanto medo de ter câncer quando morava nos Estados Unidos. Agora, no Brasil, eu já nem penso mais no assunto.
Me lembrei também do pavor que eu tinha da polícia. Mesmo sendo legal, mesmo estando em dia com as minhas obrigações de pseudo-cidadã, mesmo estando dirigindo no limite de velocidade. Se via uma polícia vindo atrás de mim eu tremia do pé a cabeça. Sempre achava que estavam atrás de mim por um erro que eu havia cometido, sem saber. Eu sem saber.
Esse era o meu dilema, o mundo que existia à minha volta e eu sem saber.





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2009-07-13T22:03:12.840-03:00
A vida se desdobrando
O casal de amigos que ficou casado por 17 anos e que foi a primeira relação homem-mulher saudável que convivi de perto se separaou há um ano. Agora só sobraram as máguas. A vizinha Collete de quem eu gosto tanto, de todas as americanas a mais honesta que já conheci, ficou viúva. Seu marido, David, morreu aos 53 anos de Hepatite C. A amiga da turma que tinha planos de se casar com o namorado Colombiano e ter mais 3 filhos com ele e ir morar em Bogotá se separaou do namorado depois de descobrir que ele aprontava todas, e com outras. Enfim, a vida vai se desdobrando nesta sua segunda metade. Eu que estava tão só enquanto todos faziam planos, alguns milaborantes outros menos, agora tenho tanto o que contar. É fascinante ver como a vida da gente se dobra e desdobra em milhões de formas diferentes e como as coisas são de fato inesperadas. Um dia se está em casa e o telefone toca. Ao segundo trim que se escuta, tudo pode acontecer. Dos sonhos mais sonhados até a triste realidade de que qualquer um de nós pode, de fato, morrer em 7 dias.





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2009-08-21T07:36:20.102-03:00
Na casa amarela, de novo
Maria, que pediu que seu nome aqui fosse Maribel, está dormindo. Eu estou sentada no sofá da sala e vejo os raios de sol que entram pela fresta da janela à minha direita iluminarem o teclado. Estou na casa amarela mas tudo me parece estranho. A casa é minha mas o lar com certeza não é meu e não poderia ser mais tradicionalmente americano. A casa está abarrotada de coisas, animais e está imunda. Essa coisa dos americanos viverem na sujeira e acharem que o fato de trabalharem justifica a porquisse é muito maluco. É o mesmo da mãe americana que justifica que porque passou o dia todo fora pode dar porcaria pros filhos comerem a noite. Pode-se gastar 5 minutos preparando um mac and cheese nojento no microondas, mas não se pode gastar 15 fazendo um arroz com cenoura e fritando um peito de frango. Ou seja, de verdade não tem nada que ver com tempo ou com a falta dele mas sim com prioridades. Alimentar, cuidar, e conversar com os filhos não é prioridade nesta sociedade. Depois ficam todos muito surpresos com os monstrinhos que criam. Tô pra conhecer uma mulher mais ocupada que eu, e mesmo assim, no meio da semana mais louca da minha vida, onde em 7 dias consegui concentrar um workshop em BH, uma mudança pra uma casa e maior e uma viagem pros Estados Unidos consegui achar tempo pra dedicar as minhas filhas.
Esta viagem está sendo importante pra desfazer os últimos ganchos emocionais que tenho com este país. Olho para os EUA com outros olhos e vejo claramente o que desgosto nesta sociedade maluca. As coisas funcionam, bem é verdade. Bem é verdade que no Brasil fico louca com a lentidão e ineficiência de tudo. Com a mudanca de casa ligamos para o servidor de internet que nos informou precisar de 8 dias para verificar se há sinal na área onde moramos. Oito dias! Aqui entro na internet quase que automaticamente, e pagando uma merreca. Realmente as coisas funcionam! Mas a conhecida indiferença dos americanos, que se fantasia de simpatia somente quando a tragédia abate é de chorar. No avião, Maribel não parava de vomitar. Estávamos sentadas na poltrona 37 e portanto na parte de trás do avião onde balança mais. Pedi ao comissário de bordo para ficar no BANHEIRO da bussiness class com ela até ela estabilizar para que eu pudesse lhe dar um dramim e escutei ele me dizer que não poderia porque as pessoas pagavam muito dinheiro para estarem ali. Me arrependo de não tê-lo mandado a merda! Hollywood e suas histórias emocionais e belas existe exatamente como remédio para a real indiferença do dia a dia desta sociedade que move pelo dinheiro apenas. Não há carinho, não há inocência, não há simpatia. E ninguém melhor que os adolescentes para espelharem os sentimentos mais característicos. Bem, adolescente americano todo mundo conhece.
Quando fui buscar Shika no primeiro dia de aula dela, ainda no ano passao a encontrei rodeda pelos colegas que mostravam interesse genuíno nela. Se tivéssemos optando em vir pra cá é possível que até hoje ela não tivesse uma amigo. Mas sim, no Brasil a internet não funciona, bem é verdade. Agora é esolher os valores que são mais importantes para mim. Apesar da angústia, eu posso esperar 8 dias pela internet. Mas com certeza não pdoeria esperar 1 ano até que minha filha fosse aceita pelos amiguinhos da escola!





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2009-06-08T15:50:34.679-03:00
Posições de uma Vida a Dois
Se eu fosse uma artista gráfica, digital ou não, quem sabe uma desenhista ou pintora, eu criaria um manual que se chamaria Posições de uma Vida a Dois. Nesse manual reconstruiria com meu traço as posições de dois corpos que vivem juntos. Não teria nada de sexo, que esse manual já existe e chama-se Kama Sutra.

Seria um manual com as posições do dia-a-dia a dois. Teria o capítulo Posições de Dormir, onde seriam descritas todas as posições confortáveis para se dormir com o outro, Posições de Cinema, que teriam as posições de pipoca e telão, Posições de Passeio, que mostraria as posições para se andar abraçado, de mãos dadas e a melhor de todas, a de escada rolante, que mostraria que escada rolante, diferente do que se pensa, foi feita para se dar beijo na boca enquanto for as compras no shopping. Teria também o capítulo Posições de Telinha, com as melhores posições para se ver TV, no sofá, com o ser amado, teria Posições no Volante, com as posições de motorista e co-piloto.

Mas não sou artista gráfica, que há limites de quantas coisas uma só pessoa pode ser e eu já bati esse limite faz tempos, então vou curtindo as posições e os sulcos que encontro em nossa cama e onde sempre há um lugar confortável e quentinho para um braço, uma perna, ou um peito. Nada fica sobrando, nunca tenho aquela sensação de ter três braços ou cinco pernas. Porque no final, a nossa conta dá sempre certo.





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2009-06-07T18:29:36.860-03:00
A mulher do bombeiro
Ontem no carro voltando da psicológa da Maria que nos relatou a avaliação feita depois de seis sessões, e que nos contou, ela apreensiva por minha reação e eu já em lágrimas, que os desenhos de Maria diziam que sou a pessoa mais importante da vida dela, o celular dele tocou. Ele dirigindo, eu atendendo. “Alô, é a mulher do bombeiro?” “Quem?” eu disse “A mulher do bombeiro.” “Bombeiro?” “Isso, tô com um vazamento na minha pia.” “Ha, sim, o bombeiro, é aqui sim. Pera aí que vou passar pra ele.”

Demorou, mas me atenei que enquanto for ele mesmo que fizer os serviços da empresa de que pretende criar, para que as pessoas tenham a opção de ter o bombeiro, pintor, gasista e eletricista lá no dia e na hora marcados, sou sim a mulher do bombeiro, do pintor, do gasista, do eletricista. E tudo isso num homem só! Nossa, que barganha! Todas as minhas pias agora podem entupir ou vazar sem medo, a pintura da parede pode descascar e as luzes todas queimarem. Que o santo da minha casa, diferente de tantas outras, faz milagre e como faz

Ele construiu do zero uma estante pro meu escritório. Pintou de cinza e veremlho, que nem as cores do cartão da empresa e botou até luz em cada uma das divisões. Uma graça! Fui pra São Paulo e quando voltei a estante estava ali, pronta, sorrindo pra mim, ansiosa para hopedar todos os livros que passei uma vida coletando, colecionando, comprando, e ganhando.

Ele tem esperanças que com isso eu consiga fazer menos bagunça. Realmente o escritório está mais arrumado agora, com os livros organizados por cor. Sim, a estética vem antes da lógica. Desde que trabalhei na Bee, há muitos anos atrás, gosto de arrumar as coisas por cor, como se fossem camisetas na arara.

PS- Este texto não tem erros, como todos os ouros textos meus porque foi corrigido pela Maria, que adora ler tudo que tem na frente, e ela me pede pra escrever também que ela adora churros!







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2009-06-03T18:16:11.829-03:00
Faltam quantos dias?
Todas as noites Maria me pergunta quantos dias faltam para irmos para DC. Ela está ansiosa com a viagem que vamos fazer e eu também. A inquilina que está morando na casa amarela, que ainda é minha e sempre será, irá viajar em julho e me perguntou se eu não queria ficar na casa e em troca cuidar do cachorro dela. O que? Melhor que isso só churros! Claro! Ficaremos então, Maria e eu, por 5 dias em nossa casa americana.
Tenho saudades e lembranças de tudo, lembranças do barulho da chuva caindo no telhado, de ver a neve pela porta francesa que abre pro pátio, dos degrais onde Shirley e eu tomávamos café com o bolo da tarde, e depois Cris e eu olhávamos pra lua e falávamos de meninos. Lembranças dos banhos em Moby e Bebel no verão, na lateral da casa, lembranças de sentar com David no pátio da frente quando ainda fumávamos, lembranças do barulho dos carros passando bem comportados, lembranças do metrô que fazia um barulhinho urbano quase charmoso e balançava os quadros da parede. Lembranças de uma porta e uma fechadura que dá última vez se tornaram meu maior entreterimento. Lembranças de uma vida que agora já me parece tão diferente. É mesmo possível que essa seja mesmo eu? A mesma pessoa que começou a escrever este blog há 3 anos atrás é a mesma que hoje está aqui sentada, na sala da minha pequena empresa, atrás de um Mac com uma tela de muitas polegadas? Afinal, são apenas 3 anos. Meu Deus, minha vida deu duas voltas, virou de cabeca pra baixo, deu uma respirada, torceu o pé, se recuperou, ganhou um brinde, ficou resfriada e agora se pergunta: O que mais me espera?





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2009-05-31T10:16:57.482-03:00
A menina que amava churros
Maria, porque você está chorando? Não sei. Senti vontade de chorar. Então chora gatinha. Já passou. Que bom que passou. Sabe, eu às vezes também sinto vontade de chorar. E vem e vai assim, quando vi já passou. Tão gostosinho o abracinho que você me deu ontem quando eu fui pra cama mas cedo que você. Você viu que eu não estava me sentindo muito bem e veio me dar um pouquinho de carinho. Melhor que isso minha filha, só churros de doce de leite, que você consegue comer 1, 2 e 10. Sim, prometo que vou achar a "coisinha" de fazer churros, e que a gente vai fazer churros pra Isabella nos EUA e vamos também fazer churros quando estivermos em Israel no fim do ano. Vamos fazer churros pras suas avós e pra savta Miriam também e também para as suas amigas.Claro que elas vão amar, quem não ama churros?
Sabe que você me emociona todos os dias? Ontem na casa da Aninha, quando construíamos a maquete pro professor de espanhol pude ver como você é interessada e prestativa com as suas amigas e também cheia de idéias. A gente nem ve nada daquele seu egoismosinho chatinho que você desfila aqui em casa pra gente, aquilo é só mesmo com a gente,né? Que bom, porque isso então vai passar. Vi também como as suas amigas te adoram e te disputam. Também, você é boa em tudo, e agora até me pediu pra te ensinar a matemática dos mais velhos da sétima série porque você quer entrar na maratona de matemática da escola, e depois você sabe até jogar bola! Fala sério, quem sabe jogar bola assim bem que nem você? E você tem montes de idéias boas, tem solução até pro churros improvisado que fizemos aqui em casa, e até costurar você sabe um pouquinho. E além disso tudo, você tem esse seu olhinho verde que as vezes se esconde atrás dessa franjinha e ninguém pode ver. Mas ontem, quando abri a sua franjinha como se abre as cortinas de um belo espetáculo, vi seus olhinhos molhados e tristinhos. Te dei um abracinho, Moby veio dormir na caminha de hóspede, você me contou uma daquelas histórias bem longas que tem espelho, meninas, fadas e poucos meninas, e nós adormecemos. Laila tov, minha linda.





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2009-05-19T02:09:59.218-03:00
O 19 de Maio
Mesmo que quisesse não poderia mais dormir. Me virei para um lado, me enrosquei no corpo quente do meu marido, abri os olhos, percebi a luzinha verde fraquinha que emanava da caixinha de som do Ipod, olhei pelo vidro da janela fechada e vi o calor de nossos corpos embaçado a vista. Me levantei e fui a cozinha. Abri a geladeira pra ver o que tinha pra beliscar e me lembrei do hábito que tínhamos, eu e David, de tomar chá com leite de madrugada, quando o susto de nossos pesadelos constantes nos acordava de supetão, sem aviso. Embalávamos os nossos medos mergulhando o sache do chá no leite quente fervendo e ficávamos deliciando a bebida na cama assistindo televisão na madrugada.
Peguei o chá de camomila, botei o leite pra ferver e me encostei na parede à frente do fogão a espera que ele subisse. Olhei o relógio da cozinha que só faltava me berrar. Acabamos de completar a primeira hora do dia 19 de maio. Hoje David completaria 52 anos!
As lágrimas imediatamente encheram meus lhos com a lembrança dele e mal pude perceber o leite que já fazia seu caminho pelas bordas da panela.
Procurei por Bebel, para que me fizesse um chamego e a encontrei dormindo na cama da Shika, toda esticada e aberta como se fosse o maior cão do mundo. Deixa ela dormir pensei. Moby estava na caminha abaixo da de Maria, que ela usa para sleep over parties e eventuais visitas, como a que o Moby de vez em quando a faz nas noites frias. Ele roncava como um velho desdentado enquanto Maria dormia um sono feliz e profundo.
Carreguei então minhas lembranças pra sala comigo, que me pesavam o coração.
Pensar em David, ainda mais em seu aniversário me traz tristeza e emoção. Me traz muita tristeza imaginar que ele tenha morrido tão cedo e antes que pudesse completar seus sonhos. David queria ter filhos, dizia que iria mostrar-lhe todos os filmes que existiam no mundo mas que não iria mimá-lo. Isso ele também disse em relação a Bebel, que iria dormir na nossa cama somente no primeiro dia que chegou a nossa casa, porque era muito pequenininha. Bebel logo deixou de ser pequenininha mas jamais deixou de dormir na cama, nossa, dela e mais recentemente da Shika.
Pensar em David me emociona até o último fio de cabelo que ainda guardo e que ainda leva a sua memória. Me emociona pensar no homem lindo, educado, companheiro, amoroso, amigo que ele era. Me emociona pensar como este homem faz parte de quem sou hoje e o quanto devo a ele por não só ter me transformado numa pessoa melhor, mas por ter me possibilitado ser quem hoje sou profissionalmente. Foi David quem não me deixou intimidar quando eu quis desistir da entrevista de trabalho ao descobrir que aquele anúncio pequeno do Washington Post que eu havia respondido era para um posição em nada mais nada menos que a maior revista de ciência nos Estados Unidos. Ele me olho fundo e disse: Vou ficar muito decepcionado se você não for.
Fui e consegui o emprego onde fiquei por 4 anos.
Depois fui chamada pra escrever um roteiro de um programa pra Discover Science. Este foi nosso último projeto juntos. Ele lia o meu texto, palavra por palavra, e me corrigia cada vírgula e tentava dar sentido a cada preposição. O roteiro foi aceito e meu nome apareceu na telinha como science writer. Foi David quem me ensinou a escrever inglês bem, tão bem, que acabou virando o meu talento mais precioso. Ele acreditava em mim de uma forma tão profunda, e me empurrava pra frente todas as vezes em que eu vacilava. Sempre que eu pensava em desistir e dizia ser uma loucura pensar que eu, já burra velha, iria conseguir aprender a escrever inglês direito e que juntaria o escrever à ciência e faria disso minha atividade, ele dizia: Você pode!
É verdade, eu posso. Hoje eu sei.
Me pergunto se eu também teria sido, ou mesmo se fui, capaz de tamanho impacto em sua vida. Não sei e nunca saberei pois sua vida fui curta. Mas curtas não são as memórias que se solidificam com o passar dos anos. Memórias de homem tão especial que apareceu em minha vida de forma tão inusitada e a deixou de forma tão dolorosa. E enquanto estiver vida guardarei este dia como sagrado, quando comemos ou bebemos algo especial que não se tem em nenhum outro dia do ano. O chá com leite quente de madrugada.





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2009-05-06T09:04:57.924-03:00
Orgulho de mãe 2
Ontem foi a vez da loirinha Gigi, a Maria, me trazer o boletim. Com a Maria as coisas não tem sido fáceis. Ela esquece o que a professora disse, esquece de fazer o dever, esquece o livro não sabe aonde, e tá sempre pronta pra ir pra piscina. Até eu entender esse compartamento dela e passar então a ficar atrás dela que nem papagaio de pirata. Cade a agenda da escola Maria? O que aconteceu hoje na aula? Cade o dever de matemática? Não é pra copiar da Wikipédia não, é pra pesquisar e pesquisa a gente faz assim, senta aqui que eu faço com você. Resultado? Tudo azul! Ela, que ama ler Mônica Jovem, ficou com média 9 em redação e leitura! Estávamos todos apreensivos com o boletim dela, porque foi um trabalho familiar forte o que fizemos com ela.
Ontem, quando chegou da escola, me entregou a pastinha com o boletim e foi correndo pra sala. Ela já sabia que ao ver o boletim todo azul dela eu ia atrás dela pra lhe dar um amasso, e enche-la de beijo, que nem faço com a Bebel. E ela adora. Às vezes vem no meu quarto, se joga na minha cama e pede: Me tortura? Agarro tanto ela que no final ficamos as duas exaustas. Ela levanta, diz Ok, e vai pro computador. Ok, eu penso, confirmou mais uma vez que eu realmente a amo. Ótimo!
Ver o boletim todo azul dela nos trouxe uma alegria enorme. E hoje concretizo os planos que tina pra nós duas. Hoje compro as nossas passagens, minha e dela, para irmos em Julho pros EUA. Estamos até considerando trazer um filhote de pointer com a gente. Sempre que falamos no assunto ela dá gritinhos de felicidade, e pula, faz dancinha, me abraça e diz que me ama. Gigi é mesmo linda!





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2009-05-04T08:13:04.266-03:00
Orgulho de mãe
Chica hoje faz 14 anos, e ela me emociona a cada dia.
Na sexta-feira teve a coragem de convidar as novas amigas da escola para assisstirem filme de terror no telão de nossa casa (o home-theatre que era do David). Claro que ela ficou com medo da decepção, medo que elas não viessem, medo que só viessem umas poucas e outras não, medo que ficassem entediadas, medo que sua festa não agradasse. Passado o medo, estávamos eu e Jô (amiga eterna), acompanahadas de todas as 9 adolescentes convidadas para participarem do evento, comendo bolo de aniversário e berrando de pavor com as cenas de A Profecia. Depois do filme, se trancaram no quarto, todas de camisola e pijama, e ficaram cantando, dançando e fazendo palhaçada para a câmera de vídeo. O destino? You Tube!
Foram dormir, todas amontoadas, nos 8 colchonetes que arrumamos na sala, às 5 da manhã. Sucesso absoluto!
E hoje fui a escola pra buscar o boletim dela. Foi a minha primeira experiência com entrega de boletim e fiquei surpresa ao perceber que meu coração batia mais forte e a adrenalina escorria enquanto aguardava o professor, que folheava os bolteins à procura do dela. Finalmente me entregou o papel, junto com a pilha de provas dela, e com um sorriso no rosto.
Aquele pedaço de papel, cheio de números e vírgulas, todos em azul, me emocionou. A menor nota dela é 6, em espanhol, a sua quarta língua. Em Português ela tem média 9! Nas outras, ela varia do 6.5, em História e Geografia, para os 7s e 8s nas ciências (física, química e biologia) e matemática. Fiquei com os olhos molhados, pensei no trabalhao que estamos fazendo juntas, lembrei de nós duas estudando biologia na cama, com uma caixa de bis e com a Bebel reclamando por mais espaço, lembrei dos desafios de física que inventei pra ela e que sempre tinha como personagens eu e Bebel, que estamos sempre a correr no parque em movimento retilínio uniforme.
Na saída da escola, agora de manhã, mostrei o boletím pra ela, dei-lhe um beijo orgulhosa e disse: Você é o máximo, minha filha!
Ela me deu um sorriso apressado de volta e me olhou como se tudo fosse muito natural. Natural as notas, o sucesso, o carinho das amigas no seu aniversário, e eu, que emocionada a chamava de minha filha.





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2009-04-22T18:06:01.785-03:00
Exercício- Parte 1
Brincando com palavras do passado, misturando-as com o presente a tentando advinhá-las o futuro. É puro lego literário!

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Sentada aqui na varanda deste apartamento em Woodley Park, vejo o gramado bonito do hotel chic que fica logo na esquina. Vejo as famílias que atravessam a rua em direção ao zoológico da capital americana. Nunca gostei de zoológico porque não gosto de ver bicho preso em jaulas. Um leão preso numa jaula de 30 metros quadrados não é um leão, mas um bicho desprovido de movimento. E bicho desprovido de movimento não é bicho, é imagem de bicho. E pra ver imagem de bicho ninguém precisa ir ao zoológico. É só se olhar no espelho.


Sinto o ventinho alaranjado do pôr do sol comportado que acontece nesta época do ano, quando cada uma das árvores ao redor tem um tom diferente de cor, que vai do amarelo ao marrom. O vento alaranjado é quase frio e o frio, que por vezes corre na minha espinha, e que por outras chamo de medo por não saber que outro nome lhe dar, me faz lembrar você. Me faz lembrar quantas vezes aqui sentei e repeti a mim mesma o quanto já não te queria mais. O quanto chorei, gritei e esperneei dizendo bem alto que eu já não o queria.

Me lembrei daquela briga que tivemo no 4 de julho, quando depois empolgada com as comemorações da data me convenci de que seria naquele dia em que me separaria de você. Aquela briga me parecia definitiva, a culpa era toda sua, como se atribuí-lo a culpa tivesse qualquer relevância ou surtisse qualquer efeito sob o que eu sentia por você. Mas no dia do ocorrido eu acreditei e me senti vitoriosa e como seria de se esperar, independente. Fiquei aliviada e disse: basta! Não quero mais, perdi o tesão! E fiquei repetindo estas palavras como se fosse uma reza, fosse no carro, no chuveiro, ou cozinhando feijão. Mas o fato é que não deixava a bateria do celular descarregar e checava meus e-mails a cada 15 minutos. Quando finalmente decidi que de fato já não o queria mais achei que deveria te revelar este segredo, que era pra "não ficar um clima ruim entre a gente", eu me expliquei com meus botões. Até pensei em te ligar e usar a desculpa do "vou deixar as suas coisas aí na portaria" acreditando que esse gesto simbólico pudesse de fato me libertar de suas amarras. Como se um DVD, uma camiseta surrada e uma escova de dentes já gasta pudessem realmente me libertar. Mas depois ponderei e avaliei e decidi que o melhor era usar a cabeça, que eu gastava dinheiro demais na terapia e o melhor mesmo seria te oferecer algo do tipo "Poxa, o que a gente viveu foi tão bonito, não queria que acabasse assim, a gente pode ficar amigo". Mas eu sabia que na verdade faria isso só para provocar em você uma reação, que eu nem conseguia imaginar qual seria. Aí pensei que melhor assim do que você me ligar pra dizer, numa boa, que achava mesmo melhor que ficássemos separados. Isso acabaria com o último fiapo de dignidade que eu por ventura ainda possuísse e que só saberia se ainda o possuía se o visse desmanchar ao eco das suas palavras duras. No final pensei que se já não o queria mais, de fato, nem precisava lhe informar de coisa alguma. Mas se o fizesse seria como telefonar só pra dizer que não iria mais telefonar, nunca mais. Foi somente ai que eu entendi o quanto eu desesperadamente queria deixar de te querer. E então percebi o tamanho da dor que teria de enfrentar se quisesse ainda um dia ser feliz.


Quando penso nessa dor, que é a dor do amor que não foi correspondido do jeito que a gente gostaria, gosto de pensá-la, a dor, como sendo a dor mais popular de nossa espécia, talvez só perdendo pra dor de cabeça. E é incrível que mesmo sendo tão popular ainda não tenhamos nem nos livrado dela e nem aprendido como evitá-la. Talvez sentir esta dor pelo menos uma vez na vida seja pré-requisito da condição humana, talvez seja necessária para finalizar a formação de um coração que chega ao mundo sempre prematuro.





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2009-04-20T18:28:35.181-03:00
Ando meio dawn hoje
Acho que é esgotamento. Quando volto das oficinas, minha vontade é de entrar num chuveiro bem quente e nunca mais sair. Mas sempre tenho que sair e enfrentar a nova fase do dia, ou da noite, que é criada com cada novo banho que se toma. Tem o dia a.b. e o dia d.b., dia antes do banho e dia depois do banho. E algumas vezes o dia acaba se fragmentando em mais de dois pedaços quando mais de dois pedaços de nós são necessários para dividir um só dia. Estes são os dias mais difíceis.
Hoje me prometeram uma massagem, com vela, música e beijinho. Talvez eu esteja melhor amanhã e consiga até ir correr. Talvez não consiga coisa alguma. Nem escrever, nem ler, nem ver filme, nem ver novela.
Estou, pela primeira vez, percebendo de fato que estou envelhecendo. Não tem nada de rugas ou papas nesta conversa. O que tem é que demoro mais para me recuperar, seja do que for, de uma tristeza ou de uma melancolia, de uma felicidade ou de uma noitada, simplesmente demoro mais. E sinto já um corpo inteiro que era cheio de pontos que eu nem conhecia porque tamanha era a leveza que eu nem os sentia. Agora sinto cada esquina do que tenho, cada dobra, cada movimento. Movimentos bruscos já me parecem arriscados se não antes pensados e calculados. O olhar que hoje tenho para a mala que arrasto é outro. Já vejo seu ângulos, a forma como se arrasta nos corredores do aeroporto e a forma como me pede que a carregue, com um olhar examinador e calculista. Já não posso mais take any suitcase for granted. Uma mala é uma mala, é uma mala é uma mala.





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2009-04-16T21:25:30.919-03:00
O mesmo sonho de ontem
Essa noite eu tive o mesmo sonho que sonhei semana passada, quando estava em Salvador. Eu sonhei que estava, com a minha família e Moby e Bebel, na casa amarela, em DC, e que no quintal haviam muitas flores que o inquilino havia plantado antes de sair da casa.
André (sim, ele virou André ambora tenham sugerido coisas como Osvaldo, Osmar, Vladimir e outras coisas estranhas) disse que era o David tentando se comunicar com o meu inexistente lado espiritual, que além de ser inexistente é cego, surdo e mudo. Não dei ouvidos.
E hoje de manhã acordei depois de ter sonhado o mesmo sonho. Será que é realmente possível sonhar o mesmo sonho ou eu simplesmente recordei, enquanto dormia, o sonho que tive na semana passada?
São Paulo me tira mesmo do sério, deve ser isso. Hoje entrei no taxi e disse "Ibirapuera Shoping". Depois de mais de 30 minutos andando e parando a 10KM/h, chegamos ao shopping. Olhei pela janela e perguntei ao motorista o que fazíamos naquele shopping quando eu queria ir ao Morumbi shopping. Sim, eu havia dito o nome do shopping errado e por conta disso fiz um indesejável e interminável tour por São Paulo, na hora do rush e ainda paguei R$ 60 pelo passeio.
Saudades de casa. Amanhã estou de volta.





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2009-04-12T12:47:57.348-03:00
O tempo que se espera
Ontem quando aterrissei no Galeão, depois de passar 3 dias com a família em Salvador, com direito a ida a Itaparica mas nenhum encontro com Ubaldo, infelizmente, meu celular tocou. Era a minha amiga escritora que me perguntava se eu iria na festa de aniversário de meu irmão livreiro. Não, não iria. Mas ela me contou do projeto dela e de Tatiana, autora do A chave de Casa, que outro dia comentei aqui, de lançar um livro de contos de autoras judias e árabes. Fiquei feliz por ela e triste por mim, mas conformada, o que é um sentimento muito novo pra mim. Eu conformada.
Fiquei triste porque gostaria de ter o devido tempo e energia para me dedicar a atividade de escritora, e conformada por saber que no momento isso me seria impossível. Por mais que se invente tempo pras coisas importantes, e esse é meu motto, reconheço que sim, poderia inventar o devido tempo que me seria necessário pra escrever como deveria ou gostaria, mas para tal teria que abrir mão de alguma coisa e infelizmente, no momento, não há nada do qual possa abrir mão. Não posso abrir mão da minha empresa e nem das viagens que faço a trabalho, não posso abrir mão de sentar pra estudar com a Maria, quando ela lê o livro e me diz o que eu tenho escrever no resumo pra ela. Ela diz, escreve aí: Ebulição. Eu pergunto, mas o que é isso? Ela então me explica, e dita pra mim palavra por palavra. Depois de passarmos por maus momentos onde eu tentava ensinar a ela e ela resistia de forma bastante violenta, descobri que o melhor seria fazer parecer que era ela que me ensinava. E assim, Maria de 11 anos de idade ensina pra mim, que carrego doutorado e pós doutorado, o que é fusão, ebulição e liquidificação, esse último ela me contou que perdeu o trema! E eu escrevo direitinho no caderno e não deixo nenhum pingo de i de fora. Disso, não posso abrir mão.
E também não posso abrir mão de ir correr com Bebel, a corredora peluda, no parque, e de deitar ao lado do meu bem no sofá a noite só pra fazer companhia, e de ter papo-quase-cabeça com a Chica, e de ler (Amoz Os no momento), e de ver filme, e de comer, beber, sonhar, amar.
Por isso não posso escrever no momento, da forma que gostaria. Por isso escrevo aqui, que é pra pelo menos ter um gostinho do que eu sei, mais do que tudo, que um dia ainda há de vir na minha vida.





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2009-04-07T23:42:19.610-03:00
Enquanto isso, no tabelião...
de uma pequena e pacata tradicional cidade serrana, o encarregado fechou a cara quando a advogada lhe apresentou aquele que seria o último documento do processo. Ele disse: Não carimbo, não assino, não arquivo, e pronto e tenho dito!
O documento consistia na tradução juramentada do atestado de óbito já declarado, assinado, carimbado e rotulado pela embaixada brasileira em Washington DC e certificava de que se tratava de documento original.
Acontece que naquele dia, e justo naquele dia, o encarregado havia despertado de uma noite mal dormida, com mosquitos a lhe picarem o corpo, a umidade da serra a lhe dar coceira e a fazer com que todo o cômodo da casa cheirasse a mofo, a lembrasse da noitada anterior a lhe dar arrepios. E foi nesse espírito que o dito cujo colocou-se mais uma vez atrás do balcão, como tem feito em todas as manhãs que lhe tem sido úteis, nos últimos 15 anos.
E depois do terceiro café e de comer o pãozinho com manteiga da padaria em frente, ele disse: Não aceito porque se trata de cópia e aqui só arquivamos documentos originais.
A advogada ainda tentou argumentar com a pouca paciência que ainda lhe sobrava depois dos já quase seis meses andando atrás dos documentos que lhe eram solicitados. De todos, só não foi mesmo capaz de providenciar um CPF pro morto, que era estrangeiro e nunca havia vivido no Brasil. Mas se possível fosse, ela confessou mais tarde, teria dado pro sujeito. Quem sabe não foi esta promessa, a do não dito pelo dito, que causou tamanho mal entendido?
O fato é que por conta do encarregado, estou impossibilitada de me casar outra vez. Nos Estados Unidos me dizem que o documento é original, a embaixada diz que o documento é original, mas já o encarregado diz a advogada que são todos loucos e que de documento original quem entende é ele.
Agora ela, a advogada, me oferece como último recurso de sua quase interminável estratégia, que eu vá a Bahia, procure uma mãe de santo porreta e faça uma macumba pedindo que a "mixaria seja liberada".
Partimos para Salvador amanhã, com a benção do senhor do bom fim.





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2009-04-07T07:13:55.335-03:00
Meu lugar
Voltar a escrever no meu blog não é resultado de um melhor gerencimaneto do meu tempo. Seria uma tola e estaria me enganando se falasse que não escrevia por falta de tempo. Tempo sempre há, tempo a gente inventa. A gente inventa tempo pro amor de verdade mas pro quase amor nunca sobra tempo algum. A gente pari (de parir) tempo pra falar com a amiga que se ama ou combina um encontro do qual não se esquece. O tempo somos nós que inventamos, sempre.
Eu não escrevia poque não sabia sobre o que escreveria. E não sabia porque passei os últimos nove meses tentando encontrar o meu lugar nessa nova condição de vida, nessa nova casa que está mais viva do que tudo que já conheci. Na casa, comemos, estudamos, lemos, falamos, berramos, brigamos, trepamos, latimos, e dormimos. Foi no meio disso tudo que eu como uma louca procurava por mim mesma, no intervalo entre um coisa e outra, e tentava descobrir qual seriam as novas regras da minha vida. O que posso e o que não posso, o que quero e o que não quero, o que me faz bem e o que me faz mal. Quantas horas preciso dormir por noite? O que irei comer no café? Quando vou correr?
E depois de algumas crises onde eu chorava dizendo que não conseguiria, onde eu tentava entender a dinâmica de uma família diferente de todas as outras que existem, onde eu sofria em uma língua e ele me consolava em outra, onde me debatia para conseguir dormir com um homem que é maior que a nossa cama e que insiste em entrelaçar a perna de 30 Kg sobre a minha coxa quando adormece, onde eu me vi com ciúmes de todos e vi todos me disputando como se eu fosse um Kinder Ovo, acho que chegamos a algum lugar.
Tenho tempo para o meu blog e tenho tempo para ir com Bebel, a corredora peluda, correr no parque. Tenho tempo para ler, para trabalhar, para amar e pra comer.
Ultimamente, só não tem me sobrado tempo pra sofrer.





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2009-03-31T23:00:54.450-03:00
A história de um nome
Quando eu nasci me deram um nome que na família ninguém tinha. Meu pai, jornalista de esquerda, assinava o que escrevia com um pseudônimo que seu avô havia criado anos antes quando era locutor de rádio. Foi esse nome, marca fantasia, que ele deu pra mim. E depois foi embora, sem nunca ter me feito digna de tal escolha.
Fui criada judia, estudei judia, namorei judia e escondia o nome não judia que tinha. Usava o nome grande, e de judia, da minha mãe. E tentava, sempre que podia, omitir aquele que não me cabia.
Quando casei, fui correndo trocar de nome. Era a chance que tinha de ter, pela primeira vez na vida, um nome que me falasse ao coração. Tirei de mim o pseudônimo e ganhei o nome dele. Virei EU ELE e mais nada. Foi com esse nome que me tornei a profissional que sou hoje. Foi com esse nome que publiquei em revistas de altíssimo impacto, foi com esse nome que montei a empresa que tenho. Esse nome sou eu.
Vou me casar em breve com um outro nome. E farei assim como Jackie. Adicionarei esse nome em seguida àquele que já tenho. Ficarei EU ELE VOCÊ.
A idéia do amor que adiciona, que nunca se mata ou se substitui, me enche o coração.
E ontem no carro, Chica me disse que quando nos casarmos ela irá adicionar o nome dele também ao seu, pra ficar com o nome dela igual ao meu.
Ela igual a mim. Ou seria eu igual a ela?





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2009-03-29T10:53:33.477-03:00
Book-transporte
Passei a sexta-feira inteira em São Paulo indo de uma reunião de trabalho para outra. Todas foram reuniões muito promissoras, todas me abriram portas para mais outras oportunidades. No sábado de manhã, antes de ir ao aeroporto fui rapidamente ao shopping porque havia prometido a Maria, que ama as fadas e as princesas, que iria comprar mais outra fada para sua inumerável coleção. No shopping não achei a fada e como opção entrei de carreira na Livraria Cultura a procura de mais um livro do Twilight, o quarto, pra Chica, que leu os dois primeiros, em inglês, como quem devora uma caixa de bis. Precisava achar o quarto livro, em inglês, pra ela. E comprei um livro lindo de fadas pra Maria. Então o vendedor me perguntou: E você? Eu? Pois é, eu. Sabe o que é, não consigo ler livro algum em português. Estou de mal com nossos acentos e cidilhas. É que estou misturando a vida pessoal com o trabalho e nesse ponto tá dando tudo errado. Minha língua de trabalho é o inglês, minha principal tarefa é esconder e camuflar o aparente português dos autores com quem trabalho para que o texto fique bonito e coerente. Então, quando vou ler um livro em português, não sinto prazer, mas dor. E deixo o livro de lado antes das 50 páginas. Morte prematura e anunciada.
Então fui olhar a estante dos livros em inglês. Já li, já li, esse é ótimo, amo Paul Auster, isso é bobagem. Nada.
Ha, você tem ai um livro novo de uma tal de Tatiana não sei das quantas, li sobre ela no jornal. Tatiana Salem Levy? Isso? Éssa mesma, tem?
Finalizei a compra: Twilight 4, Livro de Fadas, História do Brasil em quadrinhos, CD Aprenda Hebraico enquanto faz xixi, e A Chave da Casa, da tal da Tatiana. Mal sabia ela que viraríamos amigas inseparáveis pelas próximas 4 horas.
Tudo que me lembro, é que eu estava num taxi, saindo do Shopping Villa Lobos e que 4 horas depois estava na Rodoviária da minha cidade com meu marido me esperando. Eu havia pego o taxi até o aeroporto, esperado meu vôo, voado por 1 hora, pego um taxi no aeroporto, ido a rodoviária, esperado por lá alguns minutos, andado no ônibus por mais 1 hora e vupt, tinha chegado em casa por book-trasporte.
Book-transporte não é algo que se possa encomendar na internet ou que se possa prever. É algo que simplesmente acontece e que não se pode antecipar. Mas quando acontece é uma das melhores sensações do mundo porque é como se o mundo lá fora deixasse de existir e apenas o diálogo imaginário entre autor e leitor faz sentido.
Esses momentos tem sido cada vez mais raros na minha vida, porque além do trabalho do autor, que precisa nos oferecer algo belo e emocionante, não podemos esquecer que há também o trabalho do leitor, que precisa ter a devida coragem para se desapegar do mundo, de tudo e de todos, para somente então poder ser tomado sem resistência por um punhado de papel cheio de letras. E é desta coragem que falo, e que tem me sido cada vez mais rara.
Talvez precise também tomar pra mim a coragem das fadas e dos vampiros. Ou talvez precise simplesmente re-aprender a comer bis.





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2009-03-24T23:01:58.165-03:00
And We Went to Portugal
Este Carnaval fui à Portugal. Não fui até lá atrás de um bloco lusitano e nem a procura do Olodum de Cabral. Fui à trabalho. E como era Carnaval, e eu ia por uma semana mas só trabalharia 3 dias, liguei para algumas amigas tentando encontrar companhia para a viagem. Uma a uma foram me dizendo que estavam sem grana, que já tinham outros planos ou que iriam desfilar em alguma escola. S, que já apelidei de Chica, foi acompanhando com olhar pidão os meus telefonemas frustrados para cada uma das amigas. Até que no final ela disse: Eu posso ir com você se você quiser a minha companhia. Claro, eu disse. Como não havia pensado nisso? Mas e M (que virou Maria)? Eu não tenho como levar vocês duas? Chica então sugeriu que eu levasse ela desta vez e que numa próxima vez eu levasse Maria comigo. Vamos conversar com ela? Qual não foi a minha surpresa em ver que Maria tinha topado o plano. A próxima vez, que como tudo indica será os Estados Unidos em julho, Maria iria comigo.
E foi assim que eu Chica fomos juntas pra Portugal no Carnaval. Ela fez uma camiseta de seu mais recente herói do You Tub, o Fred, e eu do meu cantor do momento, Idan Raichel. E foi assim, com camisetas que fizemos com fotos de nossos heróis, que embarcamos no avião da Tap pra Lisboa.
A viagem foi simplesmente maravilhosa. Rimos muito, fizemos compras, fomos ao Oceanário de Lisboa vimos a versão portuguesa do show da Broadway The Poducers. Um show que eu recomendo. Ver qualquer coisa de conteúdo cômico em português lusitano já é diversão garantida para nós, colonizados maledicente e debochados, ainda mais quando é bem feito! Também vimos o filme O Leitor, que também recomendo, apesar de não ter nada de engraçado.
Foi uma viagem inesquecível para nós duas. Para mim, foi o contato mais próximo que tive com o que de mim ficará um dia quando eu me for. É que eu me vi na Chica. A vi moldando opiniões, gostos e pensamentos que tinham por trás nada mais do que as minhas opiniões, gostos e pensamentos. Explico: Na primeira oportunidade que tive contei para alguém, ainda lá em Portugal, sobre o episódio do filme O Leitor e de como fomos sem qualquer pretensão ao cinema sem saber o que esperar, na verdade fomos ao cinema do shopping em busca de uma poltrona confortável porque estávamos cansadas, e acabamos vendo aquele filme maravilhoso. Na segunda oportunidade de falar do filme, e da nossa total falta de pretensão foi Chica que contou. E contou da mesma forma e com a mesma expressão no olhar e a mesma surpresa que apenas no dia anterior ainda eram só meus mas que agora já eram nossos. Aquela de 13 anos falando era a versão dela, genuína, já tomada pela minha presença em sua vida. Fiquei olhando as palavras saírem de sua boca, impressionada ao ver que o que ocorria ali era o nascimento da minha eternidade, já que depois que formos ficaremos vivos em nosso filhos. Eu nunca tinha experimentado esta sensação.
Nós duas aprendemos muitas coisas nesta viagem e a ligação que já era forte entre nós agora se eternizou.
" Economic class is good for me because I don't ask for a lot", ela cantava rindo.





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2009-03-24T22:56:16.307-03:00
Fred Goes Swimming






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2009-03-24T22:50:12.448-03:00
Carnaval em Portugal
Este Carnaval fui à Portugal. Não fui até lá atrás de um bloco lusitano e nem a procura do Olodum de Cabral. Fui à trabalho. E como era Carnaval, e eu ia por uma semana mas só trabalharia 3 dias, liguei para algumas amigas tentando encontrar companhia para a viagem. Uma a uma foram me dizendo que estavam sem grana, que já tinham outros planos ou que iriam desfilar em alguma escola. S, que já apelidei de Chica, foi acompanhando com olhar pidão os meus telefonemas frustrados para cada uma das amigas. Até que no final ela disse: Eu posso ir com você se você quiser a minha companhia. Claro, eu disse. Como não havia pensado nisso? Mas e M (que virou Maria)? Eu não tenho como levar vocês duas? Chica então sugeriu que eu levasse ela desta vez e que numa próxima vez eu levasse Maria comigo. Vamos conversar com ela? Qual não foi a minha surpresa em ver que Maria tinha topado o plano. A próxima vez, que como tudo indica será os Estados Unidos em julho, Maria iria comigo.
E foi assim que eu Chica fomos juntas pra Portugal no Carnaval. Ela fez uma camiseta de seu mais recente herói do You Tub, o Freddie, e eu do meu cantor do momento, Idan Raichel. E foi assim, com camisetas que fizemos com fotos de nossos heróis, que embarcamos no avião da Tap pra Lisboa.
A viagem foi simplesmente maravilhosa. Rimos muito, fizemos compras, fomos ao Oceanário de Lisboae vimos a versão portuguesa do show da Broadway The Poducers. Um show que eu recomendo. Ver qualquer coisa de conteúdo cômico em português lusitano já é diversão garantida para nós, colonizados malidiscentes e debochados, ainda mais quando é bem feito! Também vimos o filme O Leitor, que também recomendo, apesar de não ter nada de engraçado.
Foi uma viagem inesquecível para nós duas. Para mim, foi o contato mais próximo que tive com o que de mim ficará um dia quando eu me for. É que eu me vi na Chica. A vi moldando opiniões, gostos e pensamentos que tinham por trás nada mais do que as minhas opniões, gostos e pensamentos. Explico: Na primeira oportunidade que tive contei para alguém, ainda lá em Portugal, sobre o episódio do filme O Laitor e de como fomos sem qualquer pretensão ao cinema sem saber o que esperar, na verdade fomos ao cinema do shopping em busca de uma poltrona conforteavel porque estávamos cansadas, e acabamos vendo aquele filme maravilhoso. Na segunda oportunidade de falar do filme, e da nossa total falta de pretensão em relação ao filme foi Chica que contou. E contou da mesma forma e com a mesma expressão no aolhar e a mesma surpresa que apenas no dia anterior ainda eram meus mas que agora já eram nossos. Aquela de 13 anos falando era a versão dela, genuína, já tomada pela minha presença em sua vida. Fiquei olhando as palavras saírem de sua boca, impressionada ao ver que o que ocorria ali era o nascimento da minha eternidade, já que deois que nos vamos ficamos vivos em nosso filhos. Eu nunca tinha experimentado esta sensação.
Nós duas aprendemos muitas coisas nesta viagem e a ligação que já era forte entre nós agora se eternizou.
" Economic class is good for me because I don't ask for a lot"


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2009-03-23T20:14:02.348-03:00
Ecos de um passado
Durante os mais de três anos que levaram a doença de David até finalmente levá-lo a morte em 2004, eu me indignava, me questionava, me irritava e principalmente me magoava com o comportamento da família dele. Os membros daquela família, segunda geração de imigrantes italianos. iam visitá-lo esporádicamente e mesmo assim somente quando eu insistia e quando pagávamos a passagem. Eu precisava de companhia, precisava ter algum barulho além das patinhas de Moby e Bebel que deslizavam pelo taco de madeira, e acreditava que ele também precisava do apoio da família. Acho que ao longo deste tempo todo a mãe dele, que morava a apenas 1 hora de avião de nós, veio visitá-lo duas vezes. Na terceira vez, ele já estava na UTI, inconsciente, e ela se foi no dia segunte sob a desculpa de que tinha em seu apartamento o papagaio da vizinha e que por isso precisava ir embora. Dois depois que ela partiu seu filho morreu.
Eu me recusei a aceitar tal comportamento que justificava como diferenças culturais a falta de amor. Me neguei também a aceitar as súplicas da irmã, uma mulher de mais de 40 anos que enciumada com a visita da mãe ao irmão, convencia a mãea de voltar pra casa porquel ela, a mãe, uma senhora saudável que apenas 1 ano antes havia dirigido sozinha seu carrinho do Arizona até Chicago, não sabia lidar bem com a dor. Ela dizia pro David: "A mamãe chora toda noite, ela não sabe lidar com isso, é melhor que ela volte pra casa."
"É mesmo, ela chora e não sabe lidar com isso?" Eu perguntei ao David indignada. Olha, eu também choro todos os dias. Eu dou comida pro cachorro chorando, eu levo o cachorro pra passear chorando, eu vou pro trabalho chorando e até escrever eu escrevo chorando. Estranho seria se estivéssemos todos sorrindo!"
E desde que ele se foi não tive mais qualquer contato com nenhum deles. Até hoje.
David tinha uma sobrinha que ele amava de paixão. Na época ela tinha 16 anos e não entrou no mérito da questão da doença do tio. Como os outros da família, seguia o mesmo exemplo e mandava um novo Get Well card toda semana. Mas ela tinha apenas 16 e não a julgo pela falta de iniciativa de ir visitar o tio. Na certa estava dividida quanto ao comportamento que deveria ter. De certa forma percebia no comportamento da mãe e da avó que era assim que se fazia quando alguém que a gente ama muito fica muito doente. A gente liga uma vez por semana e envia um novo Get Well card toda segund-feira!
Em julho vou aos Estados Unidos para resolver várias coisas. Entre elas estão as questões em relação a casa amarela, que compramos juntos eu e David. Agora que tenho herdeiras, queroa organizar este aspecto da minha vida e quero que as meninas fiquem com metade da casa, caso alguma coisa aconteça comigo. A outra metade, a do David, quero que fique com a sobrinha dele. E por conta disso enviei um email a irmã dele, que encontrei no universo virtual graças ao Google. Depois de 5 dias ela me respondeu e enviou o email da filha. E hoje eu escrevi pra ela. Falei da minha vida, da casa, de David e de como eu estaria sempre de braços abertos se ela quisesse um dia conversar comigo sobre David, ou qualquer outro assunto.
Mas até agora ela não respondeu.
Eu aguardo.

It's good to be back!





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2009-03-22T22:25:37.991-03:00
O cachorro que não era um travesseiro
Queria falar do Luc, o cachorro que latia e era cheio de pelo que o meu cachorro, o Moby, levou 3 meses para perceber que se tratava ali de um representan


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2009-03-22T15:35:36.974-03:00
Um pouco mais de seis meses depois
Ontem a noite, conversando com uma amiga e também escritora de blog (confesso que o termo blogueira me perturba) confessei da falta que sentia do meu blog, e explicava, mais uma vez, porque o havia fechado. Fechei o blog achando que se soubesse quem seriam os meus leitores, e seriam todos amigos, eu estaria mais protegida e me sentiria mais solta pra escrever. Qual não foi a surpresa em perceber que não somente me senti mais presa do que nunca mas também simplesmente deixei de escrever. As pessoas me perguntavam o porque da paralisia. Porque saber que eu tinha como leitores qualquer coisa menos que o mundo todo, em potencial, levou de mim qualquer desejo de escrever. E saber que quem me lia era a meia dúzia de amigos próximos me fez com que me sentisse desnecessária. O fato é que sinto falta das minhas letras e palavras e sinto falta de vocês, sejam lá quem vocês forem. Sinto falta do leitor na China, do leitor em Angola, da leitora na Itália e de tantos outros, imaginários ou não, reais ou não, virtuais ou não, com ou sem confessos olhos verdes, de idades jovens ou adultas, nada me importa. O que mais importa é a sensação de que minha voz é solta em ecos pelos quatro cantos de um planeta que não tem cantos e que por isso mesmo me fascina.
E como escrever de mim sem ser pessoasl? Como falar da minha vida sem expor aqueles que me cercam? Como deixar que eu me revele entre linhas sem que me deixe estar nua? Como fazer entender, a todos e a mim mesma, que isso aqui é e não é ao mesmo tempo? Que tudo aqui é verdade enquanto postado aqui, neste mundo virtual, e que aqui só este mundo importa, por isso mesmo eu o criei. Porque aqui descanço de outros mundos, do mundo que acontece afora do teclado, do mundo que acontece de trás pra frente, do mundo que acontece entre tantos outros de realidades paralelas. Mas é mesmo verdade? Sim, claro que é. É tudo verdade virtual, que dói e cura tanto quanto qualquer verdade, de qualquer outro tipo, de qualquer outro mundo. E você, qual é a sua verdade?





-profile/016988792876050828748
2009-03-22T15:06:53.942-03:00

Fiquei muda ao olhar o teclado, como se eu nem tivesse palavras pra soletrar. Mas não me levou mais de 3 segundos ara passear meus dedos pelo caminho que ainda me é o mais familiar. Tenho saudades de escrever, de contar, de compartilhar. Tanta coisa tem acontecido, e todos os dias, que nem sei mais quem sou. Virei um ser diluído que se divide como pode para aquecer três corações necessitados. Na volta, recebo de braços abertos o amor que me é entregue em enormes doses todos os dias.
Quero me casar. Mas quando falamos no assunto faço mistério. Quero ter o prazer inesquecível de dizer sim.



-profile/016988792876050828740
2009-03-22T15:06:44.935-03:00
the lest things in the lest time...
from the baloons pickturse to today hapannd a lot of stuff.

i ad fun in all of this time but i wanna write what is really importent like:

i did a big trevel.

i had fun (ofcours rith?)



But lets say about now...

i'm in my perent's bad...

the fan and the music is on...
Bebel talld me to say the i'm resiving a-lot of kisses...(and i'm tird from kisses)...
Yes, i know, weird, in the End is not Bebel who is writing, is her step-dother...



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2009-03-22T15:06:25.449-03:00
Muito ocupada

Minha volta de Goiânia foi um marco na nossa vida familiar. Foi quando eu me dei conta do quanto estamos todos ligados, como uma família de verdade, e o quanto as meninas estão ligadas a mim e eu a elas.
Pela primeira vez voltei de uma oficina cansativa e tinha um abraço no aeroporto, o melhor do mundo, me esperando. Me guardava um beijo e o meu chocolate preferido da Kopenhagem. Cheguei em casa e tinha balões pela sala, colados no teto que Moby jurava que eram bichinhos para os quais ele insistia em latir.Pra mim havia um presente, um colar com coração, parceido com o que a minha måe tinha. No cartão dizia mais ou menos assim:
S dizia sentir saudades da companheira de gym e da melhor amiga
O dizia ter sentido frio nas noites da serra
M dizia que eu era a melhor outra mãe do mundo
As lágrimas vieram no dia seguinte quando acordei pela manhã e me dei conta do tamanho daquilo tudo.

Depois de amanhã vou pra Portugal, mas encontro com eles na terrinha, uma semana depois. Já estou com o coração apertado, e meu lindo já fica me cercando por todos os cantos da casa e tentando tirar uma casquinha de mim sempre que pode. Ele diz que já está com saudades e que precisa ter crédito para suportar a minha ausência.

Uma semana passa rápido. Mas só pra quem não sabe contar os dias.
Mas importante mesmo é que amanhã quero perdoar o mundo.



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2009-03-22T15:06:13.771-03:00
Longe de casa...por mais de uma semana
Estou em mais um daqueles workshops, e em Goiania e com a boca seca como areia. Ninguém merece. Pior que isso só ter o IRS atrás de mim. Não, pior que isso é receber um email lá da locatária da casa amarela, nos EUA, dizendo que vai sair da casa em 1 mês! Como 1 mês? Nem posso ir ver em que estado a casa está. Esqueceu? Sou uma mulher sem passaporte. Daqui ninguém sai. Meu lindinho diz que ultimamente todas as notícias ruins vem do norte. Você viu a bolsa? Ha, quero falar disso não. Bora mudar o rumo dessa prosa, que é pra não virar prosac (horrivel essa, sorry).
No domingo peguei um avião pra Goiania e ao invés de me despedir da Bebel e do Moby, que não gostam de ver uma mala, fui levada ao aeroporto pela família inteira, que resolveu almoçar aquela comidinha super mais ou menos só pra poder ficar mais uns minutinhos comigo. As meninas não desgrudavam de mim, ficaram andando comigo pra baixo epra cima de mãos dadas. Quando chegou a hora de entrar eu pensei: quero ir não. Vou não! Mas M, que é sabia com o dinheiro disse que eu deveria ir sim pra trazer dinheiro pra casa, porque meu pai não está trabalhando e tem a escola pra pagar. Sim, você tem razão..por você eu vou até mesmo a Goiania, meu amor.
Tenho deixado recados no Orkut delas. Sinto saudades de casa, sinto falta de ler de noite com M e de falar de beijo na boca com S. Fui eu que ensinei pra ela, mostrando com as mãso, como deve mexer a língua no beijo na boca. Ela prestou atenção porque na mesma noite veio me dizer que tinha beijado de língua. Aprende rápido essa menina.
E tenho saudades dele, do melhor abraço do mundo, do quentinho, do beijinho e dele me chamando de bonequinha.
Eu, IRS, Kafka, uma casa amerela, um namorido, duas meninas, dois peludos e muitos sonhos.



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2009-03-22T15:05:37.122-03:00
Drama Kafkaniano
É estranho escrever sabendo que somente vocês, os VIPS, podem me ler. Não sei quanto tempo deixarei o blog fechado para o mundo externo, mas desde que Israel anunciou que todo cuidado é pouco para israelenses fora de Israel (como se dentro fosse mais seguro!), e principalmente no Brasil, achei que deveria fechar as cortinas. Vamos ver.
Esses últimos dias tenho tido vontade de gritar e hoje, quando sair de noite, já disse que vou virar uma garrafa de champagne. É que miha vida virou um drama kafkaniano, onde eu corro atrás do próprio rabo. A burocracia de três países está drenando toda a minha energia e minha vontade é de berrar.
Quer saber? Pois o IRS, aquele mesmo que pegou o Al Capone de jeito, tá atrás do meu rabo pela modésta conta de $27,000.00. Na verdade eu não peguei todo esse dinheiro fiado do Tio Sam não, e nem metade e nem é nada disso, mas vou ter que explicar. Aí eu ligo pro contador, lá nos EUA, ele não atende. Aí tenho vontade de pegar um avião e ir lá resolver pessoalmente. Mas não posso porque meu passaporte expirou. Aí preciso tirar um passaporte e aqui não consigo porque aqui metade dos meus documentos estão com meu nome de solteira e a outra metade com nome de casada. Então coloca tudo no nome de casada, mas acontece que não sou mais casada, sou viúva, e pra provar isso preciso da certidão de óbito do David com um carimbo da Embaixada Brasileira. Então vai lá na Embaixada e leva o documento. Não posso ir na embaixada lá nos EUA porque não tenho passaporte. Então tira o passaporte com a certidão de nascimento e diz que perdeu a identidade, e fica com passaporte com nome de solteira mesmo, mas não posso porque o eu solteira não tem greencard e não vai conseguir tirar o visto pra entrar nos EUA, só o eu casada é que tem greenacrd e entra e sai a hora que quer.
Agora dorme com um barulho desses?
Aí liguei pra gata. Socorro! Pelo amor de Deus. Só vou conseguir tirar o meu passapore ai nos EUA. Me ajuda. Enviei pra ela, não chegou ainda na Embaixada. Enquanto isso, eu esperando. O IRS atrás de mim, a Tim não traz o celular e a adolscente beijoqueira lá de casa já não aguenta mais esperar pelo celular. Eu tenho viagem marcada pra Portugal, e passagem comprada. Mas não tenho passaporte.
Mas tenho M que me escreve testemunhos carinhosos e impagáveis no meu Orkut. Ela diz que resolveu comprar a nova casa da Barbie, que eu paguei 5/6 e ela 1/6, para que eu possa brincar de boneca. Ela diz que voltou a brincar com a Barbie por minha causa. Tudo bem, porque eu voltei a ler por causa dela.



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2009-03-22T15:07:21.572-03:00
O mundo e flat
Por questões de segurança, este blog estará disponível, temporariamente, somente para convidados. Estou adicionando os e-mailsl dos amigos aos pucos. Se seu email ainda não tiver sido adicionado, escreva pra mim.
Aos leitores anônimos, mais que queridos, peço milhões de perdões. Se o mundo fosse de fato a better place, isso não seria necessário.
Esta é uma medida temporária, não pretendo que continue por muito tempo.
beijos em todos



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2008-08-26T17:58:47.622-03:00
Notícias daqui
Querida amiga,

Tenho ma coisa pra te contar. É sobre a sua filha. É que hoje, bem hoje, nesse dia nublado, que só foi mais ou menos pra mim e para outros trabalhadores do meu Brasil, sua filha, sim aquela mesma, aquela que de vez em quando faz caras e bocas, aquela...Bem minha amiga, o que quero te dizer é que sua filha, aquela coisa fofa, mas que ás vezes tenho vontade de esganar porque adolescente inspira umas coisas na gente muto inesperadas, mas aquela lindinha que fala com aquela voz macia, mas que às vezes também grita do outro lado da casa e espera que eu escute, que reclama do sabonete e que não gosta de carne moída misturada no macarrão porque ela não consegue "ver" o que tem na comida, aquela sabe, que quando eu e o pai saímos ela liga no celular 3 vezes e pergunta que horas vamos voltar porque aqui na serra, sabe, é mesmo muito perigoso, aquela menina inteligente que já tá falando mais e melhor que todos, que é rápida como uma lança, que é esperta como que, e que com o tempo, e com muito amor, vai perder o medo e vai se livrar da dor, e também dos anos de adolescente porque querida, te confesso, mais 3 anos e já chega, que venha logo a idade adulta, e que se não vier ou vou encomendar pelo sedex porque assim não há tintura no mundo pra cobrir todos os cabelos brancos que aquela ainda vai me trazer. Pois falo da sua filha, por vezes mimada, por vezes madura, que não gosta quando o cabelo dela fica cheio e que lava o cabelo antes de ir pra cama que é pro calor do travesseiro abafar qualquer fio mais assanhado, aquela que adora usar calça de cintura baixa, e olha que eu também uso calça de cintura baixa, mas ela usa super baixa, baixíssima, e olha que até é um bom exemplo pra usar pra ensinar pra ela sobre os superlativos, que as vezes ficam até aparecendo um pouquinho quando ela discuida.
Querida amiga, te escrevo hoje pra lhe mandra notícias daqui e pra te dizer que a sua filha, aquela linda, beijou na boca hoje pela primeira vez.
Mazoltov!





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2009-03-22T15:01:59.497-03:00
Cores de Chiquinho
Sim, ele está de volta. E em sua chegada inesquecível, fez xixi na cortina da sala. Mas o que salva Chiquinho das trevas, dos árabes e da amargura da rua é que ele é muito gracinha. E tanto eu como S e M gostamos dele.
Mas ontem a noite, quando eu fui pra cama de M ler Ziraldo pra ela pela primeira vez, descobrimos juntas um segredo a mais sobre Chicks.
Acho que foi M que me fez voltar a ler. Ela adora ler e gosta ainda mais quando eu pego meu livro e vou ler na cama dela. Ficamos as duas grudadinhas naquela cama de solteiro que já era pequena e que as vezes ainda inclui Bebel, que na cama consegue se transformar na cadela mais longa do planeta. E ficamos quetinhas as duas lendo. As vezes ela me pergunta o que está acontecendo na minha história e se o Kevin já matou todos na escola, como ele de fato fará em alguma quinta-feira, já que Eva, sua mãe, chama aquele dia fatídico simplesmente de Thursday. Eu conto pra ela a útima página que li e ela me conta sobre as fadas de seu mundo. Na maioria das vezes eu acabo adormecendo na cama dela, e ela me acorda e me diz que é hora de eu pra minha cama. Ela tem 10 anos.
Mas ontem, como eu dizia, descobrimos algo extraordinário. Quando olhávamos em volta em busca de uma coisa que fosse flics, e não conseguíamoas achar, e estávamos quase desistindo, M disse aos berros. Já sei! Já sei! Olha a orelha do Chiquinho! Olha!!
Sim, M está certa. Como não poderia deixar de ser, a orelha do Chiquinho, assim como a lua olhada pelo austronauta, é nada mais nada menos do que o mais Flictz que se conhece.
Boa noite, M. É minha hora de dormir minha fadinha.




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